ABL/ The New York Times
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'Memórias Póstumas de Brás Cubas', uma obra-prima divertida que ampliou as possibilidades do romance

Livro de Machado de Assis ganha duas novas traduções e conquista leitores pelo mundo

Parul Sehgal, The New York Times

22 de junho de 2020 | 10h06

É possível que o mais moderno, o mais vanguardista, romance publicado este ano tenha sido lançado originalmente em 1881?

Neste mês foram lançadas duas novas traduções de Memórias Póstumas de Brás Cubas, obra-prima do escritor brasileiro Joaquim Maria Machado de Assis, uma história metaficcional narrada por um homem morto, que faleceu vítima de uma pneumonia. Sinistro demais? Só quero ressaltar que ele é transportado para o além nas costas de um prolixo e enorme hipopótamo.

Se imaginamos o progresso histórico do romance como a evolução do homem – desde o primata que vive agachado até o ereto homo sapiens, o livro de Machado representa o momento em que ele aprende a dançar. O livro se baseia no gosto do seu criador pela tragédia grega, Shakespeare e Schopenhauer, estimulado pela tradição picaresca de Cervantes e Laurence Sterne. Sua experimentação formal e jocosidade são vistas como precursores dos romances de Nabokov, Calvino e os pós-modernistas americanos.

A história acompanha o displicente e relaxado aristocrata Brás Cubas à medida que, no seu túmulo, ele reflete sobre sua vida. Quantos fracassos! Ele nunca se casou, nunca teve filhos. Suas ambições profissionais foram imprudentes e frustradas. Mesmo suas amantes inspiraram nele somente paixões tépidas e vaga compaixão. É implacavelmente pretensioso, vaidoso, uma companhia soberba. Acompanhamos a história não pela sua trama, no sentido usual, mas para ficarmos próximos de Brás Cubas, sua franqueza encantadora e a sua merecida repulsa por si mesmo e pelas dúvidas que levanta: o que é a vida, se definida fora do que é incidental e da realização? O que é um romance?

“Amar este livro é se tornar um pouco menos provinciano no tocante à literatura e as possibilidades da literatura”, escreveu Susan Sontag.

Machado nasceu de uma família pobre em 1839, neto mestiço de escravos livres. Um feroz autodidata, começou a publicar poemas ainda adolescente. Mais tarde passou a fazer crítica de teatro, escrever colunas para jornais, libretos e contos. Quando morreu, em 1908, considerado o maior escritor do Brasil, foi decretado luto nacional.

As duas novas traduções têm diferenças, mas são notadamente complementares. A edição de Flora Thomson-DeVeaux é uma dádiva para os estudiosos. Seu ensaio introdutório e as notas de rodapé são um guia fértil para a obra e o mundo de Machado, e um importante corretivo. Machado tem sido descrito como alguém reticente sobre raça. Na verdade, revela Flora Thomson-DeVeaux, sua obra de ficção está repleta de referências ao comércio de escravos. Os leitores modernos, especialmente os não-brasileiros, é que não sabem onde procurar. Neste romance, essas referências estão inseridas na geografia. Como na cena em que Brás Cubas menciona ter passado pelo bairro de Valongo, no Rio de Janeiro. Thomson-DeVeaux escreve que os contemporâneos de Machado reconheceriam imediatamente aquele nome como local do velho mercado de escravos da cidade – na época, o maior das Américas. É o pano de fundo para a investigação filosófica, sem pressa, do nosso aristocrata; esta é a sutileza das nuanças psicológicas de Machado.

Margaret Jull Costa e Robin Patterson, que traduziram a monumental edição de 2018 das Collected Sories de Machado oferecem pouco contexto histórico, somente notas esparsas. Seu livro não tem adornos, o que é melhor no caso do leitor comum. O romance não é visto como uma antiguidade, incrustado de renome e análises, muito reverenciado e manuseado, mas em todo o seu frescor e a recusa truculenta das narrativas alegóricas.

Jull Costa e Patterson também nos oferecem uma brilhante tradução. A linguagem é refinada e específica, espontânea, mas carregada de sentimento, caso em que a versão de Thomson-DeVeaux pode ser um pouco mais obsoleta e confusa.

Um exemplo, no caso de Thomson-DeVeaux, é quando da evocação por Brás Cubas da sua infância: o que importa é uma visão geral da esfera doméstica, que neste momento tem início – personagens vulgares, um amor pela algazarra e aparições ostentosas, uma falta de vontade, o domínio incontestável do capricho e do que é pomposo, e assim por diante. Foi desse solo e desse esterco que esta flor nasceu”.

A cegueira obstinada é um tema na obra de Machado (o marido cornudo é um personagem que se repete). No caso de Brás Cubas, porém, ela nunca é apresentada como estupidez ou inocência, mas como um método de crueldade particular da casta, a elite branca do Rio de Janeiro. Numa cena perturbadora, ele presencia um homem que tinha escravizado e maltratado açoitando outro homem negro em praça pública. “Ele está virando a mesa, Brás Cubas se maravilha. “Ele comprou um escravo e o fazia pagar, com grande interesse, por tudo que havia recebido de mim. Veja as sutilezas do maroto”

Esta cena ficou girando em mina mente como um Cubo de Rubik, enquanto eu refletia sobre a atitude do autor com relação a esse personagem. Machado fala da cena ligeiramente. Não procrastina. Mas acho que ele também reflete a respeito à medida que olha através dos olhos de Brás Cubas. Ele não criou aquele homem para condenar ou reformar, mas para entrar na sua consciência e de modo tão pleno que vemos a mecânica do barbarismo ordinário, o desdém e a autoabsolvição refletida nele.

Para um escritor com um saco sem fundo de estratagemas, no final o que ele faz basicamente é mais simples e infinitamente mais deslumbrante do que qualquer efeito especial. Não se trata somente de explorar o que seria um romance, mas olhar as pessoas – pura e impiedosamente, exatamente como elas são. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

 

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