Edgard Garrido/Reuters
Gabriel García Márquez morreu em abril de 2014 Edgard Garrido/Reuters

México transforma casa em que García Márquez escreveu 'Cem Anos de Solidão' em espaço literário

Gabriel García Márquez, que nasceu em 6 de março de 1927 e morreu em 17 de abril de 2014, é homenageado na Cidade do México, onde escreveu seu clássico literário

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

03 de março de 2020 | 08h12

A casa onde Gabriel García Márquez (1927-2014) escreveu sua obra-prima Cem Anos de Solidão vai virar um espaço literário. O anúncio foi feito às vésperas do aniversário do escritor - ele nasceu no dia 6 de março (e morreu no dia 17 de abril de 2014).

A casa fica fica no bairro San Ángel Inn, na Cidade do México. García Márquez viveu ali, naquele imóvel alugado, entre 1965 e 1967, assim que desembarcou no País.

Segundo a ANSA, a Fundação para as Letras Mexicanas (FLM), que recebeu a residência como doação de Laura Coudurier, filha do antigo senhorio de García Márquez, Luis Coudurier, ficará responsável pela adaptação do espaço.

Ainda de acordo com a agência, Gabo atrasou o aluguel por alguns meses. Quando o proprietário ligou para cobrar, Mercedes Barcha, mulher do escritor, disse que o casal não tinha dinheiro porque ele estava trabalhando num romance novo e que pagariam dali a 9 meses. Coudurier disse que tudo bem.

Gabriel García Márquez escrevia justamente Cem Anos de Solidão, que, lançado em 1967, viraria clássico.

A casa tem 260 metros quadrados, três quartos e dois banheiros e mantém as mesmas características de quando a família do escritor viveu ali.

O tradutor e crítico literário Geney Beltrán vai cuidar das atividades da futura Casa-Estúdio Gabriel García Márquez ao lado do escritor Juan Villoro. A ideia é que o local, que ainda não tem data prevista de inauguração, seja um espaço de incentivo à criação e ao debate.

Por falar em Gabriel García Márquez e em seu clássico literário, a Netflix disse recentemente que ainda sabe quando lança a série adaptada de Cem Anos de Solidão e que tudo está sendo feito com calma.

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O que levou 'Cem Anos de Solidão' a ser sucesso mundial

No 50º aniversário da obra, pesquisador diz que Gabriel García Márquez transcendeu estilos e conquistou público; ele prepara o livro 'Ascensão Para a Glória: A Transformação de Cem Anos de Solidão em um Clássico Global'

Alex Segura Lozano, EFE

05 de junho de 2017 | 06h00

A publicação de Cem Anos de Solidão, há 50 anos, foi cercada de uma série de conjunturas favoráveis que permitiram à obra atingir o Olimpo literário e ser considerada uma das mais importantes do século 20 

Em 5 de junho de 1967 a editora argentina Editorial Sudamerica publicou o livro que acabara de ser impresso em 30 de maio, de um autor colombiano residente no México pouco conhecido e que transformou o povoado fictício de Macondo em um lugar mágico para milhões de leitores do romance.

“No momento da sua publicação, uma coincidência de fatos  aplanaram o terreno para o futuro sucesso mundial desta grande obra” disse o pesquisador espanhol Álvaro Santana, que passou oito anos estudando o romance e no final do ano publicará seu livro Ascensão Para a Glória: A Transformação de Cem Anos de Solidão em um Clássico Global”.

Segundo Santana, doutor em sociologia pela Universidade de Harvard e pesquisador convidado do Harry Ransom Center de Austin, Texas, (que abriga o arquivo documentando a vida e a obra do escritor), a combinação de vários fatores no momento em que nasceu a obra foram determinantes para seu sucesso imediato.

Em1967 a indústria editorial espanhola alcançou seu auge em uma década, depois que, cinco anos antes, o ditador Francisco Franco abrandou a censura e abriu as portas para a publicação de grandes autores hispano-americanos, como Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e José Donoso.

Além disso, em meados da década de 60 observou-se uma retração dos grandes estilos literários predominantes até então, incluindo o indigenismo latino-americano, considerado por demais regionalista, o realismo social espanhol, visto como previsível e dotado de uma linguagem austera, e o novo romance francês, criticado pelo tipo de prosa excêntrica. 

