Baptistão/Estadão
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Machado de Assis, 180 anos: Escritores indicam obras essenciais do Bruxo do Cosme Velho

Nos 180 anos do nascimento de Machado de Assis, autores brasileiros comentam seus livros preferidos e dois lançamentos avaliam a repercussão do Bruxo do Cosme Velho em seu tempo e nas últimas décadas

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

21 de junho de 2019 | 03h00

Um fundador – assim o crítico literário americano Harold Bloom classificou Machado de Assis, em sua obra Gênio – Os 100 Autores Mais Criativos da História da Literatura, lançada pela Objetiva em 2008. O escritor carioca, cujo aniversário de nascimento completa 180 anos nesta sexta-feira, 21, é colocado ao lado de outros nomes que Bloom considera decisivos para a evolução da escrita, como o francês Gustave Flaubert, o português Eça de Queirós, o argentino Jorge Luis Borges e o italiano Italo Calvino. Todos considerados por Bloom como “ironistas trágicos”.

Autor de vários títulos considerados essenciais, Machado de Assis ainda provoca comentários distintos, como indica a consulta feita pelo Estado com seis escritores, que apontam sua obra preferida (veja abaixo; e leia também uma análise de Milton Hatoum sobre o autor e sua obra). 

Mas, se hoje a fama de Machado como grande autor está consolidada, o mesmo não acontecia há algumas décadas, especialmente no período imediatamente posterior à sua morte, em 1908. Visto com desconfiança por alguns, ainda que exaltado por muitos, o bruxo do Cosme Velho dividia opiniões, como mostram dois livros recentemente lançados e que trazem justamente a visão que tinham seus colegas de ofício. Em Escritor por Escritor – Machado de Assis Segundo Seus Pares (Imprensa Oficial do Estado de São Paulo), os organizadores Hélio de Seixas Guimarães e Ieda Lebensztayn fazem um importante levantamento sobre o efeito machadiano na escrita nacional, de 1908 a 1939 – um segundo e oportuno volume cobrirá o período entre 1940 e 2008.

Guimarães organizou também o livro Escritos de Carlos Drummond de Andrade Sobre Machado de Assis (Três Estrelas), precioso levantamento que mostra como, ao longo de décadas, mudou a visão do poeta sobre o autor de Dom Casmurro, fruto principalmente de um amadurecimento intelectual.

“As opiniões dos escritores, de uma maneira geral, acompanham os grandes movimentos da percepção crítica coletiva que, de início, atribui a Machado um certo absenteísmo em relação às grandes questões sociais de seu tempo”, escreve Guimarães no prefácio de Escritor por Escritor. “Isso vem acompanhado da ênfase na dimensão humorístico-existencial da obra, no ‘escritor filosófico’ referido por (Olavo) Bilac, no perscrutador da alma humana, e também na observação recorrente sobre o que muitos, por muito tempo, consideraram desinteresse do escritor pela natureza e pelas descrições dos ambientes em que insere suas personagens.”

Guimarães cita a tropa de escritores, comandada por Euclides da Cunha, que se reuniu no dia da morte de Machado, lamentando o fato – nomes como Coelho Neto, Graça Aranha, Mário de Alencar, José Veríssimo, Raimundo Correia e Rodrigo Otávio. “Para o autor de Os Sertões, a morte de Machado de Assis deveria provocar uma grande comoção nacional.”

Entre os autores selecionados para a compilação, destaca-se Mário de Andrade. Influenciado pela determinação modernista de criticar os autores nacionais que mimetizavam os estrangeiros, o autor de Macunaíma é taxativo: “Ele coroa um tempo inteiro, mas a sua influência tem sido sempre negativa. Os que o imitam se entregam a um insulamento perigoso e se esgotam nos desamores da imobilidade”. Mas é em uma carta a Maurício Loureiro Gama que Mário revela seu dualismo: “Se adoro a obra de Machado de Assis como arte, pouco encontro nela como lição e simplesmente detesto o homem que ele foi”.

Mas o mais forte exemplo de amor/desprezo por Machado se revela em Carlos Drummond de Andrade. No livro dedicado a essa relação, Guimarães traz detalhes reveladores: o jovem Drummond é capaz de escrever, em 1925, que Machado é um “mestre de falsas lições, romancista tão curioso quanto monótono, ‘um entrave à obra de renovação cultural’”. Novamente, uma determinação dos modernistas de recusar o passado. Em 1958, porém, o mesmo Drummond publicou o poema A um Bruxo, Com Amor, uma das mais belas homenagens entre escritores brasileiros. Diz Guimarães: “Um único verso dá a medida do elogio: ‘Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro’”.

