MARCIA ZOET/ESTADÃO
MARCIA ZOET/ESTADÃO

Marcos Rey tinha uma única preocupação: o prazer do leitor

Musical baseado em obra do escritor estreia em São Paulo no próximo dia 10 de julho

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S. Paulo

29 de junho de 2015 | 05h00

Pouca gente, como o paulistano Marcos Rey (1925-1999), pode se gabar de uma vocação de escritor tão bem cumprida. Rey não alimentava preconceitos. Escrevia de tudo e, se lhe perguntavam qual a relação entre um romance, uma peça de publicidade, um livro de contos, o roteiro de uma pornochanchada, um script de rádio, ele simplesmente dizia que tudo se resumia a escrever. Tudo era escrita e, nesse mundo das palavras, das quais sobrevivia, tudo era válido.

O curioso é que Marcos Rey, batizado Edmundo, adotou esse pseudônimo, diz-se, para escapar ao sobrenome que o aproximava do irmão, o também escritor Mário Donato. Mas existe também a versão de que era para escapar a um estigma de doença. Ainda criança, foi diagnosticado com o Mal de Hansen, a fatal lepra, e compulsoriamente internado. A revelação do “segredo” está na biografia Maldição e Glória: a Vida e o Mundo do Escritor Marcos Rey, de Carlos Maranhão (Companhia das Letras). O trauma, segundo o biógrafo, acompanhou o escritor ao longo de toda a sua vida. Sua mulher, Palma, o incentivava a escrever a respeito, até como forma de exorcizar o fantasma, mas Rey nunca se sentiu forte o suficiente para fazê-lo. Também jamais proibiu a mulher de revelar o seu segredo.

O fato é que, em função da doença, Rey sofreu o diabo e algumas de suas opções literárias podem ser vistas como reação a essa experiência. De fato, se escreveu de tudo, em sua obra de ficção adulta Rey preferiu debruçar-se sobre o povo miúdo, sofrido e anônimo. Há outro detalhe de sua história ligada à doença. Depois de se livrar do sanatório, o jovem decidiu sair de São Paulo, com medo de que o internassem de novo. Refugiou-se no Rio, onde, no bairro da Lapa, conheceu o mundo da boemia, dos cafetões e das prostitutas. Esse tipo de ambiente está registrado naquela que talvez seja sua obra mais famosa, Memórias de um Gigolô, que ganhou versão para o cinema sob direção de Alberto Piarelisi (1970) e também a minissérie da Globo, de Walter George Durst (1985).

Em termos literários, Marcos Rey pode ser definido como um escritor direto, sem firulas, dono de ótimo domínio da dinâmica de uma história. Sente-se que pensa muito no leitor, sem se curvar a ele ou a um suposto gosto médio. Escreve para ser lido. João Antonio diz: “Marcos Rey é um autor que não se deixa envolver por nenhum dos modismos da época, e escreve como que voltado para o leitor, sem artifícios ou demagogia. Não abre mão do fascínio duma boa história, é direto, objetivo, funcional, sem golpes de estilo, mas não perde o ritmo e a garra de uma realidade crítica que o vem caracterizando desde sua estreia, em 1953”.

João Antonio e Marcos Rey, ambos sob inspiração de Lima Barreto, pertencem à mesma família literária. A dos que experimentaram o sofrimento, a dos solidários dos desvalidos.

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