Leia também: TV - 'Caderno 2' faz homenagem a 'Cem Anos de Solidão'

Para o pesquisador, Gabo, como García Márquez era conhecido, criou uma narrativa em Cem Anos de Solidão que transcendia esses três estilos ao mesmo tempo, o que permitiu que diferentes públicos fossem unânimes em exaltar a originalidade da sua obra.

Na América Latina ela foi vista como um romance cosmopolita que se afastava do regionalismo indigenista; na Espanha o livro foi considerado um vulcão linguístico e pura fantasia, longe do austero linguajar do realismo social, e os leitores internacionais apreciaram a volta da narrativa mais clássica no romance, diferente do movimento francês.

Por último, também em 1967 o guatemalteco Miguel Ángel Asturias tornou-se o segundo autor latino-americano a receber o Prêmio Nobel de Literatura, depois de Gabriela Mistral (1945).

“Então, o que estava na vanguarda era o romance hispano-americano e Cem Anos de Solidão foi o grande best-seller em 1967 na América Latina, afirma Santana, que também é professor assistente no Withman College, no Estado de Washington.

Todos esses fatores prepararam o terreno para o rápido êxito do livro de García Márquez, que, se publicado dez ou vinte anos antes, “não teria alcançado tamanho sucesso de vendas” quando foi publicado, afirmou o pesquisador.

Era um trabalho de um autor “muito pouco conhecido” fora dos círculos literários da Argentina, Colômbia e México, que vivia em uma nação que não era a sua, e cujo país, a Colômbia, não tinha reputação literária internacional, e que narrava uma história muito complexa, repleta de personagens.

A pesquisa feita por Santana também focou na descoberta de sete capítulos esquecidos do livro, episódios soltos que o autor publicou para sondar o público antes de concluir o romance.    

García Márquez publicou esses sete capítulos, que representam mais de um terço do romance, em jornais e revistas que circulavam em mais de vinte países, para avaliar a reação dos leitores e assim aperfeiçoar seu relato, promover o livro e dissipar suas dúvidas quanto à qualidade do texto.

Esses sete capítulos caíram no esquecimento porque se acreditava serem idênticos aos publicados na primeira edição de 1967. Mas não foi o que ocorreu: desde a primeira página há mudanças na linguagem, na estrutura, na ambientação e descrição dos personagens.

“Por isto esses capítulos esquecidos são de um grande valor literário para entendermos como foi escrito o romance”, disse o pesquisador, para quem o perfeccionismo de García Márquez como escritor foi o que mais o impressionou nos seus anos de pesquisa.

Tradução de Terezinha Martino 

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'Cem Anos de Solidão' foi lançado em 1967

Mais importante obra do escritor colombiano foi publicada em maio de 1967 e já vendeu mais de 30 milhões de cópias no mundo todo

Redação, O Estado de S. Paulo

24 de maio de 2017 | 16h08

Um dos mais importantes romances da história da literatura, Cem Anos de Solidão celebra seus 50 anos este mês. A obra do escritor colombiano Gabriel García Márquez, vencedor do Prêmio Nobel de Literatura em 1982, chegou às livrarias - primeiro, na Argentina - em maio de 1967.

A história é situada da mítica Macondo, aldeia fictícia criada por Gabo. É lá que vive a família Buendía – Iguarán, protagonista desta história em suas diversas gerações. Os personagens de Cem Anos de Solidão são visitados por fantasmas, uma praga de insônia envolve Macondo, uma criança nasce com rabo de porco e um sacerdote levita sobre o chão. Mas essa é só uma parte do cultuado romance. 

Leia também: TV - 'Caderno 2' faz homenagem a 'Cem Anos de Solidão'

“A fascinação mundial despertada por 'Cem Anos de Solidão' foi a reação lógica à energia poética do escritor e à sua fulgurante imaginação. Mas também a um tema que ronda as fantasias dos ocidentais desde o descobrimento do Novo Mundo e que a partir da Revolução Cubana se transformou em verdadeira obsessão: a inocência do latino-americano e o poder corruptor do Ocidente”, escreveu o crítico Carlos Granés.

