Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Marçal Aquino volta ao romance policial em 'Baixo Esplendor'

Romance conta com trama ambientada em 1973 no submundo do crime em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

16 de abril de 2021 | 20h00

O isolamento social devolveu ao escritor Marçal Aquino, de 63 anos, uma inesperada liberdade: a de se dedicar integralmente à literatura. “Há mais de um ano, não saio de casa e, nessa condição, consegui me dedicar a um novo livro como há muito não fazia – até mesmo acordar às 3 horas da manhã, com uma ideia na cabeça e retomar o trabalho, sem me preocupar com horário”, conta ele, cuja atribulada rotina (também é roteirista de cinema e TV) deixava sua agenda lotada e fragmentada.

O resultado de tal dedicação é um texto cativante e bem arquitetado de Baixo Esplendor, romance policial existencial lançado agora pela Companhia das Letras. Cativante porque traz como protagonista Miguel, cujas imperfeições demasiado humanas podem comprometer um plano da polícia na caça de uma quadrilha. E bem arquitetado porque, além de ser ambientado em um Brasil de 50 anos atrás (e é incrível como muitos detalhes não mudaram), a narrativa é pontilhada por idas e vindas no tempo, técnica que permite ao escritor controlar o fluxo de informações ao leitor, mantido sob constante curiosidade.

Miguel é o codinome adotado por um agente policial para se infiltrar em uma quadrilha que rouba cargas. O plano é conquistar a confiança do chefe do grupo, Ingo, e preparar uma emboscada que resulte na prisão do bando. O sucesso da empreitada vai favorecer politicamente o chefe de Miguel, o delegado Olsen, e especialmente o cunhado dele, o vice-governador que logo vai assumir o posto principal.

Miguel logo conquista a confiança de Ingo – mais que isso, atrai também a irmã dele, Nádia, com quem inicia um intenso relacionamento amoroso e sexual. Tão intenso que a cúpula da polícia chega a temer que tal paixão pode colocar tudo a perder. “Miguel é um personagem complexo, não o vejo apenas como um homem da lei”, comenta Marçal. “Ele é obrigado a criar uma persona para conviver com os contrabandistas, mas tem suas vaidades.”

A literatura, no entanto, especificamente a policial, ensina que não se foge de si mesmo. Não cabe aqui trazer detalhes sobre o resultado provocado pela dualidade de emoções sofrida por Miguel, algo que vai desaguar em um impactante final – não pela conclusão da história, mas pela habilidade com que foi construída por Marçal. “Escrevi o final antes mesmo de ter o resto do livro pronto. Com o desenrolar da trama, até criei um outro desenlace e pensei que 500 exemplares do livro poderiam conter essa resolução, como alternativa. Por fim, mantive o original, com alguns detalhes do outro.”

A escrita de um livro é o momento de liberdade máxima a que pode desfrutar um criador, acredita Marçal. “Roteiros para cinema e TV têm limitações, por conta desses veículos, mas em uma obra literária cabe tudo, não importa quão absurdo seja.” Nesse processo, ele conta que os personagens se impõem, criando muitas vezes o próprio destino. É um processo criativo tão forte que, quando estava próximo do ponto final do livro, Marçal publicou em sua conta no Twitter: “Hoje, almocei conversando com os personagens do livro que estou concluindo. Não há nada de louco nisso: é a última vez que estão todos vivos”.

“Minha única fronteira é a coerência”, explica ele que, no início do processo, notou algo curioso: nenhum dos personagens utilizava ferramentas modernas, como celulares recheados de aplicativos e redes sociais. Assim, foi fácil ambientar a história em 1973, o que é notado pela circulação de carros como Opala, Fusca e Gordini, além da constância do Exército nas ruas. “Foi um ano difícil, marcado pelo auge da violência da ditadura militar, com uma repressão absurda, mas também foi um grande ano para a música”, continua Marçal – de fato, foi quando artistas lançaram seus primeiros LPs, como Raul Seixas, Secos & Molhados, Luiz Melodia, Fagner, Sérgio Sampaio, Walter Franco, João Bosco e Gonzaguinha.

O factual político, porém, é apenas um pano de fundo para a trama e ajuda a ressaltar como o amor é subversivo – a relação entre Miguel e Nádia é pontuada por uma narrativa extremamente íntima, despudorada até, a sede de sexo se revelando em todos os seus detalhes. O que também é coerente, uma vez em que a casa habitada por Miguel é recheada de microfones escondidos, que captam não apenas as informações necessárias para a polícia, mas também a intimidade em toda sua extensão, o que o torna uma figura, digamos, popular na delegacia.

