Silvana Garzaro/ESTADÃO
Silvana Garzaro/ESTADÃO

Luciano Huck reúne em livro conversas que manteve sobre o mundo em pandemia

‘De Porta em Porta’, com algumas das reflexões publicadas antes no ‘Estadão’, inspira a entrevista que o apresentador dará nesta quinta, 19, ao menino Adriel Bispo; leia um trecho do livro

O Estado de S.Paulo, O Estado de S.Paulo

19 de agosto de 2021 | 05h00

“Até os sete anos, Carlos Jorge passou grande parte dos dias acorrentado ao pé da cama. Nada de circular pelas vielas da Quadra 12, favela localizada na região de Vergel do Lago, na periferia de Maceió, capital de Alagoas. Um ano antes, seu pai, alcoólatra, havia deixado a casa. A mãe passou a sustentar a família sozinha, trabalhando como empregada doméstica, o que a obrigava a deixar o menino aos cuidados de um tio. Pela manhã, Carlos Jorge frequentava a escola pública. Mas, em casa, de tarde, seu mundo era o quarto – e o cadeado. A situação, dantesca, era imposta pelo tio como uma espécie de fórmula para evitar que o garoto se envolvesse com a criminalidade da vizinhança. 

Quando Carlos Jorge tinha nove anos, sua mãe se juntou com um companheiro. E o que parecia impossível aconteceu: tudo piorou, com surras e abusos frequentes. "Então, comecei a delinquir, a roubar", ele contou. Carlos Jorge acredita que teria continuado naquele caminho, não fosse o esforço sobre-humano de sua vizinha, uma senhora com nome de santa, Maria Madalena. “Ela me resgatou. Eu dava muito trabalho, e quanto mais eu dava trabalho mais ela me incentivava, mais investia em mim. Eu fui vencido pelo constrangimento, porque a vida dela era um exemplo vivo de perseverança e resiliência”, ele contou em uma entrevista recente. 

Aos dezessete anos, com a morte de dona Maria Madalena, Carlos Jorge se viu no dever de participar cada vez mais de projetos sociais – era uma forma de dar continuidade ao legado de dona Maria, fazendo pelos outros o que ela havia feito por ele. Dez anos depois, já casado, pediu demissão de uma firma onde trabalhava como motoboy, juntou os trocados da rescisão e perguntou a sua esposa, quando chegou em casa: “Amor, vamos mudar o mundo?”.

Eram onze horas da manhã de um dia no final de fevereiro de 2020, e eu caminhava pela favela do Mundaú com Carlos Jorge, seis anos depois de sua decisão de mudar o mundo. A covid-19 começava a se espalhar para além do território chinês, mas no Brasil a ideia de uma pandemia ainda parecia um pouco distante. Carlos falava de sua ONG, a Mandaver, que atendia 150 crianças por dia em uma casa bonita, bem cuidada, repleta de planilhas nas paredes, onde ele consegue visualizar o impacto de cada real investido. Além disso, contou de sua parceria com as escolas públicas da região, que havia quadruplicado o número de alunos matriculados. 

Mas a excelência da ONG contrastava de maneira gritante com o entorno. Enquanto caminhávamos, Carlos Jorge ia me mostrando as vielas, ladeadas de casebres muito pobres, sem água ou esgoto, feitos no improviso com tábuas de com pensado e telhas de alumínio. Meu único registro de algo semelhante remetia à visita que havia feito anos antes à Cité Soleil, a maior favela de Porto Príncipe, capital do Haiti. Na época, saí de lá convencido de que a humanidade não havia dado certo. Como era possível que pessoas vivessem naquela condição tão precária, a meros quarenta minutos de voo dos Estados Unidos, o país mais rico do mundo? Como era possível, em pleno século 21, com tanta gente conectada e tanta informação disponível, que uma pequena distância geográfica continuasse sendo tão determinante no destino que teria a vida de cada pessoa? Pois aquele gosto amargo ameaçava se repetir, dessa vez no Brasil, em casa. 

