Sam Falk/The New York Times
Sam Falk/The New York Times

Mais de 160 caixas com obras do escritor Arthur Miller permanecem inacessíveis

Material está há décadas no depósito do Harry Ransom Center, na Universidade do Texas em Austin

Jennifer Schuessler, THE NEW YORK TIMES

15 Janeiro 2018 | 06h01

O lugar de Arthur Miller no panteão da literatura americana do século 20 está garantido. Já seus despojos literários continuam no limbo desde sua morte, em 2005.

Mais de 160 caixas de manuscritos e outros papéis de Miller estão há décadas no depósito do Harry Ransom Center, na Universidade do Texas em Austin, não catalogados e quase inacessíveis a estudiosos, à espera de uma venda ser formalizada. Outro lote - incluindo 8 mil páginas de diários pessoais - continua na casa do dramaturgo no interior de Connecticut, ao alcance apenas do círculo mais próximo de Miller.

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Agora, o Ransom Center comprou todo o arquivo por US$ 2,7 milhões, depois de uma discreta queda de baço com o espólio de Miller, que tentou levar os papéis para a Universidade Yale, apesar do aparente desejo do escritor de que eles permanecessem no Texas.

A batalha pôs em confronto duas das mais prestigiosas e abonadas instituições de arquivos do país, num minidrama que mescla altos princípios éticos de Miller e briga de rua. A disputa abriu também uma janela sobre o sofisticado comércio de acervos de escritores e a delicada dosagem de dinheiro, emoções e preocupações com a posteridade que determinam onde esses papéis descansarão em paz.

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O arquivo de Miller, que ocuparia uma linha contínua de cem metros de material, é sem dúvida rico. Ele documenta toda a carreira do escritor, incluindo o desenvolvimento de peças clássicas como A Morte de um Caixeiro Viajante e As Bruxas de Salem, além do conflito de Miller com o Comitê de Atividades Antiamericanas da Câmara e de sua atuação contra a censura.

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Há também material de cunho fortemente pessoal, incluindo antigas cartas de família e rascunhos de um ensaio sobre a morte de Marilyn Monroe, segunda mulher de Miller, iniciado no dia do enterro da atriz e revisado durante muitos anos, mas nunca publicado. O material mais valioso, porém, são provavelmente os diários, que abrangem mais de 70 anos e misturam com frequência fragmentos de obras em elaboração e reflexões íntimas de Miller.

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“Arthur escrevia sobre tudo em seus diários”, disse Julia Bolus, por muito tempo assessora do escritor e diretora do Fundo Arthur Miller, que está coeditando um volume de textos selecionados. “Eles são o lugar em que todos os elementos de sua vida se juntam.”

Esses diários estão inacessíveis a pesquisadores até depois de serem publicados, pela Penguin Press. Mas, uma vez liberados, “permitirão que conheçamos de modo mais completo e humano um de nossos maiores dramaturgos”, disse o diretor do Ransom Center, Stephen Enniss.

Os papéis de Miller cobrem o século 20 nos Estados Unidos e ocupam desde cadernos de papelaria a prints de computador. Mas sua jornada para o Texas também trouxe à luz um período de 60 anos de evolução do comércio de documentos de escritores, prática que passou de um negócio amigável e cavalheiresco para uma disputa duramente competitiva, com preços de assustar.

Miller começou seu relacionamento com o Ransom Center no início dos anos 1960, num momento em que a entidade, regada pelo dinheiro do petróleo, era o mais agressivo operador da área. Com problemas de dinheiro e devendo impostos, ele doou para o centro 13 caixas de material, incluindo manuscritos e cadernos de trabalho sobre peças que lhe deram fama - entre outras, A Morte de um Caixeiro Viajante , All My Sons e As Bruxas de Salém - em troca de isenção de impostos.

Em 1983, depois que um incêndio destruiu sua casa em Roxbury, Connecticut, Miller despachou mais 73 caixas para o Texas a fim de mantê-las em segurança. Numa carta que se encontra no Ransom Center, ele disse que gostaria de eventualmente formalizar a transferência, por venda ou por doação, caso a isenção de impostos fosse concedida. 

“Concordo plenamente com sua sugestão de que eu dê preferência (ao Ransom) seja qual for a decisão que tome sobre o arquivo”, escreveu ele ao livreiro de Manhattan Andreas Brown, que atuava como seu consultor de arquivo.

Em janeiro de 2005, poucas semanas antes de sua morte, aos 89 anos, Miller despachou por mar mais 89 caixas para o Ransom Center, sob cuja guarda já estão os papéis de Tennessee Williams, Lillian Hellman e Stella Adler.

“Ele sempre me disse que seus papéis iriam para o Texas, o único destino lógico”, disse o scholar britânico Christopher Bigsby, amigo de Miller de longa data que teve acesso ao arquivo do dramaturgo para escrever sua biografia de 2009.

Enniss disse que contatou o espólio em setembro de 2013, pouco depois de se tornar diretor do Ransom Center, para discutir a compra formal do arquivo. Meses depois, ele visitou a casa de Miller para inventariar os diários e outros materiais que lá estivessem. 

Em março de 2014, o Ransom Center fez o que considerou “uma boa e justa oferta”, mas o representante do espólio, a Agência Wylie, “nunca se empenhou verdadeiramente na negociação”.

Em 2015, três membros da Biblioteca Beinecke de Livros e Manuscritos raros, da Universidade Yale, visitou o Ransom Center para inspecionar a coleção. A Yale então ofereceu US$ 2,7 milhões pelo material em depósito, mais 70 caixas retidas pelo espólio. O Ransom Center cobriu o preço, que Ennis considerou “agressivo”, mas se recusou a ir mais alto, citando uma carta de Miller de 1983. “Deixamos claro que havia um compromisso legal que nos dava o direito de primazia”, disse ele.

Sarah Chalfant, da Agência Wylie, disse que o espólio havia tido com o Ransom Center “mais de um ano de negociações, em boa fé”. Ela não quis comentar a carta de Miller de 1983, mas disse que a família havia “revisto cuidadosamente as disposições testamentárias de Arthur sobre a matéria durante sua vida”. (O executor literário de Miller é sua filha Rebecca Miller, roteirista e diretora.) 

O espólio disse que levou “vários fatores em consideração” ao se aproximar de Yale, incluindo o fato de que Miller passara grande parte da vida em Connecticut e que a Biblioteca Beineck havia adquirido o arquivo da fotógrafa Inge Morath, terceira mulher de Miller, em 2014.

“No fim, decidimos manter o todo o arquivo no Harry Ransom Center, onde temos certeza de que será a melhor conservação possível”, declararam os encarregados do espólio. “Considerando-se que o Ransom Center já era dono dos primeiros manuscritos de peças doados diretamente por Miller, toda venda de documentos restantes a qualquer outra instituição iria contra o antigo princípio de que arquivos não devem ser desmembrados.”

O desmembramento “dificulta o trabalho de pesquisadores”, disse David Zeidberg, que se aposentou em dezembro após 21 anos como diretor da Biblioteca Huntington em San Marino, Califórnia, que abriga os arquivos de Octavia Butler, Hilary Mantel e Paul Theroux, entre outros autores contemporâneos. “Se alguém nos oferecesse papéis de um escritor, mas a maior parte de seu acervo encontrasse sob outros cuidados, tentaríamos convencer o ofertante a desistir.” / TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ 

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