Mistério do desaparecimento de Saint-Exupéry está perto do fim

Confissão de piloto alemão traz novas pistas para investigação da desaparição do autor de 'O Pequeno Príncipe'

The New York Times,

11 de abril de 2008 | 16h03

Após o desaparecimento de Amelia Earhart, a morte de Antoine de Saint-Exupéry em uma missão de reconhecimento na Segunda Guerra Mundial há muito é considerada um dos maiores mistérios da aviação. Agora, graças à tenacidade e sorte de dois arqueólogos amadores, as últimas peças do quebra-cabeça parecem ter sido encaixadas. A história que emergiu sobre o desaparecimento do aviador francês Saint-Exupéry, também escritor e emigrante da França de Vichy, provou conter várias narrativas, de complexidade que poderia agradar ao autor de O Pequeno Príncipe - livro que conta a história de um pequeno viajante interestelar e ainda traz um profundo relato da fé. Em 31 de julho e 1994, Saint-Exupéry partiu da ilha de Corsica em um avião Lockheed Lightning P-38 num vôo de reconhecimento de território inimigo. O aviador nunca retornou, abrindo caminho para diversas teorias: algumas dizem que seu avião foi abatido, outras que o piloto perdeu o controle da aeronave e há quem defenda um suposto suicídio. A primeira pista apareceu em setembro de 1998, quando um pescador de uma cidade portuária do Mediterrâneo encontrou em sua rede um bracelete de prata, contendo os nomes de Saint-Exupéry e de seu editor nova-iorquino. Depois disso, investigações feitas por mergulhadores acharam destroços em mau estado de seu avião, mas o corpo do piloto nunca foi encontrado. "Eu tinha visto Titanic e após algumas taças de bebida eu pensei, 'vamos fazer um filme, e choverão dólares'" disse Jean-Claude Bianco, de 63 anos, que encontrou o bracelete. O filme nunca foi feito, mas a notícia do descobrimento da peça levou o mergulhador e arqueólogo marinho Luc Vanrell, de 48 anos, a inspecionar de perto destroços que ele havia achado no oceano há alguns anos, enterrado na areia do fundo do mar, a 170 pés do local onde os destroços do avião de Saint-Exupéry foi encontrado. Um número serial do motor a um símbolo da Skoda, empresa tcheca de automóveis, provou que a descoberta era parte de um motor de avião Daimler-Benz V-12. Em 2005, depois de numerosos atrasos burocráticos, Vanrell e outro mergulhador, Lino von Gartzen, trouxeram o motor à superfície e o envio para Munique, na Alemanha, para ser analisado por especialistas. O estudo indicou que o motor era parte de uma série produzida no começo de 1941. Os pesquisadores deduziram que a peça equipou o avião de guerra Messerschmitt, que fazia parte de uma unidade de treinamento no sul da França entre 1942 a 1944. Seu último vôo ocorreu em 1943, com o príncipe Alexis von Bentheim und Steinfurt, quando a aeronave foi abatida por aviões americanos em 1943.  O conto poderia acabar aí, com a morte do príncipe e do autor de O Pequeno Príncipe. Mas von Gartzen não estava contente. Consultando arquivos, com a ajuda de funcionários de Jägerblatt, uma revista para veteranos da Força Aérea Alemã, o mergulhador encontrou veteranos que voaram na unidade do príncipe von Bentheim, a Jagdgruppe 200. Ele entrou em contato com centenas de ex-pilotos, a maioria com 80 anos, e outros que hoje já estão mortos. Confissão Em julho de 2006, von Gartzen telefonou para um ex-piloto de Wiesbaden, Horst Rippert, explicando que ele buscava informações sobre Saint-Exupéry. Sem hesitar, Rippert respondeu, "Você pode parar de procurar. Eu derrubei o avião de Saint-Exupéry". O ex-piloto, que fará 86 anos em maio, trabalhou na televisão como repórter de esportes com o término da guerra. Após alguns dias de abater próximo a Marselha o P-38 com as cores da França, soube do desaparecimento de Saint-Exupéry. Ele esteve convencido que derrubou o avião, mas havia confessado o incidente apenas a seu diário. Em 2003, quando soube que o avião do autor havia sido encontrado, sua suspeita foi definitivamente confirmada. Rippert, porém, não dizia nada em público. Durante anos, a hipótese de que ele poderia ter matado Saint-Exupéry perturbava Rippert. Quando o piloto era jovem, nos anos 30, ele idotrava o aviador e escritor e já havia devorado seus livros, começando por Southern Mail, de 1929, um conto de aventura escrito por Saint-Exupéry quando o autor voava pela rota Casablanca-Dakar. Quando a identidade de Ripper finalmente veio à tona em março, uma avalanche de pedidos de entrevista trouxe o incidente de volta à lembrança do piloto. "Os últimos dias foram horríveis, com o telefone tocando e pessoas na minha porta em todas as horas do dia e da noite", disse a mulher do piloto. Não há evidências que comprovem a responsabilidade de Rippert no caso, porque os documentos - como registros de vôo - foram destruídos durante a guerra. Mas Rippert descreveu em detalhes a von Gartzen como, no verão de 1944, o radar alemão alertou seu esquadrão aéreo em Marignane, próximo à Marselha, que um grupo de forças Aliadas sobrevoava o Mediterrâneo. Na época, quando a rádio alemã interceptou reportagens americanas anunciando a busca por Saint-Exupéry, ele começou a suspeitar de que havia matado seu ídolo. "Havia lágrimas nos olhos dele" ao comentar o incidente, disse von Gartzen. A falta de evidências, além das circunstâncias, levou alguns a mostrarem uma certa descrença na história, inclusive von Gartzen. "Vai além dos princípios normais da probabilidade", disse. "Apesar de tudo, há uma hipótese bem embasada." Em Paris, o sobrinho-neto de Saint-Exupéry, Olivier d’Agay, o porta-voz da família, disse que a versão de Rippert é aceitável. "Tudo o que ele disse foi que acertou e derrubou um P-38 naquela região em 31 de julho. Rippert nunca disse que matou Saint-Exupéry", afirmou. "Ripper disse que muitas vezes se sentia desesperado. Se ele soubesse o que estava fazendo, nunca poderia fazer isso", avaliou.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.