Maringas Maciel/Divulgação
Maringas Maciel/Divulgação

Luís Henrique Pellanda volta à ficção com os contos densos de ‘A Fada Sem Cabeça'

Depois de consolidar-se como cronista, autor curitibano reúne textos ficcionais para lançar sua obra nesta terça (18)

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

17 Setembro 2018 | 06h00
Atualizado 17 Setembro 2018 | 08h58

Nove anos depois da sua estreia na ficção, o escritor curitibano Luís Henrique Pellanda volta aos contos com A Fada Sem Cabeça, reunião de textos ficcionais que a Arquipélago Editorial bota agora nas livrarias. Nesse meio tempo, Pellanda consolidou sua própria evolução como cronista, com três livros de crônicas (com destaque para Detetive à Deriva, de 2016) e uma presença constante nas listas de finalistas dos grandes prêmios literários brasileiros, mesmo “defendendo” o gênero comumente menos prestigiado. 

Essas duas facetas, de ficcionista e cronista, explica o escritor, guardam uma relação curiosa e que com a epígrafe do novo livro ganha uma sugestão interpretativa interessante: “Minhas duas naturezas tinham em comum a memória”, diz o Dr. Jekyll, a face humana o monstro na história de Stevenson.

A Fada Sem Cabeça tem lançamento nesta terça-feira, 18, com a presença do autor, na Blooks do Shopping Frei Caneca (Rua Frei Caneca, 569), às 19h.

Pellanda explica que observa diferenças entre os dois gêneros, mas sem distinção hierárquica. “A crônica costuma ser produzida da noite para o dia, e para a publicação imediata, exigindo do cronista certas habilidades de improviso, que o aproximam do músico de jazz, do repentista, do palhaço de rua. Assim, não há tempo para correções: a crônica é um prato servido quente. Quando narrada em primeira pessoa, ela transforma o autor em personagem quase real, e até mesmo o expõe, fazendo com que assuma a total responsabilidade pelo que conta e defende em seu texto. No conto, por outro lado, o relógio está a nosso favor, e os disfarces, à nossa disposição. Pode-se, com calma, elaborar vozes variadas, submetê-las a longas temporadas na gaveta, criar situações e cenários desligados da realidade direta do leitor, sem a necessidade de se justificar por isso”, diz, por e-mail. 

Os contos do livro foram escritos ao longo dos últimos anos, mas todos repaginados para esta edição. Em um deles, um casal recém apaixonado encontra centenas de animais mortos na beira da praia; em outro, um rapaz entra desavisado num boteco em busca de cigarros e se depara com dois homens que “dançavam juntos, atropelando cadeiras, presos a um abraço firme, e sua força parecia vir de um lugar úmido e obscuro entre o carinho e o desespero”; em outro conto, um anjo assusta os fiéis na catedral.

Com contextos tão diversos, é arriscado apontar uma linha temática comum entre os escritos. Ao mesmo tempo, é inevitável não detectar uma discussão atualizada da masculinidade. Uns mais e outros menos, os narradores constantemente se veem frente a frente com desafios dessa natureza (sexualidade, paternidade, laços de amizade, numa “ópera máscula”, para usar uma expressão de um dos narradores). Mas num discurso que busca fugir dos clichês. “A testosterona, sob certo ponto de vista, pode agir como um veneno, e acredito que precisamos aprender a controlar a sua toxicidade através da educação, do debate ético, da estrita observação da civilidade”, diz o escritor.

Pellanda concorda que os personagens, muitas vezes cruéis ou amorais, acreditam na possibilidade de uma expiação. “Nossa cultura valoriza muito a ideia do perdão, e por isso todos esperam ser perdoados (perdoando-se a si próprios de antemão), embora não queiram ser corrigidos e resistam a mudanças. Além disso, o fato de tudo ser perdoável enfraquece a noção geral de ofensa. Escrevo sobre o tema para analisá-lo, compreendê-lo melhor. Escrever não redime ninguém. Ninguém se torna santo ao escrever sobre pecadores.”

Outra seção do livro – ilustrada com o uso de um azul noturno nas páginas centrais – apresenta uma série de fábulas de atmosfera onírica. Numa delas, um lobo é chamado para o rebanho de ovelhas pelo próprio pastor que as conduzia. Em outro, um pequinês e uma peruca desenvolvem uma vida secreta, juntos. No texto que dá título ao livro, a fada do dente aparece sem cabeça, e quando questionada, pela criança, quem a havia cortado, responde certeira: “Pergunte ao seu pai”.

“Mesmo nossa percepção da vida que com razão chamamos de ‘real’ não é exclusivamente ‘realista’”, diz Pellanda. “Nossa leitura do mundo sempre violará essas fronteiras. Meu modo de escrever acaba refletindo isso, esse desejo de violação.” 

Ainda falando sobre uma leitura do mundo, o escritor oferece uma definição cândida de como a literatura – qualquer literatura – pode se relacionar com um país num ambiente conturbado política e socialmente: “Talvez seja (possível escrever sem pensar nisso), mas só se você estiver muito distraído, ou então reprimir muito bem suas ansiedades, frustrações e esperanças. De todo modo, repressão nunca é sintoma de saúde. E nem falo sobre a literatura diretamente engajada, falo de qualquer literatura que mereça este nome. O que você escreve ou deixa de escrever reflete uma escolha, que espelha suas opções políticas. Disso se depreende que um escritor desatento, indiferente à sua época, ao seu país e aos seus contemporâneos, será no máximo uma antena quebrada.”

A FADA SEM CABEÇA

Autor: Luís Henrique Pellanda

Editora: Arquipélago (176 págs., R$39,90)

Lançamento: Terça, 18, às 19h, na Blooks (R. Frei Caneca, 569)

Trecho:

“Lá dentro, quatro homens se espalhavam, três fregueses e o cara do caixa, todos de quarenta para cima. Ouviam música, um bolero sertanejo que não reconheci, mas aprovei, cantado por uma dupla afinada, de vozes ásperas e muito finas.

Falei que ouviam música, mas não era bem assim. Na verdade, dançavam, transidos de amor, e por isso nem me viram chegar. Me escorei no balcão, fascinado, sabendo que não devia interrompê-los, ao menos até o fim daquela canção.

O cara do caixa dançava sozinho, espremendo os olhos, um pano de prato lançado ao ombro nu, a alça da regata frouxa, caída de lado. Jogava o corpo lateralmente, pra lá e pra cá, uma das mãos pousada sobre o toca-fitas à sua frente. A cada dúzia de compassos, alucinado, aumentava o volume.

Dois outros homens, gordos e suados, dançavam juntos, atropelando cadeiras, presos a um abraço firme, e sua força parecia vir de um lugar úmido e obscuro entre o carinho e o desespero.”

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