As favelas na região de Vergel do Lago (Mundaú, Sururu de Capote, Torre, Peixe e Muvuca) deveriam ser visitadas por todos, principalmente pela elite inerte do País. A maior parte da comunidade vive da cadeia produtiva do sururu, um tipo de marisco. Trabalho duro, que rende míseros cinquenta centavos de real por quilo. A situação, já suficientemente dramática, se agravaria ainda mais dali a algumas semanas, com a chegada da pandemia ao Brasil. Hotéis à míngua e restaurantes fechados fizeram despencar o consumo do sururu: de súbito, quase todos os 7 mil moradores da região perderam sua fonte de renda. Recebi relatos de fome e desespero. 

Foi necessária uma pandemia avassaladora para levar a situação de carência crônica das favelas às primeiras páginas dos jornais. A falta de estrutura básica e de uma mínima qualidade de vida em Vergel do Lago está longe de ser uma exclusividade alagoana. Esse tipo de exclusão cruel está presente em todos os estados brasileiros. Sem exceção. 

Está cada vez mais evidente que a organização urbana terá de se transformar. Que a dinâmica da vida que nos trouxe até aqui não será mais a mesma, e que essa transformação passará pela ressignificação das cidades. Favelas são lugares de pessoas extremamente fortes, batalhadoras, resilientes, mas não é possível mais romantizar essa realidade. Não é possível construir um país justo enquanto tanta gente continua mergulhada numa situação de tamanha desigualdade. 

O economista francês Thomas Piketty tornou-se um dos pensadores mais lidos do presente com a publicação de O Capital no Século XXI, lançado em 2013. Partindo de uma fórmula simples, Piketty constatou que, sem mudanças políticas, não há nem haverá como escaparmos do aumento da desigualdade, visto que a renda sobre o capital avança em ritmo mais acelerado do que o crescimento econômico. Exemplo didático: Jeff Bezos, dono da Amazon, ampliou sua fortuna para 188 bilhões de dólares durante a pandemia, enquanto o mundo mergulhava em um empobrecimento de escala planetária.

Para Piketty, não é possível pensar em um futuro mais próspero sem revermos as ações do Estado. E, no Brasil, há muito o que ser revisto, a começar pela questão tributária. O Brasil é hoje desigual demais para conseguir se desenvolver. Um dos motivos é a maneira como recolhemos impostos no País. Enquanto os tributos indiretos costumam ser bastante elevados – chegando a 20% ou 30% das nossas contas de luz, por exemplo –, os impostos sobre a circulação de capital são baixos, de 4% a 8% nos casos de transferências de heranças. Em alguns dos países mais ricos do mundo, como Estados Unidos, Inglaterra e França, ocorre justamente o contrário: as pessoas pagam menos impostos na conta de eletricidade e mais impostos sobre altas quantias de dinheiro.

Uma das relações mais construtivas, uma das peças mais importantes nesse projeto de cidadania ativa que venho exercitando nos últimos oito anos, é com o economista Arminio Fraga, que presidiu o Banco Central durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Sinto que minha experiência rondando o Brasil e a visão de mundo de Arminio geram um ciclo virtuoso quando se cruzam. Falando mais especificamente, sinto que as desigualdades que encontro País afora encontram soluções nas teorias econômicas dele.

Por quê? Porque temos um denominador comum: querer construir uma sociedade mais justa, que diminua as desigualdades para gerar riqueza, e não uma sociedade que gere riqueza sem redução das desigualdades. Arminio não é daqueles economistas que só fazem contas; é um pensador e um humanista, alguém que faz contas para cuidar de pessoas. Ele sabe que responsabilidade fiscal não pode significar irresponsabilidade social e que não podemos brincar com a esperança das pessoas. Um país é no fundo uma enorme família; seu orçamento precisa ser tratado com a seriedade com que tratamos do orçamento familiar. 

