Imagem Sérgio Augusto
Colunista
Sérgio Augusto
Conteúdo Exclusivo para Assinante

Millôr estava sempre voando alto, ‘livre como um táxi’

Colunista do 'Estado' e convidado da Flip, Sérgio Augusto lembra os encontros com Millôr nas principais redações do País

Sérgio Augusto, Especial para O Estado de S. Paulo

30 de julho de 2014 | 02h00

Não me lembro com precisão de quando vi pela primeira vez as duas páginas do Pif-Paf do Millôr, em O Cruzeiro. Muito criança ainda, meu limitado repertório não era capaz de assimilar todas aquelas observações e brincadeiras dele com uma infinidade de assuntos – comportamento, fait divers, literatura, cinema, política, esporte, ciência, filosofia, rádio, medicina, publicidade etc –, mas o encanto foi imediato e perene. 

No início cheguei a imaginar que por trás do bizarro nome de Emmanoel Vão Gôgo, com o qual assinava o Pif-Paf, se escondessem vários humoristas. Mas era um só e na verdade se chamava Millôr Fernandes. Dado a outros disfarces: Milton à Milanesa, Volksmillor, Adão Jr. (o primeiro neto de Deus, certo?), Patrícia de Queiroz. Sempre engraçado, inventivo, iconoclasta. E cético. Tão cético que não acreditava nem no refluxo das marés. E muito menos no ceticismo. São Tomé? Um crente.

Levei bem uns dez anos para conhecê-lo pessoalmente, na redação de O Cruzeiro, quando lá fui participar de uma reforma editorial que durou menos que uma gravidez – e afinal abortou. Millôr só ia à revista às sextas-feiras, entregar em mãos o Pif-Paf, vestido como se fosse dar expediente numa repartição. Anos depois, trabalhamos juntos no Pasquim e na Veja, quase nos cruzamos no Jornal do Brasil e na Isto É; fomos sobretudo censurados juntos pela ditadura militar. Amigos de toda a vida, nunca discutimos, nunca brigamos, nem sequer ficamos amuados um com o outro por alguma discordância, algo assaz frequente na redação do Pasquim, com tantos egos em rota de colisão. 

Tive a sorte de conviver com um bocado de gente culta e inteligente, mas não conheci ninguém mais versátil, estimulante e criativo que Millôr. Era falante e divertido, mas não fazia o gênero “humorista social”, vulgo engraçadinho, que para tudo tem uma piada, a maioria sem graça. De uma feita, ao ser apresentado a um general numa festa, este, efusivo (“Como então este é o grande humorista Millôr Fernandes!”), pediu-lhe que contasse uma piada. “Só se o senhor der um tiro de canhão pra gente ver”, contrapropôs Millôr, perplexando o milico pro resto da noite. 

Por não ser Deus, mas apenas seu neto, e assim mesmo de vez em quando, não era bom de profecia. Previu que morreria em 1959, com os mesmos 36 anos que seus pais tinham ao morrer, e chegou a publicar um conto sobre essa cabalística desconfiança na revista A Cigarra, em 1945. Como é sabido, durou até os 88, embora fosse justo esperar que, com sua saúde de ferro, sua vida atlética e a moderação alimentícia que aprendeu com Thomas Jefferson, chegasse aos cem, o que nos garantiria, ao câmbio de hoje, mais nove anos de convivência com seu gênio. 

Como defini-lo numa frase? Se não for abusar muito, adaptarei para ele uma divisa por ele bolada para o Pasquim: “Livre como um táxi”. Ao substituir o pássaro pelo táxi, Millôr não só driblou um clichê como modernizou uma metáfora. Não que tivesse alguma coisa contra os pássaros. Ao contrário, inspirados por eles criou uma de seus melhores aforismos: “Os pássaros voam porque não têm ideologia”. Millôr passou a vida voando. E nós aqui embaixo, admirando e invejando.

Tudo o que sabemos sobre:
FlipMillôrSérgio AugustoLiteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.