Nascido em Aracataca, no dia 6 de março de 1927, e morto em 17 de abril de 2014, Gabriel García Márquez, um dos principais nomes do realismo fantástico e do boom latino-americano, escreveu outras obras que, como Cem Anos de Solidão, que foi publicado em 35 idiomas e vendeu 30 milhões de cópias, foram sucesso de crítica e de público. Entre elas, Ninguém Escreve ao Coronel, Crônica de Uma Morte Anunciada, O Amor nos Tempos do Cólera e Memórias de Minhas Putas Tristes.

 

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Acervo de Gabriel García Márquez pode ser visto gratuitamente na internet

Documentos incluem os manuscritos de 10 dos livros do autor de 'Cem Anos de Solidão'

AFP

12 de dezembro de 2017 | 18h39

A Universidade do Texas colocou na internet cerca de 27 mil documentos com arquivos do escritor colombiano Gabriel García Márquez, incluindo manuscritos, cadernos, cartas e fotos, que a partir de agora estarão disponíveis para o público geral.

+++ Há 50 anos, Gabriel García Márquez lançava 'Cem Anos de Solidão'

O centro de documentação literária da Universidade do Texas, Harry Ransom Center, adquiriu por 2,2 milhões de dólares o fundo de arquivos em novembro de 2014, poucos meses após o falecimento do vencedor do prêmio Nobel na Cidade do México em 17 de abril

+++ Comemoração dos 50 anos de 'Cem Anos de Solidão' começa em Cartagena

Um buscador em espanhol e inglês, disponível no site http://www.hrc.utexas.edu/, permite ter acesso de forma gratuita ao fundo e navegar por esses arquivos, cerca da metade dos que a universidade possui e muitos dos quais são inéditos.

+++ Morre Gabriel García Márquez

Os documentos incluem os manuscritos de 10 dos livros do autor de Cem Anos de Solidão, assim como um texto de 32 páginas destinado ao segundo volume de suas memórias, que nunca foi publicado.

"Minha mãe, meu irmão e eu sempre quisemos que os arquivos do meu pai pudessem alcançar o público mais amplo possível", disse Rodrigo García, um dos filhos de Gabo, em um comunicado publicado nesta terça-feira.

+++ Biografia em quadrinhos de Gabriel García Márquez faz percurso ousado

"Em mais de meio século, esses documentos revelam a energia e disciplina de García Márquez, e dão um olhar íntimo de sua obra, família, amigos e da política", explicou Julianne Ballou, a cargo do projeto no Ransom Center.

O trabalho de digitalização levou 18 meses e foi possível graças a uma doação do Conselho de Recursos Bibliotecários e de Informação (CLIR, em inglês), um organismo independente.

Uma porta-voz da Universidade do Texas, localizada em Austin, disse à AFP que não tem previsto por enquanto digitalizar a segunda metade dos arquivos do escritor.

Além do que foi adquirido em 2014, que inclui cinco computadores e duas máquinas de escrever, a universidade computou outros documentos relacionados com García Márquez (1927-2014) de outras procedências.

A obra deste escritor ainda está protegida pelas disposições sobre propriedade intelectual e ainda não entrou em domínio público.

 

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‘Cem Anos de Solidão’, de García Márquez, vai virar série da Netflix

Serviço de streaming adquiriu direitos da obra, que ganhará sua primeira adaptação audiovisual

Redação, O Estado de S. Paulo

06 de março de 2019 | 12h00

O livro Cem Anos de Solidão, clássico do escritor Gabriel García Márquez, ganhará uma adaptação para as telas. A Netflix adquiriu os direitos de exibição e produzirá uma série baseada no romance, a ser gravada na Colômbia e apenas com atores latinos, condições impostas pela família Márquez. 

Lançada em 1967, a obra nunca ganhou uma versão audiovisual, apesar de reiteradas ofertas ao longo das últimas décadas. Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez, afirmou ao The New York Times que seu pai, morto em 2014, não acreditava que a história pudesse ser transformada em único filme. Ele também rejeitava qualquer adaptação que não fosse feita em espanhol, o que espantou gigantes de Hollywood. 

