EFE/EPA/ANDERS WIKLUND SWEDEN OUT
EFE/EPA/ANDERS WIKLUND SWEDEN OUT

Modiano: 'o escritor deve revelar o mistério do que há no mais profundo de cada pessoa'

Prêmio Nobel de Literatura foi entregue ao francês neste domingo, 7

Carmen Rodríguez, EFE

08 Dezembro 2014 | 16h48

ESTOCOLMO - O Prêmio Nobel de Literatura, Patrick Modiano, disse neste domingo, 7, que o papel do escritor é “revelar” o mistério que se encontra no mais profundo de cada pessoa, como “uma espécie de vidente e mesmo de visionário”.

Modiano (1945) comentou em Estocolmo, onde pronunciou sua conferência após ser galardoado com o Nobel, que era a primeira vez que falava a uma plateia tão numerosa, e assinalou que o escritor costuma ter “um relacionamento difícil com a palavra”, pois é mais dotado para a palavra escrita do que para a falada.

Assim, com voz suave e por vezes hesitante, pelo “costume de emendar” os escritos, o escritor francês fez um belo discurso no qual se referiu aos temas que marcam sua obra: a escritura, a memória e o olvido, sem deixar de lançar um olhar para o futuro marcado pela Internet, e de lembrar de sua cidade, Paris.

Modiano afirmou que o escritor confere “mistério aos seres que parecem submersos pela vida cotidiana, às coisas aparentemente banais” de tanto observá-las “com uma atenção persistente e de maneira quase hipnótica”.

“Sob seu olhar, a vida corrente acaba envolvendo-se em mistério e adquire uma espécie de fosforescência que não tinha à primeira vista, mas que estava escondida no profundo. O papel do poeta, do escritor e também do pintor, consiste em revelar este mistério, “que está no íntimo de cada pessoa”.

O autor de O lugar da estrela, para quem “um escritor não pode ser nunca seu próprio leitor”, esmiúça o processo da escritura, esta “curiosa atividade solitária”, desde as primeiras páginas, em que o escritor acredita não estar indo por um bom caminho, até o momento de escrever os últimos parágrafos.

Neste momento final, “o livro manifesta certa hostilidade em sua pressa de libertar-se” do escritor. “Acabou, já não precisa de nós, já nos esqueceu”, o que provoca um sentimento de abandono que o leva a escrever o próximo livro “para restabelecer o equilíbrio”, embora nunca consiga, explicou.

Modiano obteve o Premio Nobel “pela arte da memória com a qual evocou os mais enigmáticos destinos humanos e revelou a vida cotidiana nos anos da ocupação” nazista da França, segundo as motivações expostas pela Academia sueca.

Assim, lembrou da Paris da Ocupação, pois ele deve seu nascimento a esse momento e a este lugar: Paris, uma “cidade estranha” onde aparentemente tudo continuava como antes, mas que, como alguns detalhes “insólitos” mostravam, não era mais a mesma, por exemplo, o silêncio.

A Paris da Ocupação “que para mim foi sempre como uma noite original, Sem ela, eu nunca teria nascido. Esta Paris nunca deixou de me visitar e sua luz velada,,em certas ocasiões, banha meus livros”.

Ao longo de quase 45 minutos, Modiano lembrou outros escritores, como o poeta irlandês Yeats, dos quais leu alguns trechos, e inclusive rememorou um episódio da infância de Alfred Hitchcock, como amante do cinema porque também é roteirista.

Como autor pertencente a uma geração intermediária entre o século 19, quando o tempo parecia passar de uma maneira mais lenta, e a pressa do século 21, Modiano expressou sua curiosidade pelo futuro da literatura, embora se tenha mostrado otimista.

“Tenho curiosidade de saber como as gerações seguintes, que nasceram com a Internet, com o celular (...), expressarão com a literatura este mundo no qual as pessoas estão sempre conectadas, e onde as redes sociais acabam com parte da intimidade e do segredo que, até uma época recente, era o nosso apanágio. O segredo que dava profundidade às pessoas e que podia ser um grande tema literário”.

Modiano lembrou ainda de sua infância, durante a qual com frequência ficou longe dos pais, que o confiavam a amigos. Anos mais tarde, esta situação lhe pareceu “enigmática”, então procurou saber algo mais a respeito daquelas pessoas, mas sem conseguir na maioria dos casos.

“Esta vontade de resolver enigmas sem realmente conseguir, e procurar penetrar um mistério, me deu vontade de escrever, como se a escritura e o imaginário pudessem me ajudar a resolver finalmente estes enigmas e estes mistérios”, afirmou.

Modiano, que no final da conferência ouviu aplausos muito prolongados, referiu-se à “arte da memória” em sua obra e ao fato de, por ter nascido em 1945, “depois que cidades foram destruídas e populações inteiras desapareceram”, ter-se tornado “indubitavelmente” mais sensível aos “temas da memória e do olvido”.

Modiano tem a “impressão” de que, hoje, a memória está menos segura de si mesma e deve lutar constantemente contra a amnésia e o olvido”. 

“Mas, sem dúvida, é a vocação do escritor diante desta grande página em branco que é o olvido, que faz ressurgir algumas palavras meio borradas, como icebergs perdidos à deriva na superfície do oceano”, concluiu Modiano. / Tradução de Anna Capovilla 

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