Reprodução
Reprodução

Mário de Andrade, o parteiro das 'Cirandas' de Villa-Lobos

'Estado’ publica trechos de carta inédita do compositor ao poeta

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S. Paulo

21 de fevereiro de 2015 | 03h00

A “tempestuosa proximidade”, feliz expressão usada por Jorge Coli para caracterizar as relações entre Heitor Villa-Lobos e Mário de Andrade, esconde segredos até hoje. Mário reconheceu a genialidade e indicou caminhos ao Villa, como Flávia Toni mostrou em livro editado pelo Centro Cultural São Paulo (1987).

As Cirandas, por exemplo, seu ciclo pianístico mais celebrado, nasceram em 1926 como um pedido “fictício” de Mário. Isso já era conhecido. Recentemente, Flávia e Manoel Aranha descobriram cartas e bilhetes de Villa a Mário, incluindo uma, inédita, na qual o compositor lhe fala das Cirandas

O lado musical de Mário tem sido pouco estudado. Flávia considera distorcida a imagem que o mundo musical ainda faz dele. “O mais comum é associar a campanha dele entre os compositores como sendo de índole nacionalista. Mário era um pesquisador da música e da literatura brasileiras. Sendo fluente nos dois ‘idiomas’, mas poeta e romancista, não compositor, é possível entender a atitude dele pelas conquistas no campo literário. Da pesquisa sistemática lendo os relatos dos viajantes, os nossos historiadores dos costumes, das práticas da sociedade e da formação do vernáculo, resultam obras como O Clã do Jabuti e Macunaíma, poesia e prosa que transpiram o programa que ele apregoa a seus interlocutores. O empenho, na criação musical, espelha a mesma natureza: estudar a criação espontânea e a performance do canto improvisado; conhecer as fontes europeias trazidas para o Brasil; analisar a contribuição dos compositores do século 19. Este é o programa do Ensaio Sobre a Música Brasileira, texto urdido com a análise do repertório de vários compositores - Villa-Lobos, H. Oswald, os irmãos Levy, L. Fernandez - e das 126 melodias que colecionara até 1928.”

Em um de seus artigos fundamentais para o Estado, onde escreveu entre 1934 e 1942, Mário clareia bem a questão do nacional e do nacionalismo. Publicado em 30 de outubro de 1934, A Música Popular e a Música Erudita reproduz conferência feita uma semana antes no Teatro Municipal, no 321º. sarau da Sociedade de Cultura Artística. "O nacionalismo é uma das invenções específicas das classes cultas. O povo nunca jamais é nacionalista. Poderá quando muito ser nacional (...) Essa fragilidade nacionalista, ou antes, essa força internacionalista do povo, se manifesta prodigiosamente clara na música popular. (...) A nacionalidade inconsciente da música popular, representante do povo, está sendo aproveitada pelo nacionalismo consciente dos compositores representantes das classes cultas. (...) É pois por causa deste nacionalismo novo que a canção popular lavadinha e vestida de roupagens aristocráticas, perdida a sua verdadeira função utilitária, se pavoneia agora nos salões e salas de concerto", completa em sua prosa deliciosa. 

Se começa falando da luta de classes no mundo da música, termina se perguntando "em que classe estaremos nós aqui". E responde: "Em nenhuma delas. Nós estamos na classe das Belas Artes. Este é o verdadeiro terreno de ninguém" (...) onde "tudo e todos nós nos fundimos na fraternidade piedosíssima da Beleza".

Leia abaixo trechos da resposta do compositor, só agora trazida a público por Flávia Toni e Manoel Aranha:

"Rio de Janeiro, 12 de abril de 1926

Caro Mário

Atualmente estou escrevendo coisas que te vão interessar muito (...). "Escrevi uma longa série de 20 peças cujas formas e processos novos dei o nome de Cirandas. São todas para piano ou pequena orquestra; e por fim, uma outra série para canto e piano, intitulada Serestas. (...)

Em tudo isso, venho completando o meu velhíssimo programa de escrever música regional, ou melhor, de escrever a música deste grande país, sem estilizá-la, nem harmonizá-la, nem tão pouco adaptá-la, no ambiente da técnica musical européia, tão diferente da nossa, que é vivida há séculos nos nossos choros. (...)

"É verdade que até a minha Prole do Bebê nº 1 - (1918) - escrevi dentro da técnica européia, vários temas inteiramente brasileiros, porém, sempre estudando a forma que pudesse ver-me livre desta influência cascuda. Já no meu Quarteto Simbólico comecei a me ver livre desta terrível peia, aonde no meu Sexteto Misto - 1921 - sacudo por completo as asas, e realizo as minhas duas (queridas) Sinfonias Indígenas ou Selvagens (1922) - das quais nasceram os meus Mafuás Dançantes, Nonetto, Malazarte, os Choros, Cinemas, Cirandas, Serestas e não sei o que será mais do teu

Villa- Lobos"

Tudo o que sabemos sobre:
CulturaLiteraturaMário de Andrade

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.