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Maria Adelaide Amaral conta sobre a amizade com seu mestre, o crítico Sábato Magaldi

Em texto, a escritora e dramaturga relembra os primeiros encontros com o crítico e a troca de ideias acerca de sua primeira peça

Maria Adelaide Amaral, Especial para O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 03h00

Conheci Sábato Magaldi em 1971, quando era pesquisadora da Enciclopédia Abril e ele o consultor de teatro. Mas foi na coleção Teatro Vivo, três anos depois, que nossa relação profissional ficou mais próxima. Cada prefácio era precedido de uma reunião sobre o dramaturgo, a obra a ser publicada, os livros que eu deveria consultar. Esses encontros, nos quais aprendi tanto sobre teatro, se davam em geral na Secretaria de Cultura do Município, em que ele administrava com brilho a vida cultural da cidade. Os anos eram de chumbo, a censura asfixiava as artes, mutilava ou proibia o trabalho dos dramaturgos, mas Sábato alinhava-se aos protestos de artistas e autores e manifestava-se publicamente a favor da liberdade. Posição difícil e temerária para quem era secretário da Cultura na época em que os órgãos de repressão prendiam e arrebentavam. 

Foi nesse tempo sombrio que escrevi minha primeira peça de teatro. Insegura, liguei para Sábato dizendo que iria lhe mandar um texto, embora não tivesse ideia de sua qualidade. Para meu espanto, no dia seguinte, ele me telefonou, dizendo que era teatro e bom teatro. Tinha problemas, claro, mas, paciente os apontou um a um, e generosamente sugeriu as correções necessárias. Foi dessa forma que nasceu A Resistência e a relação com ele, até então profissional, se transformou em gratidão e amizade. Mas Sábato, como bem dizia Alcione Araujo, sempre foi de uma honestidade feroz e seu afeto por um autor, diretor ou ator, jamais o induziu à complacência ou indulgência. Ao contrário, era mais um motivo para colocar seu dedo na ferida, sugerindo correções de curso a encenadores e autores. 

Em uma leitura aleatória de suas críticas em Amor ao Teatro, percebe-se que o motor principal de Sábato Magaldi é sua paixão pelo teatro. E é movido por essa paixão que ele aponta as qualidades e as deficiências de um espetáculo. Em alguns momentos, pode ser cáustico, mas jamais demolidor. Ao criticar um espetáculo em todos os seus aspectos – o que sempre faz –, ele salva o que é passível de salvação. 

O amor de Sábato pelo teatro está presente não apenas na crítica, como em sua obra teórica, na admiração que devotou a Nelson Rodrigues desde sua estreia, quando a maior parte da crítica o considerava um marginal. Teatro da Obsessão – Nelson Rodrigues é fundamental para o estudo da obra rodriguiana. Da mesma forma, Panorama do Teatro Brasileiro, publicado nos anos 1960, continua sendo um dos livros mais completos sobre a História do Teatro no Brasil, desde José de Anchieta.

Sábato Magaldi, como seu primo Hélio Pellegrino, pertencia à turma de poetas e escritores mineiros que se transferiu para o Rio de Janeiro no início dos anos 50 e fez história no jornalismo e na literatura brasileira. Sábato fez história como crítico no Diário Carioca ao consagrar malditos como Nelson e Dercy e, depois, no Suplemento Literário de O Estado de S. Paulo e no Jornal da Tarde. Erudito, seu repertório cultural não se limitava ao teatro. Seus interesses abrangiam todas as artes, como atestava sua vasta biblioteca, de que me servi muitas vezes, na época em que trabalhava na Abril Cultural. Foi à sombra de seus livros que, em um sábado de agosto de 1974, Sábato Magaldi me deu uma aula de seis horas sobre dramaturgia, apontando as fragilidades de meu texto e indicando o que tinha qualidade.

Amor ao Teatro conta a história do teatro paulista de 1966 a 1988. Mas é, acima de tudo, um ato de amor de Edla Van Steen, companheira de Sábato há 35 anos, que reuniu o trabalho de uma vida dedicada amorosamente ao teatro. 

Maria Adelaide Amaral é dramaturga e escritora

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