Sergio Perez/ Reuters
Sergio Perez/ Reuters

Mario Vargas Llosa volta à história latino-americana com 'Tiempos Recios'

Ganhador do Prêmio Nobel de Literatura divulgou novo romance sobre o golpe da Guatemala na década de 50. Ele também aproveitou a ocasião para elogiar o presidente do Peru

AFP, Reuters, Agências

08 de outubro de 2019 | 18h32

O escritor peruano Mario Vargas Llosa apresentou seu novo romance Tiempos Recios (Tempos Difíceis, em tradução livre) nesta terça-feira, 8. Segundo o autor, a obra deve oferecer um novo mergulho na história da América Latina, ao abordar o golpe na Guatemala em meados da década de 1950. Vargas Llosa também aproveitou a ocasião para falar sobre a Revolução Cubana e elogiar o presidente do Peru.

Misturando história e ficção, assim como em A festa do bode (2000), Tempos Recios mostra "o lado mais antiquado e retrógrado de uma América Latina", frente as ditaduras que felizmente "estão desaparecendo", indicou o ganhador do prêmio Nobel de Literatura durante coletiva de imprensa em Madri.

O novo romance, que deve começar a ser vendido a partir desta terça-feira na América Latina, Espanha e Estados Unidos, usa histórias cruzadas para compor os anos antes e depois do golpe de Estado contra Jacobo Árbenz, em 1954. O presidente, que fora eleito democraticamente, buscou sem grandes sucessos modernizar a Guatemala em plena Guerra Fria.

Como consequência, a poderosa empresa americana United Fruit, se sentiu ameaçada pelas reformas sociais do presidente e fez com que ele fosse acusado de ser um agente soviético por Washington, que usou a CIA para derrubá-lo. Um erro grave, na opinião de Vargas Llosa, já que este foi "um acontecimento neurálgico" que reverberou em toda a América Latina e que a condicionou por décadas.

 

Meio século de atraso 

Segundo Vargas Llosa, a queda de Árbenz propiciou uma imagem negativa dos Estados Unidos e "levou muitos jovens latino-americanos, eu entre eles, (...) a desacreditar na democracia e pensar no socialismo, no paraíso comunista, na revolução à maneira dos cubanos, e iniciou um período terrível de matanças e terrorismo na região", apontou.

"Isso nos atrasou mais de meio século", disse o escritor peruano de 83 anos, que em sua juventude foi seduzido pela Revolução Cubana, mas depois a renegou e há décadas é defensor das democracias liberais. De qualquer modo, o autor esclareceu que seu novo livro "é um romance" e não "um livro de história". "Eu pesquiso para mentir com conhecimento de causa, para poder criar, fantasiar a partir de material real", indicou Vargas Llosa.

Apesar de ter uma carreira de mais de 60 anos, que lhe rendeu além do Nobel muitos prêmios como o Cervantes e o Príncipe de Asturias, Vargas Llosa confessou sentir "terror" e "pânico" diante da página em branco e que se sente "mais inseguro agora, do que no começo da sua carreira". Talvez seja "o medo de decepcionar um público que você sabe que já tem" ou o fato de ter que se isolar "com fantasmas, sonhos, fantasias e materiais que têm que se transformar em literatura", acrescentou.



"Trapaceiros semi-analfabetos"

Além da divulgação de seu novo livro, Vargas Llosa aproveitou a ocasião para elogiar o presidente do Peru, Martín Vizcarra, que em setembro passado optou por dissolver o Parlamento de direita do país e convocar novas eleições. “Ele fez bem de fechar o Congresso. Era uma vergonha para o Peru um Congresso de semi-analfabetos, de trapaceiros”, disse Vargas Llosa aos repórteres em Madri. 

“Espero que em janeiro, quando elegerem um novo Congresso, os cidadãos escolham melhor”, finalizou. Vargas Llosa, que mora em Madri, concorreu à presidência do Peru em 1990, perdendo para Alberto Fujimori. Com um governo marcado por polêmicas, Fujimori acabou fugindo para o Japão após terminar um governo de 10 anos, que resistiu em meio a acusações de corrupção e violações de direitos humanos. No entanto, posteriormente, ele acabou sendo condenado à prisão no Peru.

(Elena Rodriguez, Reuters)

 

Tudo o que sabemos sobre:
Mario Vargas Llosalivroliteratura

Encontrou algum erro? Entre em contato

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.