Devin Oktar Yalkin/The New York Times
Devin Oktar Yalkin/The New York Times

Matthew McConaughey escreve 'Greenlights', sua autobiografia

O livro, que será publicado no dia 20, leva o leitor de carona para todas as experiências que o ator acumulou, desde sua criação numa tumultuada família do Texas até sua ascensão como estrela em Hollywood

Dave Itzkoff, The New York Times

17 de outubro de 2020 | 10h00


Você ficaria surpreso em saber que, há mais de trinta anos, antes mesmo de ter passeado pela tela em Jovens, Loucos e Rebeldes, Matthew McConaughey escreveu um poema em que jurou que um dia se tornaria autor?

Como declara um de seus tortuosos versos:


“Acho que vou escrever um livro

uma palavra sobre minha vida.

Eu me pergunto quem daria a mínima

para os prazeres e as lidas?”.


Isso foi em 1989, quando ele não sabia de todas as voltas e reviravoltas que o aguardavam - os prêmios de atuação que ganharia, a esposa e os filhos que teria, os dramas comoventes e as comédias românticas que faria. Mas ele já tinha certeza de que viveria uma vida digna de ser narrada.

Agora, esse poema, exposto na misteriosa caligrafia de seu criador, aparece no início de sua autobiografia, Greenlights.

O livro leva o leitor de carona para todas as experiências que McConaughey acumulou, desde sua criação numa tumultuada família do Texas até sua ascensão como a estrela robusta e serena de Magic Mike, True Detective e Clube de Compras Dallas.

McConaughey, que faz 51 anos em 4 de novembro, gosta de contar algumas dessas histórias pessoais, não necessariamente porque soam bem, mas porque acredita que revelam certas verdades universais e compartilháveis.

Com esse intuito, Greenlights está repleto de uma sabedoria caseira que McConaughey tirou de suas labutas, de suas viagens e daquela vez em que foi preso enquanto tocava bongô pelado. Ele fortaleceu suas lembranças com máximas e aforismos que foram devidamente registrados em décadas de diários pessoais e que continuam a jorrar naturalmente de sua boca.

É um livro em constante reflexão sobre si mesmo e sobre suas razões de ser, assim como seu autor. Ele reconhece que embarcou no projeto com entusiasmo e cautela, procurando se valer de sua celebridade para ter a oportunidade de contar sua história à sua maneira idiossincrática.

“Eu parto do patrimônio que trago como Matthew McConaughey, da maneira que você me vê”, disse ele numa conversa por Zoom no mês passado. Ele falou de sua toca em sua casa em Austin, Texas, com o cabelo penteado para trás e uma camisa de flanela só parcialmente abotoada, olhando para sua webcam através de um par de óculos de aro de chifre.

“Quando é um simples livro de memórias” - ele deu ênfase à segunda sílaba de memoir, com um inesperado toque francês - “você, como editor, consegue vender uns livros”. Mas o que ele esperava produzir, disse, era uma obra em que “ainda valesse a pena compartilhar as palavras de cada página mesmo que fossem assinadas por alguém anônimo, mas que, ao mesmo tempo, fosse um livro que só McConaughey poderia ter escrito”.



Assim como o cara de barba rala que você viu berrando em noites de luta livre da WWE e fazendo sermões em comerciais de carros de luxo, McConaughey é alternadamente sério e desinibido. Ele se sente confortável ao se referir a si mesmo na terceira pessoa e descarta qualquer sugestão de que tenha retrocedido em seu sucesso profissional.

Como me disse, ele sabe que há quem pense: “Puxa vida, McConaughey simplesmente se dá bem com tudo - parece que o cara não sofre com nada, não tem medo de atravessar a rua”. Ele disse que escreveu Greenlights, pelo menos em parte, para corrigir essa percepção, para mostrar quanto esforço foi necessário para chegar onde está.

Mas McConaughey quer que os leitores olhem para além do nome na capa e se concentrem em sua mensagem fundamental. Ninguém consegue escapar das dificuldades, disse, mas ele pode compartilhar as lições “que me ajudaram a encarar as coisas difíceis - é como eu digo, ‘estabeleça uma relação com o inevitável’ - mais cedo e da melhor maneira possível para mim”.

Codificar suas crenças e colocá-las no papel foi um teste. O próximo desafio vem quando McConaughey lançar Greenlights num mundo que parece cada vez mais instável e despreza os sistemas de valores - onde, assim como milhões de americanos, ele e sua família passaram os últimos meses, nas suas próprias palavras, “tentando superar a danada da covid”.

“Ainda estou sempre testando e atualizando continuamente minhas filosofias, praticamente todos os dias”, disse ele. “E sei que posso fazer melhor em muitas delas”.

Na versão da história que McConaughey conta, sua juventude foi dominada pelo pai, Jim, um ex-jogador universitário e profissional de futebol que virou vendedor de tubos e por três vezes se casou - e duas se divorciou - da mãe do ator, Kay. O primeiro capítulo do livro dramatiza uma cena de 1974, quando McConaughey assiste a uma briga feroz do casal - a mãe quebrou o nariz do pai com um telefone enquanto ele brandia um frasco de ketchup. Depois seus pais fizeram sexo no chão da cozinha.

