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Mexicana Valeria Luiselli espelha o mundo em suas tramas

Escritora fala na 6ª, dia 1º, na mesa 8 - 'A História dos Meus Dentes'

Marília Neustein, O Estado de S.Paulo

25 de junho de 2016 | 05h00

Foi ao ser convidada para escrever o catálogo de uma exposição no Museu Jumex, no México, que Valeria Luiselli começou a desenvolver seu mais recente romance, A História dos Meus Dentes. Muito ligada à cena de arte contemporânea e fascinada pela fábrica de sucos que dá nome ao museu (Jumex), a escritora resolveu montar um processo criativo coletivo com os trabalhadores da fábrica. “Percebi que não me interessava contar o que ocorria na galeria, a não ser o ponto de vista dos trabalhadores. Assim, decidi estabelecer comunicação com eles para pensar sobre temas como o valor das obras de arte e comecei a mandar capítulos do meu livro e esperar a opinião deles”, explicou a mexicana em entrevista ao Estado. Esse foi o ponto de partida de A História dos Meus Dentes (Alfaguara).

No livro, o narrador – Gustavo Sánchez Sánchez, conhecido como Estrada – nasceu com um defeito nos dentes, trabalhou em uma fábrica de sucos e se descobriu “o maior leiloeiro do mundo”. No entanto, não é ao leilão de obras de arte ao qual se dedica, senão das histórias e do valor sentimental dos objetos de uma forma alegórica.

Indagada sobre o porquê dos dentes, a escritora acha graça. “Não me interesso tanto pelos dentes em si, mas pelas histórias que não se contam sobre eles.” Quais? “Os dentes têm uma história silenciada. São as partes do nosso corpo que perduram mais. É por meio deles que são feitas as identificações dos mortos, é neles que se encerra a nossa história”, explicou.

Já a escolha por escrever na voz masculina veio do processo criativo. “Como comecei a escrever inspirada nos trabalhadores de uma fábrica, então presumi que seriam todos homens. No entanto, à medida que recebia as respostas dos trechos do livro, notei que a maioria era de mulheres. Foi um preconceito da minha parte pensar que só haveria homens. Mas mantive o narrador mesmo assim”, recordou a escritora, que já tem publicado no Brasil o livro Rostos na Multidão (2012, Alfaguara).

Aclamada pela crítica americana, a mexicana de 32 anos é um dos destaques da 14.ª Festa Literária Internacional de Paraty. Filha de um diplomata, viveu na Coreia do Sul, África do Sul, Índia e França. “Acho que a literatura sempre foi uma forma de manter uma continuidade da minha vida, já que morei em tantos lugares. Sempre foi uma terra mais firme para mim.”

Hoje, a escritora divide a casa com o marido Álvaro Enrigue – escritor mexicano também convidado para a Flip –, no Harlem, NY. Em Paraty, Enrique se apresenta na quinta-feira (dia 30/6) da mesa 4 – Histórias Naturais, às 17h15, ao lado do autor mineiro Marcílio França Castro

Valeria, que na sexta (dia 1.º/7) integra na Flip a mesa 8 – A História da Minha Morte, às 12h, ao lado do carioca J.P. Cuenca, não foge do tema que captura todas as mulheres das artes: a representatividade feminina nos grandes eventos. No caso dela, em festivais literários. “Acredito que a discussão de gênero e do machismo é crescente no mundo inteiro, inclusive no México e também em Nova York. Nunca é tarde para começarmos a falar disso”, afirmou. Sobre dividir o papel de escritora com o marido, é mais reticente. “Evito falar da minha vida pessoal, mas posso dizer que é uma sorte viver com uma pessoa tão criativa e curiosa. Alguém com quem a conversa nunca termina”, disse ainda.

Outro assunto que lhe parece urgente é a questão da migração, sobre a qual pretende falar em seu próximo livro: “Presto muita atenção nisso, principalmente como cidadã, ainda mais sendo uma mexicana e vivendo nos Estados Unidos. Quero falar sobre migração, mas não de um modo direto nem vinculado a um espaço geográfico ou histórico.”

Já sobre a literatura brasileira, afirmou ser fã de Clarice Lispector, Mário de Andrade, Oswald de Andrade. Ultimamente, anda fascinada por Raduan Nassar – de quem está lendo um romance. “Espero voltar de Paraty com livros de autores da minha geração com quem temos poucas oportunidades de troca”, acrescentou Valeria Luiselli.

A HISTÓRIA DOS MEUS DENTES

Valeria Luiselli

Tradução: Ari Roitman

Ed.: Alfaguara (164 págs.,R$ 34,90)

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