Mercado editorial se mobiliza para sobreviver em tempos de competição acirrada

Amazon é vista como uma das principais ameaças

Maria Fernanda Rodrigues - ENVIADA ESPECIAL, O Estado de S. Paulo

09 de outubro de 2014 | 20h21

FRANKFURT - Entra ano, sai ano e o mercado editorial segue buscando formas de coexistir com a Amazon. Porque os livros são mais baratos e o Kindle é um dos melhores e-readers já criados, o leitor gosta dela. Mas muitos editores não concordam com os contratos apresentados pela gigante americana e livreiros a culpam pelo fechamento, mundo afora, de livrarias de rua. Há algumas petições online abertas contra, por exemplo, o fato de ela pagar pouco imposto no Reino Unido, já que as vendas são feitas a partir de Luxemburgo. Sem contar o imbróglio na renegociação de contratos com a Hachette, um dos maiores grupos editoriais do mundo. Ou episódios mais antigos - antes de operar na Austrália, ela chegou a entregar livros lá sem cobrar frete.

A empresa é vista como uma das principais ameaças à sobrevivência de pequenas e médias livrarias - e de editoras também -, mas ela não é o único problema que a cadeia do livro enfrenta. Por isso, ela vem se mobilizando. Reunidos em Frankfurt, representantes de associações de 14 países da União Europeia assinaram ontem uma carta em defesa do livro. É o primeiro passo para uma movimentação mais organizada no sentido de conscientizar políticos acerca de seus problemas e, assim, criar medidas de proteção. 

A iniciativa é do francês Vincent Monadé, presidente do Centre National du Livre, que pede a garantia do direito do autor e a preservação do direito do leitor - inclusive o de poder ler seu livro em qualquer e-reader - e ainda a redução de impostos para livros impressos e digitais.

“O digital e o comportamento do consumidor estão criando novas oportunidades e novos mercados para a disseminação de conteúdo criativo. Todos os atores da indústria editorial - autores, tradutores, editores, livreiros, bibliotecários e associações - estão criando novos modelos de negócio que vão assegurar que os consumidores tenham a oferta mais variada e acessível possível e preservar mais de meio milhão de empregos ao redor da Europa”, diz a carta, que destaca ainda o respeito à propriedade intelectual e luta contra a pirataria como prioridade.

Monadé, que comentou sobre a importância de ter um mercado diversificado para que os leitores tenham mais opções, disse durante a assinatura do documento: “Estamos trabalhando juntos para proteger o direito do autor e assim estaremos protegendo a livre circulação de nossa cultura. Não consigo entender como grandes empresas como a Amazon, por exemplo, estão atuando hoje. Desde Gutemberg, temos a livre circulação de livros, garantida pelo trabalho de editores, e é preciso que assim seja.”

A carta não fala em nomes, mas diz que “a indústria do livro tem de lidar com competição injusta vinda principalmente de empresas internacionais que atuam pela internet e escapando dos impostos, praticando dumping em larga escala para ter uma posição dominante no mercado e vender seus próprios produtos”. Um dos pedidos do grupo é que os impostos para o livro e para o e-book sejam reduzidos.

Na Alemanha, a associação que congrega editores, autores e livreiros anda dizendo que não tem medo da Amazon e que o mercado está preparado para a competição. Diz isso agora, mas foi esse medo que motivou a criação, no primeiro semestre, da Buchhandel, uma livraria de livros digitais que reúne todo o acervo alemão. Ela vende direto para o leitor, mas também funciona como livraria white label. Se uma pequena loja quiser virar uma ebookstore, ela tem esse serviço a disposição.

Um Livro é um Livro é o nome da campanha liderada pelo ministro da Cultura da Itália, Dario Francheschini, que participou da Feira de Frankfurt. A batalha é para que e-books tenham a mesma taxação do livro físico, reivindicação também do mercado editorial brasileiro. 

No Brasil, tramita o PL 4534/2012, que atualiza o conceito de livro. A ideia inicial era que e-books e e-readers fossem considerados livros e, portanto, fossem isentos de impostos. Os leitores digitais ficaram no texto, mas se o projeto for aprovado, só estarão isentos aparelhos de leituras produzidos no Brasil - os principais vêm da China. 

Por outro lado, pela primeira vez associações do livro enviaram uma carta aos presidenciáveis com as reivindicações do setor, entre as quais estavam essa questão do imposto, a liberação das biografias e a proteção às pequenas e médias livrarias. Não houve, porém, consenso com relação ao texto e os candidatos receberam duas cartas - uma do Sindicato Nacional de Editores e outra assinada por quatro entidades, entre as quais a Câmara Brasileira do Livro.

E por falar em Brasil e na Amazon, Michel Levy, CEO do Grupo Saraiva, e Mauricio Fanganiello, responsável pela editora, falaram ontem na feira sobre as estratégias da empresa para manter a liderança na venda de livros.

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