Em realismo fantástico, Cem Anos de Solidão narra a história da família Buendía ao longo de gerações. O livro, que já vendeu mais de 50 milhões de cópias e foi traduzido para 46 idiomas, é considerado uma obra-prima da literatura latino-americana, alçando Gabriel García Márquez à condição de grande autor do século XX e ganhador do Nobel de Literatura em 1982.   

O anúncio foi feito hoje, 6, dia em que o escritor faria 92 anos. 

 

 

Já se sabe que Rodrigo e Gonzalo García, filhos do escritor, serão produtores-executivos da série, mas ainda não há informações sobre elenco, número de episódios ou data de estreia. 

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'Cem Anos de Solidão': biógrafo afirma que García Márquez não gostaria de ver sua obra na Netflix

Canal de streaming anunciou ter adquirido os direitos sobre a obra para transformá-la em série

Redação, EFE

07 de março de 2019 | 17h11

Gabriel García Márquez não teria gostado que Cem Anos de Solidão fosse adaptada para a televisão, como acaba de anunciar que fará a Netflix, segundo garante o amigo do autor, jornalista e escritor colombiano Gustavo Tatis Guerra, que lança nesta quinta-feira, 7, um livro baseado nos seus encontros com o vencedor do Nobel de Literatura.

Em declarações à Agência Efe, o autor desejou "muita sorte" aos produtores da série e filhos de García Márquez, Rodrigo e Gonzalo, e afirmou que, embora "o cinema nunca tenha conseguido capitar a magia da sua literatura", tem "fé na genialidade de ambos" para se aproximar da obra de seu pai.

Os dois filhos de García Márquez, Rodrigo - diretor - e Gonzalo - designer gráfico -, serão produtores executivos da série, que será filmada principalmente na Colômbia e que será a primeira adaptação do romance para outra mídia.

Tatis lembrou que, embora tenha feito sua primeira entrevista com García Márquez há mais de 30 anos, demorou tanto tempo para publicar La flor amarilla del prestidigitador porque só após sua morte teve "a certeza de ter material para seu livro".

A obra, que recebe seu nome das rosas que o Prêmio Nobel de Literatura tomou como amuleto, "não pretende ser uma biografia, mas levar em consideração o homem por trás do mito", razão pela qual se sustenta em encontros com o autor e declarações da sua família, entre as quais se destacam as de sua mãe, Luisa.

Neste afã humanizador do mito literário, o jornalista ressalta a figura de García Márquez "como homem de paz", a quem considera "um dos artífices do processo de conversão da guerrilha em partido político, embora nunca tenha falado isso para a imprensa".

"García Márquez criou uma grande reivindicação para a Colômbia; considerava que não valia ser só escritor: havia que resolver problemas", ressalta o escritor, que acredita que o autor de Cem Anos de Solidão nunca confiou em Hugo Chávez e "teria uma sensação muito amarga não só com a Colômbia e a fronteira, mas com todos os países latino-americanos".

O livro romance tenta se aprofundar nas relações do escritor com a sua família e seu povoado, Aracataca, entre as quais se destaca o impacto do seu avô materno, que transformou Gabo em um "menino privilegiado, testemunha da sua história e a dos seus ancestrais", em troca do que o autor "transformou toda sua família em protagonistas das suas histórias".

"Ele necessitava de uma realidade, baseada em um lar manchado pelo sangue, que transmutasse, que permitisse a ressurreição e a magia", acrescentou.

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'Caderno 2' faz homenagem a 'Cem anos de Solidão'

Ministro Paulo Bernardo diz ter levado 'bronca' por admitir possibilidade de subsidiar as operadoras pelo serviço

Karla Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Além de ser irreversível a decisão do governo de exigir das operadoras de telefonia uma oferta de banda larga com velocidade mínima de 1 megabit por segundo a R$ 35 (com impostos e R$ 29,80 sem impostos), a presidente Dilma Rousseff quer que as empresas apresentem um plano de ação para elevar a velocidade do serviço até 2014. A informação foi dada ontem pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, depois de uma reunião com a presidente.

