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MinC não garante política de incentivos à tradução de autores brasileiros no exterior

Juca Ferreira diz que não pode evitar possíveis cortes orçamentários

Andrei Netto - CORRESPONDENTE, O Estado de S. Paulo

20 Março 2015 | 19h22

PARIS - O Ministério da Cultura (MinC) não garante que o governo brasileiro vá manter a política de incentivos à tradução de autores do País no exterior. A incerteza foi revelada ontem, em Paris, pelo ministro Juca Ferreira, segundo quem os contingenciamentos do orçamento a serem decididos pela presidente Dilma Rousseff na próxima semana ainda podem atingir a Cultura. Para a curadora da participação do Brasil no Salão do Livro de Paris, Guiomar de Grammont, o incentivo às traduções é decisivo para a exposição da literatura brasileira no mundo.

Ferreira admitiu que a política de incentivos culturais, em especial o Programa de Apoio à Tradução e à Publicação de Autores Brasileiros no Exterior, coordenado pela Fundação Biblioteca Nacional, pode ser prejudicada se eventualmente o MinC for atingido pelos contingenciamentos. Desde que foi criado, o projeto já resultou na tradução de mais de 400 livros para línguas estrangeiras, o que, segundo acadêmicos e especialistas do mercado editorial, é crucial para o aumento da exposição de escritores no exterior.

Essa política esteve na base da participação de autores do País em eventos como o Ano do Brasil em Portugal, da Feira de Frankfurt e agora do Salão do Livro de Paris, evento aberto ontem e que tem 44 autores brasileiros como convidados especiais. 


Questionado sobre os efeitos de um eventual corte no programa de divulgação da literatura, Ferreira reconheceu que a Cultura pode ser atingida. “Espero que os cortes permitam que a gente dê continuidade a um programa vitorioso, que está construindo a visibilidade da literatura brasileira no exterior e dando a possibilidade de autores brasileiros se expandirem para outros públicos leitores”, disse o ministro. “Mas o momento é de que o Brasil exige que o MinC seja solidário nesse processo de contenção de despesas.”

Juca Ferreira comparou o orçamento do ministério a uma pessoa esquálida. “Se você tirar 30% da alimentação de uma pessoa esquálida, pode até inviabilizar a vida. O Ministério da Cultura já tem historicamente um dos menores orçamentos do governo e não pode ter o mesmo tratamento que ministérios e políticas que têm orçamentos muito significativos”, argumentou. “É preciso ter um carinho e um cuidado específico com o ministério para que ele não se inviabilize.”

Indagado se poderia garantir a manutenção do Programa de Apoio à Tradução, Ferreira declinou. “Não posso garantir porque o orçamento brasileiro acabou de ser aprovado e depois disso o governo vai administrar esses recursos contingenciando uma parte (ainda desconhecida). Se o contingenciamento for mantido como está hoje, posso garantir que a política vai continuar. Mas não sei de quanto pode ser o contingenciamento. Espero que zero.”

Para Guiomar de Grammont, a política de apoio à tradução é decisiva para a exposição dos escritores brasileiros no exterior. O mesmo alerta é feito por Leonardo Tonus, outro curador e professor de Literatura na Universidade de Paris-Sorbonne (Paris IV). “Sem o apoio do Brasil, editoras que nasceram voltadas à publicação de literatura brasileira e lusófona correm o risco de desaparecer, como é o caso de projetos inovadores como a de Paula Anacaona.”

Editores do País, como Roberto Feith, diretor-geral da editora Objetiva, confirmam essa influência positiva. “Se o programa for eliminado, isso terá um impacto negativo”, entende. “O interesse pela literatura brasileira sempre houve, a curiosidade está aí, uma vontade de conhecer mais, seja na China, na Alemanha, nos Estados Unidos. Mas a barreira da língua é inegável.”

Desde que o programa foi criado, autores históricos, como Guimarães Rosa e Jorge Amado, e emergentes, como Adriana Lunardi, Marcelo Ferroni e João Paulo Cuenca, foram beneficiados pelo incentivo à tradução.

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