Meu primeiro encontro com Arminio foi durante um almoço em seu escritório, no Rio de Janeiro, em uma mesa repleta de potinhos, com a comida que, religiosamente, ele traz pronta de casa. Hoje, além de um amigo sensível, tenho nele um parceiro de boas ideias e de sonhos em comum, alguém com uma legítima vocação pública para arquitetar um projeto de país mais eficiente, mas também mais afetivo. Foi ele, inclusive, a primeira pessoa com quem conversei quando soube que Piketty seria meu entrevistado. Mesmo discordando de boa parte das teses de Piketty, Arminio reconhece a importância de seu trabalho. 

“Precisamos de um sistema tributário mais igualitário, com mais justiça fiscal, aumentando os impostos dos bilionários, dos milionários. O imposto de renda é importante, mas os impostos sobre as fortunas são ainda mais”, disse-me Piketty em setembro de 2020. “Defendo que haja um imposto compulsório sobre as fortunas. Porque o que acontece no topo da pirâmide social é que algumas pessoas concentram sua riqueza em empresas, sem caracterizá-la como renda – e assim não são devidamente taxadas.” O resultado, perverso, é que os endinheirados aumentam suas fortunas muito mais rápido do que a média das pessoas. 

Para remediar essa situação, Piketty considera justo cobrar mais de quem tem mais dinheiro. “Tudo bem existirem pessoas ricas e pobres, contanto que a diferença não seja muito grande e que todos consigam crescer na mesma velocidade. Se você olhar para dez anos atrás, as maiores fortunas eram de 30, 40 bilhões de dólares. Hoje, elas são de 100, 150 ou quase 200 bilhões. E a economia norte-americana não cresceu nessa mesma velocidade.”

O que os bilionários precisam aprender, diz Piketty, é que não se conquista nada sozinho: todas as coisas boas que acontecem no mundo são frutos de um conhecimento coletivo. Bill Gates não fundou seu império do nada, trabalhando só ou com poucos amigos em uma garagem. Para que isso ocorresse, existiram milhares de cientistas da computação, técnicos e pesquisadores que deram os passos iniciais, no passado, permitindo que um sistema operacional como o Microsoft Windows pudesse existir exatamente na época de Gates. O conhecimento científico é cumulativo. Sem esse estoque de conhecimento comum, cultivado pela humanidade por centenas de anos, nada seria possível. A riqueza não é um passe de mágica que surge do nada, das mãos de um único indivíduo. 

Piketty acredita que o mundo caminhou demais na direção do hipercapitalismo – um modelo que gerou riquezas e avanços, mas que precisa ser substituído por outras alternativas econômicas. Concordo com ele. Algumas das personalidades mais admiradas das últimas décadas, como Steve Jobs e Elon Musk, foram empreendedores capazes de construir empresas bilionárias que impactaram o cotidiano de bilhões de pessoas no mundo. Mas acredito que as cabeças mais admiradas das próximas décadas terão um perfil distinto – serão aquelas cabeças que consigam repensar o capitalismo, diminuir as desigualdades, solucionar a pobreza extrema. Hoje, temos 1% da população controlando 50% da renda mundial. Não é viável.

“O nosso sistema capitalista atual está danificando o planeta, criando muita desigualdade. Precisamos pensar em uma nova forma de socialismo, muito mais descentralizada, participativa, democrática, federal”, explicou Piketty. “As pessoas da geração da Guerra Fria ou eram tentadas a ser comunistas ou eram muito anticomunistas. Acho que temos que reabrir a discussão. E acho que o crescimento das políticas identitárias é uma consequência de termos encerrado as discussões econômicas.” Ele aprofundou sua tese: “Se você diz para as pessoas que há apenas uma forma de política econômica e que os governos não podem fazer nada além de controlar suas fronteiras e suas identidades, não espanta que, vinte anos depois, as pessoas só falem do controle de fronteiras e da proteção de identidade. Nós precisamos retomar a discussão econômica. Precisamos refletir sobre os desastres do século 20 e partir para um novo século”. 