"Precisamos oferecer ao consumidor brasileiro a melhor internet que temos condição hoje", ressaltou Bernardo. Para isso, a presidente quer a atuação das empresas em duas frentes: uma focada nos movimentos de popularização do serviço e outra nos investimentos de infraestrutura para suportar o aumento da velocidade.

Sobre a possibilidade de se fazer um acerto de contas para cobrir possíveis déficits das empresas na implantação do serviço, o ministro disse que levou "uma bronca" da presidente, que quer que o ministério endureça as negociações com as empresas. "Não está ok. Ela me deu uma bronca danada. Temos que aprimorar os termos da negociação", declarou, referindo-se ao anúncio feito por ele na semana passada de que o governo poderia fazer um "encontro de compras" caso as empresas comprovassem que a oferta de banda larga de 1 mega a R$ 35 é deficitária.

A presidente quer que as empresas aumentem para 1 mega a velocidade da oferta de internet para o Plano Nacional de Banda Larga. Até então, a velocidade máxima proposta pelas empresas foi de 600 Kbps.

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García Márquez escrevia como Cervantes e falava como Chaplin, diz biógrafo

Britânico Gerald Martin, biógrafo do escritor, falou na Feira Internacional do Livro de Bogotá, que começou nesta terça-feira, 21

EFE

22 de abril de 2015 | 18h38

BOGOTÁ - O britânico Gerald Martin, biógrafo de Gabriel García Márquez, afirmou que o escritor, Nobel de Literatura, morto há um ano, "escrevia como Cervantes e falava como Chaplin", o que o transformou no "grande clássico latino-americano" do século 20.

Em entrevista coletiva realizada em Bogotá durante a apresentação da Feira Internacional do Livro de Bogotá (Filbo), que começou nesta terça, 21, tendo a cidade de Macondo, do universo mágico de Cem anos de solidão, como convidada de honra, Martin assinalou que a Colômbia também "deve merecer" García Márquez.

"A Colômbia tem que apreciar, assimilar e integrar García Márquez em seu futuro", disse o biógrafo.

Questionando sobre como atrair os jovens para ler o "filho do telegrafista", como Gabo se identificava às vezes, Martin destacou que García Márquez "está aí" e os jovens colombianos têm sorte de poder ler um autor "que será top nos próximos 500 anos", o que ele não viveu porque quando era criança leu Shakespeare, igual os espanhóis leem Cervantes, como um escritor extraordinário, mas de séculos atrás.

Martin também destacou que as obras de García Márquez não são só colombianas ou latino-americanas, mas "realmente universais", e lembrou que o autor de Cem anos de solidão representou "a grande transição da América Latina, que passou de ser um continente esquecido a ter um papel de protagonismo mundial".

Além disso, assinalou que Macondo, que hoje foi objeto de debate entre os organizadores, se transformou em mais do que a cidade de Cem anos de solidão, porque nos permitiu "pensar em toda a obra" de García Márquez.

"Me dei conta na primeira vez que li 'Cem anos de solidão' de que Macondo seria La Mancha de Cervantes, um dos grandes lugares da literatura", destacou.

Na opinião de Martin, o romance de Gabo conquistou tanta popularidade em todo o planeta porque o universo imaginário que criou "foi a primeira aldeia global literária".

Macondo é, segundo o autor da biografia Gabriel García Márquez: a life, o pequeno povoado do litoral caribenho colombiana que poderia estar na Índia, no Afeganistão ou qualquer outro país em vias de desenvolvimento, o que ajudou o livro a alcançar públicos muito diversos.

O diretor da Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano (FNPI), Jaime Abello, lembrou que em uma visita de García Márquez à cidade de Barranquilla, no Caribe colombiano, o escritor comentou que "era como Macondo quando se transformou em cidade".

Abello explicou que as cidades dessa região colombiana quase não mudaram nos últimos 40 anos e rememorou uma viagem que fez com García Márquez a Aracataca, a cidade em que o escritor nasceu, quando tiveram que utilizar uma carruagem, cercada por fãs.

"Naquele momento ele mesmo usou o termo macondiano" para se referir à situação, contou.

