Wilton Junior/ Estadão
A autobiografia de Fernanda Montenegro é repleta de histórias curiosas Wilton Junior/ Estadão

Entrevista: Fernanda Montenegro fala de memórias afetivas em autobiografia

Atriz retrata, com uma escrita peculiar, todos os anos de sua formação

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2019 | 07h00

Se pudesse resumir o conteúdo de sua autobiografia Prólogo, Ato, Epílogo em um punhado de frases, Fernanda Montenegro diria que se trata de uma “viagem com muitos colegas, com muitas crises políticas, com muitas linguagens cênicas, com muita coragem de sobrevivência e resistência”, como já definiu.

Na conversa com o Estado, a atriz detalhou o olhar que tem sobre a situação brasileira. “Há uma mentalidade de censura moral. Estamos nos transformando em um país conduzido por uma visão religiosa e quem não apoiar não terá nada. E a cultura tornou-se o primeiro item a ser revisto e, se possível, exterminado. A arte é demoníaca, e nós, artistas, somos o instrumento do demônio.”

Fernanda aponta, entre as causas dessa situação, a estrutura do sistema político brasileiro que prevê reeleição. “O período militar durou 20 anos e foi marcado por mudanças no comando, mas o sistema era o mesmo, o que se parecia com uma reeleição”, comenta. “Agora, com essa possibilidade prevista em lei, cada político que ganha uma eleição vê uma chance de manter seu partido no poder por 20 anos, o mesmo período da ditadura militar. Herdamos uma deformação política.”

Mulher antenada com as evoluções sociais, Fernanda narra, no livro, como descobriu o feminismo, apoiado principalmente na leitura dos textos da francesa Simone de Beauvoir (1908-1986), que teve uma influência significativa tanto no existencialismo do feminino como na teoria desse gênero. A ponto de, atualmente, defender com veemência movimentos como o #MeToo, nascido em 2017 com a missão de denunciar o assédio e as agressões sexuais sofridas especialmente por atrizes. 

“É um conceito abstrato, mas com base em fatos reais”, defende. “A conclusão é que o macho é necessário, mas o machão é nojento e criminoso.”

A autobiografia é repleta também de histórias curiosas. Como o momento mais marcante da carreira de Fernanda Montenegro: a consagração conquistada pelo filme Central do Brasil, de Walter Salles. O longa ganhou o prêmio máximo do Festival de Berlim de 1998, o Urso de Ouro. Empolgado, o júri daquele ano passou por cima do regulamento (que não permitia mais de uma honraria para uma mesma produção) e concedeu o Urso de Prata de melhor atriz para Fernanda. 

No jantar festivo da premiação de Berlim, de tão emocionada, ela trincou um molar por causa da tensão tão grande. Foi parar num pronto-socorro dentário. “Deram-me um remédio poderoso que me permitiu esperar até chegar ao Rio”, relembra.

Central do Brasil também a levou à cerimônia do Oscar, onde disputou o prêmio de melhor atriz. Perdeu para Gwyneth Paltrow e sua atuação nada surpreendente em Shakespeare Apaixonado. Sua atuação, no entanto, chamou atenção de David Letterman, então um dos mais famosos apresentadores da televisão americana. “Muitas pessoas dariam um braço para serem entrevistas por ele, mas eu não queria, pois não teríamos o que conversar - David nem tinha visto o filme”, comenta Fernanda, no livro. Mesmo assim, seu bom humor (em determinado momento, apresentou-se como a Velha Garota de Ipanema) conquistou o apresentador.

O cinema, aliás, foi um meio no qual Fernanda Montenegro exercitou seu amor ao ofício por ter trabalhado em muitas produções de baixíssimo orçamento. Como em Eles Não Usam Black-Tie, dirigido por Leon Hirszman em 1981. Baseado em uma peça de Gianfrancesco Guarnieri, que dividiu o protagonismo com Fernanda, o longa mostra os efeitos do movimento grevista em uma família operária.

No papel de Romana, a atriz ofereceu uma das mais perfeitas performances do cinema brasileiro, com uma interpretação contida, baseada principalmente no tom de voz e no olhar. E a cena final foi um dos motivos que convenceram os jurados do Festival de Veneza de 1981 a conferir o prêmio máximo, o Leão de Ouro.

Fernanda assim descreve a rodagem daquele take: “Na última cena do filme, naquela cozinha paupérrima, só estavam (o diretor de fotografia) Lauro Escorel, Guarnieri, eu e Leon que, emocionado, nos falou que a cena seria, para ele, um modesto tributo ao (cineasta russo Sergei) Eisenstein. Diante dessa oferenda, nos baixou uma comoção, diria, religiosa.”

Não houve ensaio entre ela e Guarnieri. “Só nos olhamos e começamos ganhando as pausas, os olhares, os toques de mão, nossos dedos salvando os bons grãos, os não podres - os grãos que, um dia, vão nos tirar da injustiça social do País”, escreveu.

O ofício sempre esteve em primeiro lugar, postura que lhe ditou os caminhos da arte, especialmente quando participou da fundação da Companhia dos Sete, ao lado de Sérgio Britto, Ítalo Rossi, Gianni Ratto, Luciana Petruccelli, Alfredo Souto de Almeida e Fernando Torres, seu companheiro, com quem viveu por 60 anos até sua morte, em 2008

O livro traz a mensagem de uma missão bem executada, ainda que incompleta. Na última frase, Fernanda revela sua sensação de dever cumprido: “Tudo vai se harmonizando para a despedida inevitável. Inarredável. O que lamento é a vida durar apenas o tempo de um suspiro. Mas acordo e canto”.

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