ERNESTO RODRIGUES|ESTADÃO
ERNESTO RODRIGUES|ESTADÃO

Morre, aos 99 anos, Boris Schnaiderman

Considerado o pai da tradução da ficção russa para o português, ele foi internado após quebrar o fêmur e não resistiu a uma pneumonia

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

18 de maio de 2016 | 21h43

Escritor, tradutor e professor do curso de Língua e Literatura Russa da Universidade de São Paulo (USP), Boris Schnaiderman morreu no início da noite desta quarta-feira, 18, aos 99 anos, em decorrência de uma pneumonia. Ele estava internado no Hospital Samaritano desde a semana passada, depois de fraturar o fêmur. O velório será nesta quinta, 19, no Centro Universitário Maria Antônia, entre 8h30 e 14h. Após esse horário, o corpo será levado para o Crematório da Vila Alpina.

Casado com a ensaísta e professora Jerusa Pires Ferreira, Boris nasceu em 17 de maio de 1917, em Úman, na Ucrânia, e emigrou da União Soviética com a família em 1924. Chegaram ao Rio em 1925 e escolheram São Paulo para viver.

Schnaiderman foi o grande responsável por difundir a literatura russa no Brasil com suas traduções diretas – antes, o que chegava era traduzido do inglês e do francês – e por formar toda uma geração de tradutores. Foi ele quem criou o curso de língua e literatura russa da USP, em 1963. 

Aposentado desde 1979, continuou ligado à universidade e, sobretudo, à tarefa de tradutor. Verteu para o português importantes obras de autores como Dostoievski, Tolstoi, Chekhov, Máximo Gorki, Isaac Babel, Boris Pasternak, Pushkin e Maiakovski. E atuou como uma espécie de consultor informal de editoras, como quando, sugeriu que a 34 lançasse Contos de Kolimá, brutal relato em vários volumes de Varlam Chalámov sobre a vida no gulag. 

Em 1941, o russo naturalizado brasileiro se juntou à Força Expedicionária Brasileira e lutou na Segunda Guerra Mundial. Por ter nascido na Ucrânia, ele não teria obrigação de ir para a guerra, mas prestar o serviço militar alimentou sua vontade de combater o nazismo.

Da experiência, nasceram dois livros: o romance Guerra em Surdina (1964) e, mais recentemente, em 2015, o autobiográfico Caderno Italiano (Perspectiva) – o acerto de contas com o passado vivido 70 anos antes. À época do lançamento, ele disse ao Estado: “Levou tempo para superar obstáculos. Havia impedimentos, problemas pessoais. Agora, que muita gente morreu, já não há necessidade de guardar segredo sobre certas coisas”.

Boris foi colaborador assíduo do Estado desde o Suplemento Literário. Seu último texto, publicado em 9 de maio, foi uma resenha do livro 1942 – O Brasil e Sua Guerra Quase Desconhecida, de João Barone.

Leia o último texto publicado por Boris Schnaiderman no 'Estado'

"O falecimento do Boris é uma perda imensa para a cultura brasileira e irreparável para a divulgação e a recepção da literatura e da cultura russa no Brasil. Boris aliava algumas qualidades indispensáveis no intelectual e ser humano: uma inteligência vibrante, ativa e atenta a tudo o que acontecia ao seu redor; uma erudição ampla, que ele sempre fazia questão de dividir com todos com quem convivia; uma generosidade sem fim aos amigos, colegas, pupilos e a todos aqueles que desejassem privar do seu vasto saber. E, por fim, uma qualidade sem a qual não existe nenhum sábio e intelectual de verdade: a modéstia. Conversar com o Boris era um aprendizado sempre muito prazeroso."

Paulo Bezerra, tradutor  

“Me surpreendia muito a modéstia do Boris, ele era muito coerente, muito digno e muito consciente do próprio valor, mas não se deixava levar pelo jogo de elogios. Tinha um silêncio particular e colocou-se existencialmente no lugar do tradutor.”

Alberto Martins, escritor

“Era uma pessoa admirável em todos os sentidos. Foi um grande professor, tradutor e escritor. Acho que ele criou um núcleo de tradução do russo na USP e isso foi importantíssimo. Foi um homem extraordinário. Neste país em que se extingue o Ministério da Cultura, ele nunca foi tão importante.”

Milton Hatoum, escritor

“Estamos todos órfãos com a perda desse pai fundador. Se o Brasil tem os estudos de russo mais avançados da América Latina, deve-se justamente à presença entre nós dessa figura singular que foi Boris Schnaiderman. Ele constituía para nós um paradigma ético, estético e intelectual. Pessoa calorosa e generosa, de formação abrangente e apetite intelectual pantagruélico, Boris formou, direta ou indiretamente, gerações de tradutores e estudiosos da cultura russa. Tratava-se de um ourives, perfeccionista, a retrabalhar incessantemente suas traduções, sempre em busca da palavra justa, do tom certo, da frase exata. Até o fim, Boris jamais perdeu a centelha criativa, a vontade de aperfeiçoar o que já parecia perfeito, o interesse por tudo que era humano.”

Irineu Franco Perpétuo, tradutor e jornalista

 

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