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Em sua última entrevista, García Márquez revelou que fama quase arruinou sua vida

'Perturba o sentido de realidade tanto quanto o poder', disse o Nobel de Literatura

EFE - Barcelona

18 de abril de 2014 | 16h40

Na última entrevista que concedeu a um meio de comunicação, no final de 2005, Gabriel García Márquez, morto nesta quinta-feira, 17, aos 87 anos, indicou que a fama esteve prestes a “arruinar” sua vida, pois “perturba o sentido de realidade tanto quanto o poder”.

O jornal espanhol La Vanguardia recupera nesta sexta-feira, 18, em sua edição digital a entrevista que Gabo concedeu em sua casa, no México, ao jornalista Xavi Ayén, publicada no suplemento El Magazine que acompanhou o jornal em fevereiro de 2006. De acordo com a publicação, esta seria a última entrevista concedida pelo ganhador do Prêmio Nobel de Literatura.

Na entrevista, García Márquez sublinha o quanto a fama lhe era pouco atraente: “Nos condena à solidão, gerando um problema de falta de comunicação que nos isola”.

Ele também anunciava que 2005 seria um “ano sabático”: “Não me sentei diante do computador. Não escrevi uma linha. Além disso, não tenho projeto nem perspectivas de tê-lo. Nunca tinha deixado de escrever, esse foi o primeiro ano de minha vida no qual não o fiz”.

“Eu trabalhava todos os dias” - acrescenta - “das nove da manhã até as três da tarde, e dizia que era para manter os dedos aquecidos... mas a realidade é que eu não sabia o que fazer de manhã”.

Indagado a respeito do que estaria fazendo com seu tempo, respondeu: “Descobri uma coisa fantástica, ficar lendo na cama! Leio todos aqueles livros que nunca tive tempo para ler... Lembro que antes me sentia muito perturbado quando, por algum motivo, deixava de escrever. Tinha que inventar alguma atividade para poder viver até as três da tarde, para me distrair da angústia. Mas, agora, isso se tornou prazeroso”.

Em seguida o entrevistador comentava que o telefone tinha tocado de repente e o autor previu: “Certeza que é Carmen Barcells”, agente literária dele. “Estão vendo? Não tenho sossego. Ela não perde nada, sabia que eu estava falando com vocês... Controla nossos passos mais do que nunca”, comentou um Gabo sorridente.

Na entrevista ao La Vanguardia é citado que a relação profissional de Carmen com García Márquez remonta a 1961, quando ninguém acreditava naquele jovem escritor, que só se tornaria uma celebridade mundial com a publicação de Cem Anos de Solidão (1967). Também são lembrados os anos dele em Barcelona, cidade à qual ele chegou no final de 1967, onde escreveu O Outono do Patriarca e onde morou até 1975. “Chegamos em 1967, carregando uma pele de cobra de dois metros que ganhei de presente de um amigo. Estava disposto a vendê-la, pois precisávamos do dinheiro, mas pensei melhor e, no fim, não o fizemos.

Tudo ocorreu muito rapidamente, nos anos em que vivi em Barcelona houve épocas em que não tínhamos o que comer - em Paris cheguei a pedir esmola no metrô - e, pouco depois, tive dinheiro o bastante para comprar imóveis.” “Tenho a impressão de que aquela cidade não nos surpreendeu muito”, acrescentou. “Era como se já a tivéssemos visto antes. O motivo de eu não ter ido a nenhum outro lugar foi Ramón Vinyes, o ‘sábio catalão’ que fiz aparecer como personagem em Cem Anos de Solidão. Na Barranquilla de minha infância, ele tinha me ‘vendido’ a tal ponto a Barcelona idealizada de suas lembranças de exilado que não duvidei em nenhum momento.” E ele se lembrava de quando abandonaram Barcelona e a Espanha em 1975: “Estávamos em Bogotá quando Franco morreu e, ao saber da notícia, voltamos ao México. Pensamos que, na Espanha, haveria uma grande agitação, um período de instabilidade, e não sabia como seria a reação do novo governo espanhol à publicação de O Outono do Patriarca, que retrata o ocaso de um ditador. Pensei que dificilmente acreditariam que minha inspiração tinha sido os modelos latino-americanos”. TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL 

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Coleção destaca o lado jornalístico de Gabriel García Márquez

Gabo, jornalista? Livro revive o primeiro chamado do romancista, profissão da qual tinha muito orgulho

Dwight Garner THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

13 de maio de 2019 | 03h00

O romancista Gabriel García Márquez, “Gabo” para seus amigos, viveu para o jornalismo. Escreveu para jornais e revistas durante toda a sua vida e fundou seis publicações. Ele disse uma vez, contra a sabedoria dos séculos: “Eu não quero ser lembrado por Cem Anos de Solidão, nem pelo Prêmio Nobel, mas pelos jornais.”

