Patricio Murphy / Brazil Photo Press / ESTADÃO
Patricio Murphy / Brazil Photo Press / ESTADÃO

Marcelo Mirisola volta com seu narrador característico e divertido

'Hosana na Sarjeta' é o 15º livro do escritor paulistano, que está passando algumas semanas em Buenos Aires

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

29 Outubro 2014 | 03h00

É na sarjeta do título que o narrador do novo romance de Marcelo Mirisola encontra o amor da sua vida – “a Capitu mareada que tanto pedi a Deus”. Na extinta boate Kilt, numa esquina da Praça Roosevelt no centro de São Paulo, o narrador, tal de MM, encontra Paulinha Denise, conversam, vão juntos para casa e ali ele já escorregou pelo absurdo da situação: “Ela absorvia os despojos e as esperanças de quem a solicitava, engolia tudo. Daí emergia sua majestade”.

Poucas páginas depois, aparece Ariela, “o oposto vertiginoso de Paulinha”, mas também amor de sua vida, e não se sabe bem por que, acaba com o sonho de casa própria em Suzano e com os domingos agendados por Faustão ao lado de Paulinha – “Traí Paula Denise, e o fiz por causa daquele chapeuzinho ridículo que ela pendurava na carapinha oxigenada”.

É com essa mistura de adultério, paixão e (falta de) tesão que Mirisola constrói seu 15.º livro. Publicado pela Editora 34, Hosana na Sarjeta, mais uma vez, dá voz ao narrador auto-ficcional do escritor com o que tem de melhor: a linguagem, em uma palavra, divertida. O amor, então, é a massa de manobra para as investidas do cara na filosofia: das redes sociais, das relações familiares, dos deslocamentos e do sexo – andando numa corda bamba entre as duas mulheres, entre, como ele diz, a realidade (Paula) e sua ficção (Ariela).

Uma frase no livro diz: “Tem coisas mais prementes, prazerosas e relevantes do que amar ou deixar de amar alguém nessa porra de vida”, entre elas, diz o narrador, ficar sozinho. É curioso porque boa parte da literatura de Mirisola nasce do fato de se amar alguém.

“A Bíblia insiste no mesmo pressuposto”, começa Mirisola, em um par de e-mails trocado com a reportagem do Estado, de Buenos Aires, onde está há algumas semanas. “Problema é que as pessoas têm mais facilidade para fazer o contrário. Pensando bem, isso não é um problema. Se não fosse esse atrito, não existiria movimento. Se as pessoas não se odiassem – também – não haveria amanhã.”

Outro fator que volta ao livro, traço importante de sua obra, são os deslocamentos geográficos – MM começa na Malásia, passa pelo centro de São Paulo, embarca Ariela em um táxi a Guarulhos com uma frequência comovente, vai visitar a família na Serra da Canastra, em Minas Gerais (onde garimpa um diamante que vai definir seu futuro imediato), descasca a Baixada Santista e para no Rio no Réveillon (quando “o Rio de Janeiro todo cabe dentro do Santos Dumont, o resto vira Mongaguá”).

“Fugir de si mesmo é uma arte”, diz Mirisola. “Às vezes a paisagem ajuda.”

Vida. De Buenos Aires, o escritor nascido em São Paulo diz que está cada vez mais “mirisolado”. “Minha literatura não cumpre função social nem moral. É livre. No Brasil das hipocrisias bem-comportadas, isso é quase um atestado de óbito. Sem falar que eu sou um cara chato pra cacete e intransigente. E estou ficando velho”, resume o conceito. Aos 48 anos, diz que escreve amarrado no tronco, e que agora prepara uma nova coletânea, “o filé mignon dos melhores contos”, segundo o próprio. Sai pela e-galáxia no início de 2015 – quando também vai ao prelo Tropical Fanho, segundo volume de suas crônicas pela Oito e Meio.

Há algumas semanas, Mirisola teve um problema sério de saúde. “Tava com duas artérias entupidas. Quase morri. Sem grana pra fazer cateterismo, sem plano de saúde, e etc. Eu podia enfartar de uma hora pra outra”, explica. “Mas Nossa Senhora Aparecida me socorreu. Agora tô zerado.”

Outro dia, postou na sua movimentada página do Facebook – que ele usa para divulgar crônicas, publicadas em portais como o Yahoo, e também das revistas Cult e VIP, estabelecer marcos políticos e destilar críticas a questões de ordem geral – uma mensagem de uma editora britânica que recusou um livro. Dizia que, apesar de ter gostado do livro, Bangalô, ele tinha um “ponto de vista indulgente e masculino”.

