Gabriel Renie/Divulgação
Gabriel Renie/Divulgação

Marcela Serrano volta a mapear a voz feminina em seus contos

Chilena demonstra eficiência para dispor de problemas e perfis, mas em termos de linguagem e estilo, a uniformidade se impõe

Manoela Sawitzki - Especial para O Estado de S. Paulo, O Estado de S. Pauço

17 de outubro de 2014 | 20h00

A chilena Marcela Serrano se popularizou na literatura de língua hispânica como romancista. Até 2000, já era autora de cinco romances e nunca havia escrito um conto. Foi quando veio a encomenda do jornal El País. E é 2 de Julho, seu conto inaugural, escrito na época como um desafio, que fecha o volume com 20 narrativas breves de Doce Inimiga Minha.

Serrano tem se destacado como escritora que percorre e mapeia vozes femininas. São elas que animam os relatos de Nós que Nos Amávamos Tanto, sua estreia literária, até o romance mais recente, Dez Mulheres. O universo feminino é igualmente predominante nos contos, seja a partir das protagonistas ou na forma de sombras e obsessões de personagens masculinos. Mas, ainda que sua escrita se desloque no tempo e no espaço, percorrendo gerações e diferentes territórios, parece haver uma chave-mestra para os registros íntimos que investiga. A opressão. Trata-se, sobretudo, de personagens, majoritariamente mulheres, que se oprimem entre si, a si mesmos, ou são oprimidos em seus ambientes, modos de existência e pelo poder do homem.

É o caso de Ana María, de A Égua. Ao dar os primeiros passos rumo à meia idade, ela se vê assombrada pela existência das “mulheres jovens”, tentações que pululam diante do marido, malha o corpo como se assim pudesse retardar a perspectiva do abandono, e tenta se agarrar à ideia de que a ternura venha a ser uma boa substituta para o desejo que se extingue no outro. 

Abricós e Abóboras fala de um paradoxo importante e atual: alguém que cultiva a vida analógica, presencial, natural, no contrafluxo das possibilidades tecnológicas, com suas facilidades e seu isolamento. “O mundo está aí fora para ser devorado”, dizia Leticia, “e não para nos escondermos dele”. Leticia é um indivíduo que resiste. Mas até que ponto é possível resistir individualmente e não ser engolido pelo sistema? A mesma pergunta permeia o enredo de Cerca Elétrica, que discute do isolamento imposto pela violência urbana. 

Sem Deus Nem Lei esmiúça tensões entre mãe e filha, e traz à tona o debate, ainda longe de ser esgotado, sobre a legalização do aborto em caso de estupro. Laura Gutiérrez recorda, a respeito do próprio casamento, “o infinito prazer que sentiu ao saber que a partir daquele momento pertenceria a outrem, que a lei assim o estabelecia”. Mas ela não sabe quando nem como “a marginalidade” venceu e o feminismo emergiu, desestabilizando certezas que a ancoravam. Sem perder de vista o conflito geracional, o corpo feminino e as coerções que o atravessam são colocados em evidência.

O conto Doce Inimiga Minha foi escrito em 2004 para uma edição espanhola que reuniu diferentes autores em torno do Quixote de Cervantes. Nele, Serrano dá voz a Aldonza Lorenzo, lavradora corpulenta e sem atrativos convertida em Dulcineia del Toboso, musa eternizada pelo Cavaleiro da Triste Figura. “Minha língua me venera, e, se é certo que um dia um Deus criou a mulher a partir da costela do homem, também o é que meu nascimento pende das palavras de outro”, ela diz, orgulhosa por ter sido elevada ao status de rainha e ciente da descoincidência entre a identidade real e a inventada, idealizada pela imaginação de um delirante. 

Prosadora experiente, Marcela Serrano demonstra segurança e eficiência para dispor de uma série de problemas e perfis que desfilam por nossos dias. No entanto, em termos de linguagem e estilo, a uniformidade se impõe. Encerrada a leitura, pode-se oscilar entre a impressão de ter percorrido um conjunto que perde potência justamente pelo excesso de controle, pela predominância da voz da autora sobre as demais, e de ter estado diante de um volume irregular. 

Assim, a passagem de Milka para Irma ou Pascuala, mulheres, a princípio, tão distintas entre si, personagens de contos e enredos também distintos, soa um tanto monocórdica. Há exceções, como Charquinho de Água Turva, um dos textos mais complexos, repleto de memórias e sensorialidades, e 2 de Julho, protagonizado por um homem cujos “quarenta anos eram tão grisalhos como ele”, subordinado pelo desejo por corpos femininos, onde a mão da autora, talvez ainda hesitante, parece mais solta.

DOCE INIMIGA MINHA

Autora: Marcela Serrano

Trad.: Joana Angélica D’Avila Melo

Editora: Alfaguara (192 págs., R$ 25,90; R$ 19,90 o e-book)

Manoela Sawitzki é autora de Suíte Dama da Noite (Record)

Confira trechos do conto 2 de Julho:

"A manhã de 2 de julho poderia ter sido a indolente manhã de um domingo qualquer, na qual finalmente a cama iria adquirir um cunho diferente ao ultrapassar seu puro uso utilitário, um espaço no qual deitar-se de volta após o suculento desjejum preparado por Carmen Garza, ultrapassando a exatidão das avarentas seis horas dos dias de semana, demorando-se um pouco entre lençóis depois de saborear as gostosas panquecas de frango e creme, o café fresco em xícara generosa, a delícia dos pães doces concha e garibaldi, e, aproveitando a plenitude da estação, o açucarado sabor da manga manila. Talvez até ele pudesse convencer a mulher a acompanhá-lo, desde que se tivesse consumado sua pontual digestão, e obter um pouco de prazer matinal - preciso reunir forças, caralho: senão, de onde vou tirá-las - antes de enfrentar o conhecido dilema sobre o que fazer nos dias festivos para que ela se divirta, se o dinheiro é tão escasso e ela tão exigente e eu tão aborrecido. As discussões entre Carmen Garza e Pedro Ángel Reyes aos domingos eram tão previsíveis quanto a antecipação da segunda-feira evidente e ordenada: o tédio espreitando implacável, sem disfarce, escoando como uma rajada de ar tóxico pela abarrotada sala com seus móveis de pinho e pelúcia.”
(...) 
“Rasteira após rasteira, toda a vida de Pedro Ángel Reyes é como andar descalço quando cada passo devia ser dado com os pés cobertos, a dor de se ver quase mutilado porque os olhos dos seus colegas saltam sobre ele, para além dele, ignoram-no, ignoram-no e não deixam de ignorá-lo, esses pés desprotegidos, imóveis enquanto os outros avançam, esses pés retidos em sua nudez pela vergonha de que alguém os observe, de que apontem você, veja, lá vai aquele, sem sapatos. E quando hoje amanhecia, quando seu corpo emporcalhado lhe revelou na cama a necessidade do desejo, quando apoiou a cabeça no peito de Carmen Garza, esta o alfinetou: seu cabelo tem cheiro de rato.
Não deve tocar no gato, não deve tocar no sangue.
Hoje é o dia da vingança”

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