AP Photo/Alastair Grant
AP Photo/Alastair Grant

Margaret Atwood é homenageada com o Prêmio Literário da Paz Dayton

O extenso trabalho da escritora canadense está sendo reconhecido com um prêmio pelo conjunto da obra que celebra o poder da literatura em promover a paz, a justiça e a compreensão

Dan Sewell, Associated Press

15 de setembro de 2020 | 10h00

CINCINNATI - Margaret Atwood, cuja extensa obra inclui O conto da Aia, uma representação de um futuro totalitário para os Estados Unidos que mais parece um pesadelo, é a vencedora deste ano de um prêmio pelo conjunto de sua obra que celebra o poder da literatura em promover a paz , a justiça social e a compreensão global.



A escritora e professora canadense recebeu o Prêmio de Distinção por Realização Richard C. Holbrooke, anunciaram os funcionários do Prêmio Literário da Paz Dayton. O prêmio é uma homenagem ao falecido diplomata dos Estados Unidos que mediou os acordos de paz da Bósnia de 1995 firmados na cidade de Ohio. Nos últimos anos, Margaret - uma prolífica escritora de poesia, ficção, não ficção, ensaios, histórias em quadrinhos e, ultimamente, tweets -  atraiu uma nova rodada de aclamação por seu romance best-seller de 1985 a respeito de um futuro distópico em que as mulheres são subjugadas após o governo dos Estados Unidos ser derrubado.

Alguns leitores de O conto da Aia viram nos líderes autoritários de Gilead semelhanças com a ascensão do republicano Donald Trump à presidência na eleição de 2016. A adaptação para a televisão na Hulu, estrelada por Elisabeth Moss, gerou ainda mais comentários, e mulheres vestidas com mantos vermelhos e gorros brancos, como as aias foram retratadas no livro e na série de TV, apareceram em manifestações políticas.

"Você ainda não chegou lá ou então não estaria falando comigo", disse Margaret a um repórter da Associated Press, rindo ao telefone. “Você provavelmente estaria em uma prisão de isolamento ou algo assim ou morto. (...) Como se atreve a falar com uma mulher ao telefone e escrever a respeito dela?” “E se eu fosse uma pessoa que faz apostas, o que naturalmente eu sou, eu apostaria na teimosia americana e na recusa em se alinhar,” ela acrescentou. “Então eu não acho que você vai fazer as pessoas marcharem em sincronia facilmente. (...) Você poderia conseguir, mas seria difícil.”

Margaret também acha que as pessoas estão "alertas para os perigos" de enfraquecer a constituição dos Estados Unidos. “Isso é o que está entre você e uma ditadura absolutista,”' disse ela. Sharon Rab, fundadora e presidente da fundação que organiza a premiação, elogiou Margaret por seu sucesso que a fez popular com textos que também educam as pessoas quanto a justiça social e questões ambientais urgentes.

 

“Margaret Atwood continua a nos lembrar que 'Isso não pode acontecer aqui' não pode ser apoiado; qualquer coisa pode acontecer em qualquer lugar, dadas as circunstâncias certas, e agora, com o desprezo pelas instituições democráticas em ascensão, suas lições são mais vitais do que nunca”, Sharon disse à AP por e-mail.

Embora nem todos os livros conduzam à paz e à compreensão, disse Margaret, a ficção pode ajudar as pessoas “a aprender o que é ser uma pessoa diferente de nós mesmas, o que pode fazer com que você tenha mais empatia por pessoas que não são exatamente como você”.

O parceiro de longa data da residente de Toronto, o romancista Graeme Gibson, morreu aos 85 anos há um ano. Margaret, 80 anos, disse que tentou se manter ocupada e distraída após a perda, fazendo divulgações de livros e outras viagens até que a pandemia a deixou de castigo em março. Desde então, ela assinou milhares de encartes e ex-libris para apoiar livreiros independentes e deu palestras via Zoom.

Ela se considera “uma realista, mas do lado otimista, porque se você for pessimista, você não faz nada. Acho que são as pessoas realistas, mas inclinadas ao otimismo, que realmente tentam mudar de direção”.

Margaret publicou seu primeiro livro de poesia, Double Persephone, em 1961, e entre seus outros livros estão Olho de Gato (1988), Vulgo Grace (1996), O Assassino Cego (2000) e A trilogia MaddAddão (2003-2013). Os Testamentos, sua sequência de 2019 para O conto da Aia, rapidamente se tornou mais um de seus best-sellers.

O prêmio pelo conjunto da obra de Dayton também dá ao vencedor uma quantia de  10 mil dólares. Os vencedores anteriores incluem Studs Terkel, Taylor Branch, John Irving, Gloria Steinem e Elie Wiesel.

A entrega de prêmios originalmente planejada para outubro está sendo reprogramada para a primavera de 2021 devido a precauções por conta da pandemia. Margaret se juntará aos vencedores de prêmios de ficção e não ficção em 2020; os finalistas serão anunciados no próximo mês.


TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

 

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