Werther Santana/Estadão
Werther Santana/Estadão

Menos dependente de livrarias físicas, mercado editorial registra ano melhor em 2019

A pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial 2019, revelada nesta segunda, 8, mostra crescimento real de 6,1% no faturamento das editoras

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

08 de junho de 2020 | 11h20

Passado o susto da entrada das duas principais redes de livrarias brasileiras em recuperação judicial, o mercado editorial teve um ano melhor em 2019 - muito melhor do que vinha tendo desde 2014, quando passou a registrar desempenho negativo após desempenho negativo. A Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial, revelada nesta segunda, 8, mostra um crescimento real de 6,1% no faturamento das editoras, que fecharam o ano em R$ 5,67 bilhões.

Realizada pela primeira vez pela Nielsen Book para a Câmara Brasileira do Livro (CBL) e Sindicato Nacional de Editores de Livros (Snel), a pesquisa, feita até então pela Fipe, mostrou ainda que, sem poder contar tanto com Cultura e Saraiva, o mercado precisou procurar canais alternativos para vender seus livros. A participação das livrarias exclusivamente digitais na venda das editoras saltou de 3,4% em 2018 para 12,7% em 2019. A venda nas escolas, algo que sempre gerou controvérsia entre livreiros porque os tira do jogo num dos principais momentos do ano, cresceu de 1,8% para 5,9%. A venda na internet e em market place aumentou de 0,74% para 5,2%. 

Enquanto isso, a venda em livrarias físicas, que já tinha despencado em 2018, fechou o ano passado respondendo por 41,6% do faturamento das editoras (era 50,5% em 2018). Ainda assim, este é o principal canal de venda - seguido pelas distribuidoras, cuja participação também encolheu de 29,5% para 22,9%.

O ano ainda foi de cautela nos lançamentos em primeira edição, com uma queda de 6,6% na produção de novos livros, somando 13.671 novos ISBNs. O número de reedições e de exemplares impressos, no entanto, puxou o número para cima. O mercado editorial produziu 395 milhões de exemplares em 2019, um aumento de 13% em relação ao ano anterior, e editou 50.331 títulos, entre primeira edição e reimpressão, 7,5% a mais. Houve menos traduções em 2019 - queda de 32,4% em número de títulos produzidos (3.823) - e mais obras de autores brasileiros - um aumento de 10,16% (9.929). 

No que diz respeito à venda, foram comercializados 434 milhões de exemplares de livros no Brasil. Desses, 209 milhões foram para vendas ao mercado e 224 milhões para o governo - essas compras são sazonais, mas vinham oscilando nos últimos anos. O PNLD Literário, por exemplo, comprou 53 milhões de exemplares e rendeu às editoras R$ 280 milhões, sendo responsável por 4,9% do total da receita do setor. Com isso, a participação dos livros infantis e juvenis ganhou destaque.

 

Dividindo o faturamento de R$ 5,67 bilhões, temos R$ 3,9 bilhões provenientes da venda para o mercado e R$ 1,6 bilhão para o governo (embora o número de exemplares seja semelhante, os livros saem mais baratos nas compras governamentais).

Em termos gerais, e reais, houve um crescimento de 3,3% nas vendas para o mercado e de 6,1% quando somamos também o que foi vendido para o governo.

Foi um bom ano para o subsetor de obras gerais. O crescimento real foi de 14,8% em vendas para o mercado e de 27,5% para o mercado e o governo. O subsetor de didáticos segue estável, registrando queda real de 0,4% nas vendas para o mercado e de 0,1% geral. E o CTP (Científico, Técnico e Profissional), em queda desde 2015, perdeu 8,2% em vendas para o mercado. O subsetor de livros religiosos continua bem, com crescimento real de 6,1%.

O preço médio do livro aumentou 4,18%, de R$18,19 para R$18,95, o que ajudou no bom desempenho do setor. Vale lembrar que este não é um índice de preço, mas uma média feita pelas editoras levando em conta o faturamento e número de exemplares vendidos.

A pesquisa é feita com base na resposta das editoras a questionário enviado pelas entidades do livro. Neste ano, participaram 167 editoras.

"Vemos uma recuperação do mercado, mas ela não é significativa. Não é possível dizer, por exemplo, que voltamos a 2006, mas sim que chegamos mais próximos da crise econômica. O mercado está tentando se recuperar. 2019 foi um ano bastante positivo e vai dar fôlego para as editoras passarem por este 2020 de pandemia", afirma Mariana Bueno, ex-Fipe, consultora da Nielsen Book e responsável pela pesquisa.

Ainda é cedo para saber o impacto que o fechamento das livrarias para conter o avanço do coronavírus terá no mercado, mas sabe-se que o setor já acumula perdas de 13% . Marcos da Veiga Pereira, presidente do SNEL, porém, vê com otimismo os números de vendas das duas últimas semanas, ainda não divulgados. "É uma lástima que as livrarias estejam fechadas, mas o fato de o Brasil ter um canal virtual atuante e relevante e de as editoras estarem vendendo online e em marketplace permitiram que as pessoas continuassem comprando livros." Pereira também comentou que a pandemia pode ter influência no consumo digital de livros didáticos, algo pouco representativo hoje, depois das aulas virtuais. 

A Pesquisa Produção e Venda do Setor Editorial não abrange o livro digital e o audiolivro - outro levantamento está coletando esses dados no momento. Mas o presidente do SNEL adianta que esses números não são ainda muito animadores. "O mercado de audiolivro ainda não é uma realidade no Brasil e embora cresça acima de dois dígitos ano a ano, o e-book não estourou. O Brasil não é um país leitor. Os países que viram um crescimento exponencial do digital foram aqueles com uma base leitora grande. A tecnologia não forma, a priori, leitores."


 

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