Os livros essenciais de Machado de Assis

Nélida Piñon

Machado de Assis confere grandeza ao Brasil. Seus textos, excedendo ao espírito de uma época, encarnam a identidade constitutiva do país. Enquanto sua poderosa estética acumula ambiguidades propícias a modernizar a sua versão da realidade. O romance Esaú e Jacó, que concentra algumas destas características, elege o Rio de Janeiro, onde passa a ação, como metáfora do Brasil. Por ele perpassa, de forma admirável, as crises políticas e econômicas que assolam um país prestes a sucumbir à transição de regime, da Monarquia para a República, sem qualquer escopo jurídico. E recorre, ao avançar pela aventura narrativa, ao uso de irradiações históricas com as quais interpretar a nação. Como a presença simbólica do Antigo e do Novo Testamento, a começar pelo próprio título do romance e dos personagens, os gêmeos Pedro e Paulo, da agudeza implacável do Eclesiastes. Ainda realçando as pugnas havidas entre o Brasil do litoral representado por uma elite voltada unicamente para os próprios interesses, e o Brasil do interior calcado pela miséria e pelo abandono. Uma narrativa, enfim, cujo alto teor criativo propicia densa reflexão sobre os fundamentos do País. 

Silviano Santiago

Não esperem fidelidade de um profissional das letras. Posso cair em contradição. Temos conhecimento da obra e, colocados contra a parede da pergunta, a lembrança se deixa enfeitiçar pelos encantos que determinado romance oferece na leitura de questões que afligem no momento. Opto por aconselhar Esaú e Jacó. Certamente, não é o mais original e perfeito dos romances machadianos. Em autor elusivo, é o romance mais bandeiroso, se me permitem a gíria, e o mais atual. A nação dividida. A incomunicabilidade, ou a briga, entre irmãos. A mulher em busca da própria afirmação e já superior aos amados. O enriquecimento fácil e duvidoso durante o encilhamento. A canalhice como razão do empreendedorismo. E assim por diante. Para a galeria dos grandes personagens da literatura brasileira, o romance entrega, além da sedutora e ambígua Flora, o misterioso e pouco estudado “irmão das almas”. Ao se transformar no capitalista Nóbrega, o pobre coletor de esmolas para a igreja busca a identidade social que não tem nem terá. Lembra filme clássico de Orson Welles, Grilhões do passado (no original, Mr. Arkadin). Também imperdível no momento.

Alberto Mussa

Meu livro preferido é Memórias Póstumas de Brás Cubas. É o romance em que o processo literário machadiano, a conversão da tragédia em ironia, se manifesta de forma mais radical. É também, dentre os romances dele, o que mais se aproxima das ruas, que melhor capta o sentido profundo da cidade. Não creio que haja, na segunda metade do século 19, obra simultaneamente tão original, tão terrível e tão divertida.

Eva Furnari

O livro de Machado de Assis que mais aprecio é o Memórias Póstumas de Brás Cubas. O livro é ao mesmo tempo leve e profundo com um olhar agudo sobre a sociedade de seu tempo, sobre as contradições e idiossincrasias da elite carioca do século 19, sem deixar de observar o espírito humano individual. Um dos sabores do livro é justamente esse encontro de dois universos, o individual e o coletivo, na narrativa de um homem tão mesquinho quanto entediado. É uma leitura que pede concentração, mas que vale, pois trata-se de uma obra prima atemporal uma vez que fala de algo que todos compartilhamos, a experiência de existir em forma humana.

Pedro Bandeira

Para mim, dentre minhas paixões, ao lado de Dom Quixote, Hamlet ou Otelo, habita Dom Casmurro. Seguindo os passos de Shakespeare, esse bruxo demonstra toda a sua habilidade ao narrar em primeira pessoa revelando que qualquer personagem deve falar obedecendo suas próprias opiniões. Bentinho é profundamente conquistado por Capitu mas, como tem uma personalidade frágil e tímida, engole também, inteiras e sem tempero, as observações maldosas de José Dias acerca da menina, dessa forma aos poucos envenenando sua avaliação sobre o caráter de Capitu, tal como faz Shakespeare em Otelo, ao fazer Iago envenenar Otelo com suas mentiras sobre Desdêmona. Uma leitura atenta do livro defenderá meu argumento: todas as ilações maldosas acerca da honestidade de Capitu são ditas e repetidas por José Dias, até transformarem-se em verdades na mente fraca de Bentinho. Por isso, brigo com todo mundo que acusa Capitu de adúltera – Machado foi maior do que um simples autor que narra uma história óbvia; ele joga todos os dados na mesa verde e cabe a nos contar as marquinhas pretas de cada face. Para mim, várias leituras dessa obra comprovaram que Capitu é forte demais; se ela decidisse cornear Bentinho o faria claramente, nunca à sorrelfa.

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