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Mario Benedetti: cem anos

Ele era um escritor que evitava as 'grandes questões' e abordava as pessoas comuns com delicadeza e ternura

Mario Vargas Llosa, O Estado de S. Paulo

06 de agosto de 2019 | 03h00

Embora fôssemos bons amigos, não me lembro quando conheci Mario Benedetti. Provavelmente, na primeira vez em que fui ao Uruguai, em 1966: uma viagem maravilhosa, na qual descobri que um país na América Latina poderia ser tão civilizado, democrático e moderno quanto a Suíça ou a Suécia. Nas ruas de Montevidéu, havia cartazes anunciando um Congresso do Partido Comunista e os jornais – El País, La Mañana, Marcha – eram muito bem escritos e bem diagramados, o teatro era soberbo, as livrarias formidáveis, se respirava por toda parte uma liberdade sem antolhos. Aquele país tão pequenino tinha uma vida cultural de primeira ordem e, se alguém pudesse pagar por elas na livraria Linardi e Risso, eram encontradas todas as primeiras edições de Borges. Eu já havia dado palestras para pequenos públicos, mas, na Universidade de Montevidéu, onde José Pedro Díaz me levou, eu falei sobre literatura ante um público que abarrotou o auditório, algo que me deixou pasmo.

Se foi então que nos conhecemos, eu deveria tê-lo felicitado por seus contos e poemas, que havia lido em Lima e que me entusiasmaram, em especial Montevideanos, mas também a poesia de Poemas de la Oficina e Poemas del Hoyporhoy. Ele era um escritor que evitava as “grandes questões” e abordava as pessoas comuns com delicadeza e ternura, como funcionários de escritório, estenógrafos, empregados em geral, famílias sem história, aquela classe média que só no Uruguai parecia representar todo um país na América Latina daqueles dias de desigualdades hediondas. Benedetti o fazia com prosa e versos simples, claros, diretos e impecáveis. Era uma voz nova e surpreendente, especialmente na literatura da época, porque evitava o brilho e a agitação e transmitia sinceridade e limpeza moral.

Nós nos víamos muitas vezes em lugares diferentes e trocávamos copiosas correspondências. Às vezes, brincamos para adivinhar quais escritores latino-americanos entrariam no céu, se esse existisse, e lembro-me de um empate entre dois candidatos: Rulfo e Benedetti. Isso foi antes do “caso Padilla”, um cataclismo do qual ninguém se lembra agora e que, no início dos anos 1970, rompeu relações e dividiu ideologicamente alguns escritores do novo mundo que, até então, apesar da diversidade de opiniões, mantínhamos o diálogo e até a amizade. Como ele e eu adotamos posições radicalmente opostas sobre essa questão, desde então nos encontramos pouco e as breves reuniões ao longo dos anos foram quase sempre formais, desprovidas da cumplicidade e do afeto de antigamente.

Mas eu sempre continuei lendo seus livros e admirando-o, especialmente ao escrever histórias, romances, poesias e ensaios que não eram políticos. E devo ter sido um dos poucos leitores que defenderam como uma conquista muito ousada: El Cumpleaños de Juan Angel (O aniversário de Juan Angel), um romance escrito em versos, uma experiência que os críticos, em geral, receberam com ceticismo. Tivemos uma polêmica bastante enérgica no jornal El País e, alguns anos depois, acho que da última vez que nos encontramos, ele se lembrou com nostalgia, me dizendo que alguns leitores do jornal escreveram pedindo que continuássemos polemizando porque o fizemos com bons argumentos e, acima de tudo, sem insultos.

Eu me perguntei muito, nos últimos anos, o que Benedetti teria pensado dos acontecimentos políticos dos últimos tempos. Acima de tudo, a queda e, para todos os efeitos práticos, do desaparecimento do comunismo. Alguém ainda pode pensar que Cuba, Venezuela ou Coreia do Norte poderiam ser os modelos para acabar com o subdesenvolvimento e criar uma sociedade mais justa e próspera? Ou que a lenta, mas inequívoca resignação da extrema esquerda na América Latina ante eleições livres e a coexistência na diversidade que antes se rejeitava como os gatos evitam a água. Ninguém pode responder a essas perguntas em seu nome, agora que ele está ausente, é claro. Emir Rodríguez Monegal, que fora seu amigo e do qual também se distanciou por motivos políticos, disse a respeito de Mario Benedetti que sua formação no Colégio Alemão de Montevidéu o converteu em um “puritano” de ideias rígidas, que, uma vez adotando uma posição, era incapaz de dar o braço a torcer. Eu o refutei, convencido de que, embora ele estivesse equivocado em muitas coisas, como todo mundo, sempre o fez de boa fé e por razões generosas.

Agora restam-nos, acima de suas posições políticas, os belos poemas e histórias que ele escreveu, reivindicando com amor aquelas vidas incrustadas na monotonia da rotina, sem grandeza, do heroísmo discreto, que vão pontualmente ao escritório e poupam parte do salário. Fazendo sacrifícios para gozar pequenas férias, que pensam várias vezes antes de comprar um vestido novo ou terno, e que sempre vivem com pressa, aqueles cidadãos sem história que costumam ser os grandes excluídos da literatura, aos quais ele deu vida, cor, destacando a sua decência e mostrando que eles são os verdadeiros pilares de uma sociedade, uma vez que depende deles para prosperar ou retroceder, para se modernizar ou voltar para à selvageria da tribo.

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Era uma voz surpreendente porque evitava o brilho e transmitia limpeza moral
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O mundo que Benedetti construiu não teria sido possível sem a experiência uruguaia que o marcou com fogo, embora, já um grande homem, ele tenha vivido no exílio por muitos anos. Mas, sem dúvida, ele levou consigo, quando era cidadão do mundo, a memória de seu pequeno país, a exceção à regra na América Latina para suas instituições representativas, seu amor pela liberdade e cultura, e por ter representado tantos anos de civilização em um continente que parecia ter escolhido a barbárie. Seu grande mérito foi ter mostrado que esta sociedade, que se aproximava da perfeição, não era nada perfeita quando era explorada de perto com o amor que aquelas pessoas inspiravam sem o saber ou com a intenção de construir um país através de seus esforços diários. Quando os jovens revolucionários chamados tupamaros decidiram que ali também fazia falta uma revolução cubana – o sonho ideológico da época – e introduziram a violência, esse país tolerante desapareceu e se tornou outro país latino-americano prototípico, com tortura de revolucionários militares e terroristas. O Uruguai parecia ter chegado ao fundo. Felizmente, foi sendo reconstruído e volta a se assemelhar, pouco a pouco, aos poemas e histórias dos grandes escritores uruguaios daquela notável geração: Juan Carlos Onetti, Ideia Vilariño, Ángel Rama, Emir Rodríguez Monegal, Carlos Real de Azúa, Mario Benedetti e muitos outros.

A última vez que nos encontramos foi em Buenos Aires. Eu estava jantando com alguns amigos em uma pequena pousada onde eles preparavam bons bifes e alguém me disse que Benedetti estava lá também. Fui cumprimentá-lo e encontrei-o cansado e envelhecido. Trocamos algumas lembranças afetuosas e, na hora de dizer adeus, tenho certeza de que, em vez de um aperto de mão, nos abraçamos. / TRADUÇÃO DE CLAUDIA BOZZO

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