Tiago Queiroz/Estadão
Tiago Queiroz/Estadão

Mais famosa avenida de São Paulo, Paulista ganha novas livrarias

Com características diferentes, lojas têm a cara da região; conheça as principais

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2022 | 05h00
Atualizado 18 de abril de 2022 | 13h07

A placa de “aluga-se” finalmente foi retirada de um dos espaços mais emblemáticos da vida literária paulistana. Depois de abrigar a primeira loja da Livraria Cultura do Conjunto Nacional, que daria, anos depois, lugar a outros projetos da família Herz (o último, o de uma loja geek), o local, no saguão central, a poucos passos da última Cultura que resta ali, reabre as portas em breve com uma nova livraria: a Drummond.

Idealizada na pandemia por Vitor Tavares, 59 anos, sócio da Distribuidora Loyola e presidente da Câmara Brasileira do Livro, e pelos editores Pedro Almeida, 51, e Diego Drummond, 42, sócios na Faro, a nova livraria nasce com a ideia de ser diferente de todas as outras: ela quer ser a vitrine dos lançamentos das editoras. Parece uma ideia óbvia – livrarias vendem novidades –, mas não é. 

“Queremos ter cerca de cem novos livros de lançamento por semana. E queremos que as pessoas saibam que sempre que passarem por aqui vão encontrar o que de mais novo as editoras estão apresentando. Ela vai ser a livraria do passeio. Se não se chamasse Drummond, ela se chamaria Vitrine”, comenta Pedro Almeida, na frente da loja ainda vazia e diante do olhar curioso dos que passavam por ali perto da hora do almoço na terça, 12. 

Uma breve explicação sobre o nome. Nas últimas semanas, em suas idas e vindas ao Conjunto Nacional, Diego, que é filho da escritora Regina Drummond, sempre se via voltando à infância, aos dias que passava na livraria que a mãe teve na frente do colégio Dante, nos anos 1990. Seus dois sócios propuseram manter Livraria Drummond como uma homenagem – considerando também que, no país de Carlos Drummond de Andrade, este era um bom nome para uma livraria.

As obras começam nos próximos dias e devem levar três meses. A inauguração oficial é esperada para depois da Bienal do Livro de São Paulo (que será entre 2 e 10 de julho), possivelmente no início de agosto.

A nova loja terá 230 m² – 180 m² no térreo e outros 84 m² no mezanino. Vai ter um grande painel com imagens de escritores brasileiros, uma mesa para as sessões de autógrafos e estantes por todos os cantos. Diego até brinca que elas deveriam ter rodinhas, para serem viradas de acordo com a hora do dia, depois de Pedro comentar sobre o que significa estar na avenida mais movimentada de São Paulo: “O público da Paulista é muito diverso. De dia é o profissional que vem trabalhar; de noite, o morador que volta para casa; no fim de semana, as famílias e jovens que vêm passear. Então, é um público muito eclético”. 

Se o recorte da livraria não fosse tão específico (lançamentos), o desafio de compreender o cliente e suas demandas seria muito maior. “Vamos aceitar tudo o que o mercado faça e que o público queira, desde que seja novidade ou que continue vendendo”, explica Diego. Obras gerais, livros de ficção e não ficção, para crianças, jovens e adultos, para pessoas de esquerda, centro ou direita.

Falta de vitrine

Quem teve a ideia foi Vitor Tavares. À frente da CBL num dos momentos mais dramáticos de um setor que já vinha em recessão e sentia os efeitos causados pelas crises da Saraiva e da Cultura, ele se assustou com o número de livrarias fechando. Constatou que embora o e-commerce tenha mantido vivo o negócio enquanto as lojas estavam fechadas para conter a pandemia, ele não favorecia a descoberta de novidades. E começou a pensar que talvez fosse hora de empreender. 

“Vimos muitas livrarias em dificuldades, fechando as portas, e editores sem ter como mostrar seus lançamentos. E vimos a Vila, a Travessa e Leitura abrindo lojas. Tinha uma oportunidade aí. Tenho experiência no varejo, conversei com o Diego, que é vice-presidente da CBL, e o Pedro também se interessou. É um investimento alto, mas é um investimento pé no chão”, diz Vitor, que já sonha com uma segunda loja. “Calma, presidente”, brinca Diego. O investimento total é de R$ 2,5 milhões, eles contam – e dizem que esperam um equilíbrio nas contas em um ano e meio ou dois. 

A Drummond será vizinha da Cultura e as duas ficam quase na frente do Instituto Moreira Salles, que conta com a primeira loja da carioca Travessa em São Paulo – uma loja mais de nicho, com uma boa seleção de livros de fotografia e arte e alguns títulos na área de ciências humanas, literatura e uma pequena seleção infantil relacionada aos temas das mostras que ocorrem ali.

Cinéfilos

A Paulista tem quase 3 quilômetros de extensão e estima-se que por ali passa 1,5 milhão de pessoas diariamente. Caminhando mais para o meio dela, encontramos uma nova livraria, inaugurada discretamente em fevereiro, e com uma curadoria diferente das outras três que ficam para os lados da Consolação: a Livraria no Reserva. Instalada dentro do Reserva Cultural, no lugar da Blooks, que deixou o espaço na pandemia, ela é uma livraria para cinéfilos, que vende livros, filmes e camisetas e que vai, neste momento, apostar em obras de editoras independentes.

Com características diferentes, livrarias têm a cara da Paulista

O produtor cultural Vitor Daneu, 37 anos, era um frequentador fiel dos cinemas do Reserva Cultural, mas nunca imaginou que aquele viraria seu local de trabalho. Tudo começou a mudar quando ele caminhava na Paulista e viu o espaço vago. 

“Para abrir a Livraria no Reserva eu me coloquei no lugar de quem vem a esse lugar pela primeira vez depois de dois anos de recolhimento e apostei que as pessoas estariam curiosas de saber sobre política, crise ambiental e pandemia”, ele conta. Há uma boa variedade de obras com esses temas, além de títulos que dialogam com plantas, animais, novos mundos por vir, feminismo, etc. É possível encontrar livros de editoras grandes ali, mas são poucos. “Minha estratégia foi começar pelas independentes e privilegiá-las para fortalecê-las”, conta o livreiro, que já trabalhou em editora. 

A loja de Vitor está entre outras duas livrarias – a do Centro Cultural Fiesp, que vende obras da Sesi-SP Editora e Senai, e a Martins Fontes, que é hoje a principal da região, com três lojas no mesmo endereço e um saldão permanente, onde funcionava o auditório.

Quando Alexandre Martins Fontes assumiu a livraria da família em 2005, ela era secundária na Paulista. Não tinha como competir com a Cultura, com a Fnac. Mas ele fez seu trabalho. Insistiu, investiu, conquistou público. É uma livraria de novidades, como quer ser a Drummond, e é uma livraria de fundo de catálogo. 

“Fizemos muito para chegar aonde chegamos, mas a Avenida Paulista também é responsável por isso. Há muito potencial aqui. Reconheço que é essa localização, esse pedaço do Brasil, que permite que a Martins Fontes exista.”

Um pouco adiante, no Shopping Pátio Paulista, Samuel Seibel dá seguimento à expansão da sua Livraria da Vila. Está lá desde o ano passado e se diz feliz. “Sempre quisemos estar na Paulista e surgiu a possibilidade irmos para o shopping. É diferente de uma loja de rua, mas estamos muito satisfeitos com a experiência”, afirma. 

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