Em Capital e Ideologia, publicado em 2020, Piketty propõe a criação de um sistema de herança comunitária, por assim dizer, onde todos receberiam um valor mínimo, em uma única parcela, ao completar 25 anos. A tese dele é que a prosperidade de um país decorre de três fatores: a diminuição da desigualdade, um sistema educacional mais inclusivo e a distribuição de renda. Essa poderia ser uma das maneiras de o Brasil começar a reparar as consequências nefastas, tanto econômicas quanto sociais, do período escravocrata.

Há muita coisa que o Estado pode fazer para a diminuição da desigualdade no Brasil. O Centro de Debates de Políticas Públicas, uma organização sem fins lucrativos, publicou um estudo em 2020, coordenado pelo pesquisador Vinícius Botelho, da Fundação Getúlio Vargas, argumentando que é possível reduzir de 11% a 24% da pobreza apenas redesenhando a estrutura de benefícios do governo federal, sem nenhum orçamento adicional. Para isso seria necessário fazer um redesenho dos programas sociais, com a fusão do Bolsa Família com o salário-família, o abono salarial e o seguro-desemprego, por exemplo. Isso geraria uma eliminação de redundâncias, por um lado. Por outro lado, poderia resultar em um aporte maior, milimetricamente direcionado, apenas com o uso inteligente da nossa base de dados. Se João precisa de 217 reais para não cair na linha da pobreza, João vai ganhar 217 reais. Se Maria precisa de 359 reais, Maria vai ganhar – e assim por diante, com grande parte da população. Imagine como o nosso País já melhoraria com essa medida.

Durante a pandemia, em 2020, o Congresso Nacional aprovou um importante programa de auxílio emergencial, que deu de seiscentos a 1200 reais a 64 milhões de pessoas, de forma a impedir que elas despencassem na miséria. Foi um programa necessário, que evitou o caos social. Num cenário ideal, um programa como esse deveria existir de forma ininterrupta. No cenário real, de teto de gastos e rombo nas contas públicas, esse prazo estendido é inviável – a menos que o programa seja extremamente bem planejado, fundamentado e executado. Para entender melhor como isso poderia ser feito, fui conversar com outro pensador estrangeiro, o historiador holandês Rutger Bregman. 

Com 33 anos, Bregman integra uma nova onda de ativistas globais que inclui a congressista democrata americana Alexandria Ocasio-Cortez e a ambientalista sueca Greta Thunberg. Ele cresceu naquele momento de transição dos milênios, no qual grandes batalhas ideológicas eram consideradas ultrapassadas e sepultadas, o que parecia prenunciar um futuro de prosperidade. Durante meu isolamento, li seu último livro, Utopia para Realistas, uma obra que se dispõe a discutir a construção de um mundo melhor usando a utopia como ferramenta. “Estamos vivendo numa era em que profecias bíblicas estão se tornando realidade”, ele escreveu no livro. “O que teria parecido milagroso na Idade Média agora é normal: cegos que voltam a enxergar, aleijados que podem andar e mortos que voltam a viver.” (No caso dos mortos, ele está falando de animais extintos trazidos de volta à vida por obra da manipulação de DNA). Era a visão de um otimista. Por isso comecei nosso papo perguntando se a pandemia havia mudado a visão dele sobre o futuro.

“Nos últimos quarenta anos, vivemos a era neoliberal”, respondeu Bregman, referindo-se à corrente econômica que nasceu em meados dos anos 1950 e que teve como gurus os economistas Milton Friedman e Friedrich von Hayek. Liberais ortodoxos, Friedman e Hayek acreditavam que o mercado poderia resolver tudo e que as empresas privadas poderiam salvar tudo desde que o governo saísse da frente, abolindo regras e diminuindo impostos. Nessa visão utópica, todos ganhariam, o que acabaria contribuindo, de forma indireta, para a redução da desigualdade. A teoria teve uma influência imensa nos anos 1970 e 1980, quando Ronald Reagan foi eleito presidente nos Estados Unidos e Margaret Thatcher tornou-se primeira-ministra do Reino Unido.