Parece brutal e, como McConaughey me disse, “esta é a realidade, mas tem humanidade nessa realidade”. Jim foi duro com seus filhos, mas McConaughey, que é o mais novo de três irmãos, disse: “Eu não revidava as surras por causa dos valores que estão arraigados em mim”. Ao refletir sobre seus pais, disse: “O amor era de verdade. A paixão era de verdade”. (Alguns dias depois de McConaughey começar a filmar Jovens, Loucos e Rebeldes, Jim morreu de ataque cardíaco enquanto fazia amor com Kay).

Kay McConaughey, agora com 88 anos, disse por e-mail que, ao criar Matthew, não esperava necessariamente que ele virasse artista. “Na verdade, ninguém falava nisso”, disse ela. “Achava que ele ia ser advogado”.

Mesmo assim, ela disse que muitas vezes via Matthew “anotando coisas em pedacinhos de papel, sobre o que alguém tinha dito ou o que ele estava pensando ou o jeito como ele via a vida”.

Depois de ler Greenlights e ver como Matthew retratou seu relacionamento com o marido, Kay McConaughey disse: “Foi um caso de amor tortuoso e apaixonado, mas gostaria que Matthew tivesse contado mais histórias sobre o amor de seus pais, sobre o afeto e o compromisso que um tinha com o outro”.

Ainda assim, disse ela, seu filho mais novo era uma pessoa fundamentalmente franca. “O que continuou consistente na vida de Mateus foi sua honestidade, foi seu jeito de ser verdadeiro consigo mesmo, sabendo quem ele era e assumindo isso”.

Matthew McConaughey conta como conseguiu o papel que o revelou como o desprezível Wooderson em Jovens, Loucos e Rebeldes, abordando o diretor de elenco do filme, Don Phillips, num bar de Austin e usando seu charme para conseguir um teste. Anos depois, o ator - que ainda não era garantia de salas lotadas - montou uma campanha de sucesso para persuadir o diretor Joel Schumacher a escalá-lo para um papel principal em sua adaptação de Tempo de Matar.

Para McConaughey, histórias como estas ilustram como ele não se contenta em simplesmente deixar que a vida lhe aconteça. “Sempre foi óbvio para mim que não tenho uma atitude laissez-faire”, disse ele. “É um estado de ser no qual trabalho muito, continuamente, diariamente, e suo muito a camisa para conseguir”.

Colegas de longa data dizem que é ainda mais do que isto: apesar da imagem agradavelmente desgrenhada que McConaughey projeta, eles o veem como alguém que está sempre se preparando para as oportunidades e se direcionando ativamente para elas.

Como me explicou seu amigo Richard Linklater, que o dirigiu em vários filmes, entre eles Jovens, Loucos e Rebeldes: “As pessoas subestimam a total intencionalidade do que Matthew fez. Ele é muito bom em ir de A para B para C. Ele tem um plano e é corajoso e atrevido o suficiente para executá-lo”.

A moral da história da audição de Jovens, Loucos e Rebeldes não é que McConaughey simplesmente estava no lugar certo na hora certa, Linklater disse: “Ele não foi descoberto num bar - ele foi até o cara que ele tinha ouvido que estava selecionando o elenco. Matthew está sempre jogando o jogo”.


 


Em Greenlights, McConaughey conta histórias de bastidores sobre alguns de seus papéis mais conhecidos, mas não faz um inventário filme por filme de toda a carreira. Ele também não compartilha nenhum detalhe particularmente obsceno de sua vida pessoal quando ainda era solteiro, além de um parágrafo em que escreve: “Agasalhei o couro. Andei na montanha-russa. Tomei muitos banhos durante o dia, raramente sozinho. Eu entrei no jogo”.

McConaughey me disse que, embora esse tipo de cena geralmente seja comum em relatos de celebridades, ele sentiu que as incluir “seria de mau gosto, falta de educação - é por isso que os quartos têm portas”.

No entanto, ele não hesita em compartilhar duas histórias diferentes nas quais acorda de sonhos molhados - você leu certo - onde se viu “flutuando rio abaixo nas águas do rio Amazonas” rodeado pela vida da selva e por “homens de tribos africanas alinhados ombro a ombro do meu lado esquerdo”. Ele interpretou essas visões como exortações subconscientes para viajar ao Peru, onde mergulhou na Amazônia, e ao Mali, onde lutou contra um campeão de luta livre local.

Passagens como essas lançam luz sobre o lado transcendental do autor, que é metodista praticante, mas também se descreve como “um místico otimista”, sempre ajustando suas sintonias pessoais em busca de novas transmissões do universo.

Essa abordagem da existência lançou McConaughey à caça do que ele chama de greenlights, ou “sinais verdes” - os sinais de trânsito que significam avançar e que ele prefere soletrar como uma palavra só. Segundo ele, é preciso ter habilidade e perspicácia para identificar esses sinais.

Concluir que a vida é uma questão de sorte, disse ele, é se render ao fatalismo: “Pare de fugir da responsabilidade, McConaughey. Se isso for verdade, passe por todos os sinais vermelhos. Você está com as mãos no volante. Você está fazendo as escolhas. E elas fazem a diferença”.  


TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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