“Nesse livro recusado”, discorre Mirisola, “o herói é enrabado por uma sapatão. Se isso é ponto de vista masculino, olha, sinceramente, não sei mais o que é inflexão. Pois usei esse ‘detalhe’ para mudar o destino do narrador”. Não alivia: “a Inglaterra e a Escócia precisam de mais Shakespeare e menos Belle & Sebastian”.

Sua posição sobre a literatura brasileira é conhecida – “o Brasil também precisa de mais Plínio Marcos e menos Pato Fu”.

Eleições. Mirisola foi, nas últimas semanas, um severo defensor do voto nulo no Brasil. Em agosto, compartilhou uma previsão de que Aécio Neves seria eleito. “Quem disse isso foi o Carlinhos Vidente”, explicou, antes do pleito, no qual não pôde votar à distância. 

Já sabendo do resultado, reafirmou a convicção. “O nulo diz tudo. Mas, se o Aécio vencesse, acho que seria menos monótono. Com certeza ia ter quebra-quebra. Os ânimos não estariam falsa e burocraticamente pacificados como agora. Stédile é o Telhada da esquerda, com a diferença que é financiado pelo governo e é um incendiário de verdade.”

Argentina. Mirisola diz morar no Rio, mas é todo elogios a Buenos Aires, por onde deve ficar mais alguns dias. “Os fantasmas daqui são menos histéricos que os nossos, e menos deslumbrados. Aqui não existe constrangimento em ser mais uma alma penada a caminhar pelas calles. Se não me engano, meu amigo (Ricardo) Carlaccio já havia escrito alguma coisa sobre isso”, compara, comentando que andar pelas calles de Palermo Viejo tem sido uma de suas “taras” recentes.

“Esse despudor ectoplasmático serve como passaporte para a metafísica. Daí se explica Cortázar, e um pouco de Borges. Só aqui é que você entende o que é uma milonga. Buenos Aires é uma cidade feita para a melancolia. E para os duplos, para os desdobramentos”, filosofa.

HOSANA NA SARJETA

Autor: Marcelo Mirisola

Editora: 34 (144 págs., R$ 32)

Leia trecho de Hosana na Sarjeta, de Marcelo Mirisola:

"– Oi, Gui. Tô aqui na casa daquele meu amigo viado. Não esquece de levar o Cauã na dentista, hein?

Um ex-marido chamado Gui? Que porra de intimidade era aquela? Na qualidade de “amigo viado” de Ariela, e amante corneado, eu somente remoía – porque não tinha co ndições de “exigir” – explicações. Ela mudava de assunto, se aninhava feito uma serpente e me pedia para acordá-la às 5 da manhã. Cauã era o filho deles. Talvez o fato de Ariela ser mignon, talvez o encaixe dos nossos corpos ou a mentira que ela aplicava na base da distração, talvez a camada de poluição acumulada no céu de São Paulo um pouco antes de raiar o dia tenha ajudado – quem é que olha prum céu tão feio? – a embaralhar ainda mais as ideias na minha cabeça, acho que sim: com certeza, o céu medonho de São Paulo significava Ariela nas alturas, ela era minha hosana poluída: só mesmo nós dois para suspirar por aquela mistura de gás carbônico laranja e “bom trabalho, amor”; às cinco da manhã, Ariela era o meu apesar de tudo e o tranco, a vertigem e o barranco, e também éramos nós dois à espera do táxi abraçados na esquina da Brigadeiro com a Humaitá, tudo isso, enfim, essa confluência poluída (e bonita) fez com que eu apagasse a figura de “Gui” do meu horizonte, como se ele não tivesse cacife para ser o marido traído. Ou seja. Eu e Ariela não precisávamos nada além do céu poluído de São Paulo ao alvorecer, e de um táxi para consumar nossa fraude. Simples assim. Bastava embarcá-la; ato contínuo, Ariela me dava um tchauzinho, abria a porta do táxi e pedia outro beijo, como se ela não fosse a adúltera e eu não fosse seu amante, assim, acabamos displicentemente nos convencendo de que Gui também não era o corno da história. Era bolero, mas não era. Para resumir, até hoje não sei se me apaixonei pela mulher ou pela mentira, ou vice-versa. Que diferença faz?

O beijo nos explicava. O beijo apagava o entorno. Essa era a única certeza que tínhamos, nosso beijo. Depois, Ariela subia no táxi e ia embora."

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