JF DIORIO / ESTADÃO
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Marcelino Freire lança contos e aforismos sobre Brasil e literatura

Em 'Bagageiro', seu primeiro livro desde 2013, escritor oferece pensamentos num tempo em que 'todo mundo quer ter ração'

Entrevista com

Marcelino Freire

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

20 Outubro 2018 | 06h00

Marcelino Freire conta que quando morava no Recife, entre os seus 8 e 24 anos, o único veículo que manejava era a bicicleta. E no seu bagageiro ia de tudo. “Era para levar gente de carona, criança, jerimun, botijão de gás.” Seu novo livro é uma referência a essa ideia – Bagageiro, lançado agora pela editora José Olympio, é uma “reunião de ensaios de ficção”, contos e anotações que o escritor de 51 anos oferece aos leitores num tempo em que, segundo o próprio, “todo mundo quer ter ração”.

Agitador cultural e o oposto do que chama de “escritor bundão, aquele que fica sentado em frente ao computador”, Freire nunca fugiu dos debates ou escondeu sua posição. No livro, os contos/ensaios retratam personagens muitas vezes afligidos pela desigualdade social ou mesmo desamparados em relação à sua arte. “Quem disse que eu não sou poeta (...)? Só porque não detenho livro nas livrarias, não chamego prêmios no meu pescoço?”, questiona a narradora de Sobre a Poesia. Em Sobre a Televisão, provoca: “Um cara, da quebrada, honesto, lá no auditório, em frente das câmeras, é humilhado. Pode ver. Participa de uma gincana, faz lá uns malabarismos, dança um samba no caldeirão, balança um funk e leva cornetada na cara. Para ganhar o que no final, meu irmão?”.

Os contos mais carregados são alternados com os Ensaios de Ficção, reflexões agudas e divertidas sobre escritores e o meio literário, e chistes mais ou menos pornográficos. “Eu não saio com um pretérito-mais-que-perfeito pendurado no pescoço”, diz um. “Clarice é vírgula. Graciliano Ramos é ponto. Raduan Nassar é ponto e vírgula. Guimarães Rosa são dois-pontos”, reflete. “– Quanto é? – 20 cm.”

O livro tem lançamento marcado no Rio, no próximo sábado, dia 27, na Fábrica Bhering, às 15h. Antes, Marcelino se reuniu com a reportagem num bar na Vila Madalena, onde vive, para trocar algumas ideias.

Em um dos contos, você diz que “o escritor é sempre um filho da p*. O mundo pode cair. A coisa pode feder. E ele nem aí”. Como é que se dá o engajamento de um escritor na política e na sociedade?

O escritor não é engajado nem na hora de fazer amor. Toda vez que vou a festival de literatura, saio mais virgem do que entrei (risos). Não acontece nada. Festival de teatro, de cinema, é muito mais animado. Se tem muita gente vivendo em bolhas, o escritor vive numa delas. Estou falando evidentemente de um escritor com ideal romântico. Porque há muito tempo escritores na periferia têm ido aos bares e saído à rua. Festejado a literatura em lugares completamente distantes de suas casas e de seus escritórios. Vai fechando as livrarias, e os idealistas reclamam. A literatura contemporânea que interessa nunca esteve presente nessas estantes. Então digo que há um certo romantismo. Um glamour perdido. Esse escritor que coloco na Vila Madalena – que não deixa de ser o escritor que gerou meu desejo de ser escritor, embora eu possa dizer que não sou o escritor bundão, aquele que fica sentado em frente ao computador – é de uma família de escritores que o mundo pode estar acabando e ele está lá sentado, achando que está resolvendo os problemas da humanidade só escrevendo. Não está. Tem que ir à rua.

São cinco anos sem livro publicado, apesar das andanças, iniciativas editorais, etc. Por que o intervalo?

Eu tinha dois romances, mas eles estavam técnicos, frígidos. Um livro tem que me emocionar, me perturbar, no sentido de eu não saber o que ele é. Nossos Ossos foi assim. Achei que tinha uma fórmula depois disso. Fiz, comecei a fazer outros dois, nada. Nesse período, o Brasil se esfacelando. Era impeachment, e eu olhava para os meus livros e dizia: que livro mais frouxo. Mas estava com esses contos e anotações. Sempre olho para os meus contos e quero saber qual livros eles pedem. Foram dois motivos para reuni-los no Bagageiro. Encontrei uma anotação que dizia: “hoje todo mundo quer ter ração”. Porque o conto Sobre a Merda é isso. Em todo o canto tem cachorro, mas na Vila Madalena deve ter mais, não é possível. O povo é muito solitário, tem cachorro cagando em tudo que é canto. As ruas têm nomes bonitos (Purpurina, Girassol), mas tudo cagado. Aí eles levam o cachorro para passear, deixam do lado para comer croissant. Nunca vi tanto pet shop em minha vida. Disseram também: como eu tinha muita bagagem. Eu respondi que não tinha bagagem, tinha bagageiro. O único veículo que sei dirigir é bicicleta. O meu bagageiro é pequeno, é onde carrego essas anotações. Os contos que originalmente tinham outros títulos, quando fui reunir, chamei de ensaios. Porque todo mundo quer ter “ração”. No meio de cada ensaio, para não parecer que estou professoral, tem sempre um c* (risos).

Como você está se sentindo em relação ao ambiente nacional?

Tá f*. Porque eu acordo e quero ficar dormindo. É desanimador ver as coisas desacontecendo, voltando no tempo. Pessoas completamente cegas, surdas. A gente que faz arte, provoca coisas, se sente muito desamparado. Ao ver que esse batalhão de gente não dá bola para a literatura. Dá uma preguiça grande.

Numa entrevista recente ao Estado, o ministro da Cultura disse “aquilo que os artistas fazem tem impacto transformador, mas a opinião deles tem muito menos.” 

(risos) Ele diz que o Ministério não acabou, mas que Ministério? Acho que o último que tivemos foi o de Gilberto Gil e de Juca Ferreira, depois foi um atrapalho mesmo no governo Dilma. Eu participava muito ativamente, ia a reuniões em Brasília. Acho que os Pontos de Cultura foram um momento bom na cultura no Brasil, um momento de respeito institucional. O nome “literatura” não aparece nos discursos oficiais, é muito difícil. Dizer que a opinião dos artistas não é levada a sério? Ele não sabe nem o que é artista. Cultura para eles é o quê? Peão de boiadeiro? Sei lá. Não lembro nem o nome dele.

Já está pensando no próximo projeto?

Quero fazer um livro mais longo, com as histórias mais demoradas sobre a questão de títulos, desenvolvimento de algumas ideias (na literatura). Por exemplo, sobre a junção que faço entre Baleia (de Vidas Secas) e Macabea (de A Hora da Estrela). Para mim, são a mesma pessoa. Tenho isso esmiuçado, como as duas morrem enxergando transatlânticos e preás. Brinco que são transatlânticos preás. Gosto de pensar sobre isso. Sobre os dois pontos do Grande Sertão: Veredas. Queria ser uma mosquinha para saber quando o Guimarães decidiu usar. É um sinal alienígena. Não sei se estou ficando velho, mas sabe o que eu estava com vontade de fazer? Antes que o Brasil morra. Começar a escrever uma espécie de perfil autobiográfico. Não gosto desse nome não, tudo é autobiográfico. Se você contar uma história sua para mim, eu reimagino e a imaginação é autobiográfica. Aliás, esse pode ser o título do livro. Pronto. Não vão roubar meu título. É a imaginação autobiográfica.

BAGAGEIRO

Autor: Marcelino Freire

Editora: José Olympio (160 págs., R$34,90)

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