García Márquez (1927-2014) inalou tinta fresca no caminho de se tornar crítico de imprensa da mesma forma como A.J. Liebling inalava a fumaça de charuto. Ele chamou o jornalismo de “o melhor trabalho do mundo” e “uma necessidade biológica da humanidade”. Ele entendeu que jornais e revistas não apenas trazem dados, mas contribuem, por meio de comentários de toda a variedade, para a alegria de uma sociedade.

Uma profunda nova coleção do jornalismo de García Márquez, The Scandal of the Century: And Other Writings (O Escândalo do Século, em tradução de Portugal), demonstra como ele levou a sério a reportagem e o que às vezes é chamado (será que Liebling aprovaria?) narrativa de longo formato.

Há intrincadas histórias aqui sobre a morte de uma jovem que parecia levar uma dupla vida; sobre o cerco político de 1978 do Palácio Nacional da Nicarágua pelos sandinistas; e sobre os esforços internacionais para salvar um menino que precisava de um soro contra raiva, difícil de encontrar, que chegou a ele em 12 horas.

São artigos que, em sua graça, colocam o leitor na mente de Relato de um Naufrágio, o livro de García Márquez, publicado pela primeira vez em inglês em 1986, baseado em uma série de artigos escritos para um jornal de Bogotá em 1955 sobre um marinheiro colombiano arrastado ao mar do convés de um contratorpedeiro.

A maior parte de seu jornalismo, como a maior parte de sua ficção, está centrada em sua Colômbia natal. Muitas das melhores peças de O Escândalo do Século, porém, são ensaios, meditações despretensiosas e espirituosas sobre temas como barbeiros e viagens aéreas, tradução literária e filmes.

Você tem a impressão de que, se ele tivesse permissão para começar uma última revista além do túmulo, García Márquez editaria uma versão de uma dessas publicações casuais, como The Spectator, The New Statesman ou The Oldie, que os ingleses fazem melhor do que o resto do mundo. Revistas que são compostas inteiramente de comentários, o conteúdo combinado do que quer que esteja na mente de seus colunistas.

O Escândalo do Século compreende 50 artigos, publicados entre 1950 e 1984. É um dos dois novos livros que tratam do trabalho e da vida de García Márquez. O outro é Solitude & Company (Solidão e Companhia em tradução livre), uma história oral encantadora e tumultuada, embora leve, editada pela jornalista colombiana Silvana Paternostro e traduzida para o inglês por Edith Grossman.

Solitude & Company não pretende substituir a biografia fidedigna de García Márquez, de Gerald Martin, em 2009. É um livro que reúne seus velhos amigos, como se estivesse em volta de uma mesa, e os deixa falar. Poucos podem acreditar no grande sucesso que seu velho amigo de bebidas Gabo acabou sendo, como ele flutuou para longe deles e fez tanto sucesso. Eles ainda não estão dispostos a lançar folhas de palmeira à frente dele ainda.

García Márquez escreveu algumas de suas primeiras ficções em rolos de papel de jornal que ele liberou de seus trabalhos diários. Talvez isso explique, de alguma maneira, a maneira pela qual sua ficção e não-ficção parecem sangrar juntas.

Os artigos de O Escândalo do Século demonstram que sua voz franca e levemente irônica simplesmente parecia estar lá, desde o início. (A ironia era o leque que resfriava de forma confiável o intenso projetor da mente de García Márquez.)

Ele escreveu seu jornalismo, disse ele, com “a mesma consciência, a mesma alegria e muitas vezes a mesma inspiração com as quais eu deveria ter escrito uma obra-prima”. O velocista e o corredor de longa distância encontravam nele uma estranha sincronia. Ele está entre aqueles raros grandes escritores de ficção cujo trabalho auxiliar quase sempre vale a pena ser encontrado; ele não sabia como ser indiferente.