Marçal conta que romance tinha outro título, Nome de Guerra, mas que foi trocado em uma de suas conversas com o amigo e cineasta Beto Brant, com quem realizou adaptações da própria obra como Os Matadores (1997) e Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (2011) e até livros não terminados, como Ação entre Amigos (1998) e O Invasor (2001). “Ao ler o manuscrito, Beto percebeu que o nome de um dos capítulos é que deveria ser o título do livro e assim nasceu Baixo Esplendor, de fato, o melhor nome para a obra, que traz uma contradição que se aplica à história.”

Brant poderá ser o diretor da versão cinematográfica do livro – a Companhia das Letras recebeu duas propostas de produtoras antes mesmo do lançamento –, mas Marçal se preocupou primeiro em colocar a obra para o público. Desde 2005, quando saiu Eu Receberia..., Marçal não lançava um novo romance. O hiato foi grande, no entanto, porque, no meio do caminho, outras histórias foram engavetadas. É o caso de O Grande Circo Humano e Como se São Paulo Fosse um Bom Lugar, dos quais o autor perdeu o interesse ao longo do tempo.

O livro que esteve mais perto de ser publicado foi A Felicidade Genital, sátira ambientada no Brasil colonial. Ao notar, porém, que situações comuns naquela época seriam hoje vistas como racismo e misoginia, Marçal decidiu guardar os manuscritos. “Se fossem publicados, teriam que vir acompanhados de uma nota explicativa sobre a diferença entre as épocas, o que não vejo sentido.”

Os percalços, enfim, contribuíram, de alguma forma, para o vigor estilístico de Baixo Esplendor, obra que traz novo fôlego à literatura policial brasileira, tristemente desfalcada no ano passado com as mortes de mestres do gênero, como Luiz Alfredo Garcia-Roza e Rubem Fonseca. Em seu livro, Marçal resgata ainda seu tempo como repórter policial do Jornal da Tarde, no qual trabalhou entre 1986 e 1990 e que recebe uma singela homenagem nas páginas de Baixo Esplendor – mais especificamente na cena em que Miguel tem um encontro secreto com o delegado Olsen, quando percebe que o motorista do policial, Dirceu, está dentro da viatura, lendo a página esportiva do JT, tida como a melhor da imprensa brasileira durante vários anos.

Trecho de 'Baixo Esplendor'

Miguel e Nádia ficaram conversando apartados dos demais, enquanto ele comia e ela tomava uma caipirinha, a quarta da tarde – o apego de Nádia ao álcool causava apreensão em Ingo. Tinham perdido o pai cedo e, na condição de mais velho, ele assumira o papel de protetor da irmã. E ela bem que precisava. Ingo procurava ficar por perto, de olho. Já a livrara de algumas situações.

Nádia e Miguel descobriram afinidades – ou pelo menos ele afirmou coincidir em várias coisas que a agradavam, ainda que nem sempre fosse verdade. Miguel procurava manter a consciência do personagem que interpretava. Um caso de honestidade com a mentira.

Na realidade, eles eram muito diferentes, e talvez nisso resida parte da graça de tudo que aconteceu depois. Pouquíssima gente alocaria um tostão numa aposta sobre o futuro daqueles dois como una pareja. No entanto.

Ela adorava sair para dançar, ele só mexia o corpo se fosse para desviar de bala. Ele gostava de cães, ela dava preferência a gatos, embora nada tivesse contra os caninos. Ela apreciava a vida ao ar livre, ele levava uma rotina mais indoor. Ela ia a festas toda semana, ele, se pudesse, estaria num cinema. Ele era adepto da cerveja, um início de barriga entregava a predileção, ela estimava os destilados em geral, as caipirinhas em particular. Era raro ele se drogar, ela vivia aberta a experiências de alterações de estado de consciência. Ela havia desertado da escola de propaganda na metade do curso, arregaçado as mangas e ido trabalhar; ele concluíra a faculdade de direito antes de entrar na polícia, porém nunca chegou a advogar – nem possuía a carteira da OAB. Nádia não demonstrava grande amor pelos livros, pouco lia, e dava preferência a temas ligados à moda – ganhava a vida como sócia de uma butique de roupas finas na parte nobre da cidade; Miguel, ao contrário, lia bastante, aproveitava qualquer período ocioso para ler. Possuía uma biblioteca até que razoável em seu apartamento, com predomínio das novelas policiais, e era do que mais sentia falta na casa de fachada. Seus livros.

 

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