Ele era um observador de categoria mundial. Ao ver o presidente Dwight D. Eisenhower desembarcar de um avião em Paris em 1958, ele observou não apenas seu “sorriso largo de um bom sujeito”, mas, melhor ainda, “seu longo e seguro caminhar Johnnie Walker". 

Os aviões figuram frequentemente no jornalismo de García Márquez. Ele odiava voar. Sobre viagens aéreas depois que ficou famoso, ele escreveu: “Eu sempre voo tão apavorado que nem percebo como alguém me trata, e toda a minha energia afunda em meu assento com as mãos para segurá-lo, a fim de ajudar o avião fique no ar, ou tente impedir que as crianças corram nos corredores por medo de que eles rompam o chão. “

A influência jornalística de García Márquez ainda é sentida. Em 1994, fundou a Fundação Gabriel García Márquez para o Novo Jornalismo Ibero-americano, mais conhecida como Fundação Gabo, em Cartagena, que continua prosperando. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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Gabriel García Márquez em frases

´Descascando a Cebola´ chega às livrarias de alguns países da América Latina

Agencia Estado

02 de julho de 2007 | 19h14

A polêmica biografia do escritor Günter Grass, Descascando a Cebola, na qual confessa ter participado de grupos hitleristas durante a 2.ª Guerra Mundial, acaba de ganhar uma edição em espanhol, Pelando las Cebollas, simultaneamente à edição norte-americana e poucos meses após chegar às livrarias alemãs. O livro ainda não chegou às livrarias do Brasil. A publicação de Descascando a Cebola em espanhol, que sai pela editora Alfaguara, selo da Objetiva, é acompanhada pela reedição de O Tambor de Lata, romance que ganhou o Prêmio Nobel de Literatura de 1999 e foi seu trampolim para a consagração. Em Descascando a Cebola, Günter Grass admite sua incorporação à Waffen SS quando a guerra já estava perdida para a Alemanha, mas o delírio ainda fazia supor outro destino para seu povo e país. Grass relembra também sua adolescência na destruída Alemanha do pós-guerra, a fome e as privações; seu trabalho como mineiro em meio à escassez e a decisão de exilar-se em Paris, onde durante dois anos foi planejando O Tambor de Lata, que o transformou em escritor e permitiu que recuperasse a auto-estima após a derrota. Revelações "As lembranças se assemelham a uma cebola que quisesse ser descascada para descobrir aquilo que, letra por letra, pode ser lido nela", escreve Grass na introdução do livro. Para muitos, a confissão sobre seu passado demorou tempo demais para ser feita. "Aquilo que aceitei com o orgulho tonto de meus jovens anos, quis calar depois da guerra por vergonha sempre renovada. No entanto, o peso persistia e ninguém podia amenizá-lo", reconhece o autor alemão no texto. Grass se lembra de sua passagem pela Waffen SS como uma aprendizagem súbita de embrutecimento no manejo de armas e tanques para defender a Alemanha antes da queda. Apesar disso, Grass assegura que "não sabia nada dos crimes de guerra que logo vieram à tona, mas a afirmação de minha ignorância não pode ocultar a consciência de haver estado integrado a um sistema que planificou, organizou e levou a cabo a aniquilação de milhões de seres humanos". ´Responsabilidade´ "Ainda que pudera convencer-me de não ter tido uma responsabilidade ativa, sempre ficava um resto, que até hoje não se apagou, e que com demasiada freqüência se chama responsabilidade compartida. Viverei com ela até o fim de meus dias, isso é certeza", reconhece na biografia, que demorou três anos para ser finalizada. A autobiografia de 479 páginas aborda a vida de Grass entre 1939 e 1959, e começa quando, ao completar 12 anos, a Alemanha provoca a 2.ª Guerra Mundial com a invasão da Polônia. O livro de Grass pode ser lido também como um relato trágico de uma época de barbáries, que aflora a partir de uma história pessoal e em que convive, ainda desde a dor, o renascimento de uma Europa diferente, que voltava a viver depois dos bombardeios e das batalhas.

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