Bregman nasceu em 1988, um ano antes da queda do Muro de Berlim, que marcou o fim da Guerra Fria entre Estados Unidos e União Soviética. “Depois da queda do Muro, as pessoas tinham essa ideia de que havíamos chegado ao ‘fim da história’, de que o comunismo havia perdido, de que esse modelo de capitalismo democrático era o único viável, de que os grandes problemas políticos estavam resolvidos. Obviamente é muito difícil acreditar nisso em 2020, quando vimos uma pandemia mudar completamente nosso mundo”, disse. Hoje, Bregman acredita que a era neoliberal está chegando ao fim. “A era antiga girava em torno dos valores da competição e do individualismo, da noção de que as pessoas são fundamentalmente egoístas. Mas agora estamos caminhando para algo diferente, que pode ser muito pior, mas também muito melhor.” Ele mencionou um texto publicado em 2020 pelo Financial Times, o principal jornal de negócios do mundo. “O Financial Times é um jornal para pessoas ricas, e mesmo assim publicou um artigo, assinado por seu conselho editorial, dizendo que é preciso ‘reverter a direção das políticas dos últimos quarenta anos’ e aumentar os impostos dos ricos.” O texto também rechaçava o conceito conhecido como “mão invisível”, dizendo que o governo deveria ter um papel mais ativo, com políticas mais arrojadas para estimular a inovação, combater a mudança climática e erradicar a pobreza. “Não estou dizendo que isso vai acontecer, mas acho que existe a esperança”, prosseguiu Bregman. “Essas ideias eram antes totalmente descartadas por serem consideradas ridículas, às vezes até bizarras; hoje voltam às páginas mais importantes dos jornais. É um indício de esperança.” 

Dentre as ideias que Bregman diz que eram antes descartadas como ridículas e bizarras, mas que ganharam destaque recentemente, está a de uma renda básica para a população. Programas dessa natureza foram implementados de forma emergencial em diversos países desde o início da pandemia. Eu quis saber dele, um estudioso do tema, em que pé estão hoje essas discussões. 

“Há esse debate antiquado entre pessoas de direita e de esquerda, no qual as pessoas à esquerda dizem ‘nós precisamos ajudar os pobres, dar dinheiro a eles’, e as pessoas à direita dizem que ‘não, pois isso torna as pessoas dependentes e preguiçosas, além de ser insustentável a longo prazo’. Esse é o debate padrão que geralmente vemos na política. Acho que devemos enxergar além disso. A renda básica, na verdade, é um investimento que paga a si mesmo”, disse Bregman. “Se você é um empreendedor, certamente sabe que, para ficar rico no futuro, deve começar a fazer investimentos agora. Temos muitas evidências científicas de que dar às pessoas os meios para tomarem as próprias decisões raramente resulta em desperdício de dinheiro. A maioria dos pobres gasta seu dinheiro em moradia, educação, roupas, nas necessidades básicas. E, com o básico à mesa, você vê as crianças indo melhor na escola, a evasão diminuindo, a criminalidade caindo, o que leva a uma queda nos custos com polícia, assistência médica emergencial e sistema judiciário. Se uma criança vai melhor na escola, ela vai conseguir um emprego melhor; e, se tiver um emprego melhor, vai pagar mais impostos. Logo, isso é um investimento que dá retorno. Se as pessoas são mais saudáveis, elas podem trabalhar por mais tempo e pagar impostos por mais tempo.”

É por isso que a renda básica não é algo de direita ou de esquerda, é apenas algo necessário, que precisa acontecer. Estudos divulgados em 2018 pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a OCDE, e em 2020 pelo Fórum Econômico Mundial indicam que as famílias pobres brasileiras precisam de nove gerações para ascender ao padrão médio de renda em nosso País. É por dados como esse que Bregman defende a necessidade de se criar não apenas uma renda básica, mas uma renda básica universal, capaz de erradicar completamente a pobreza e de dar a todos um pouco de capital de risco para que as pessoas tenham mais chance de fazer suas escolhas (em termos bem resumidos, uma renda básica universal é algo parecido com o Bolsa Família, com um valor fixo de ajuda, só que ampliado a toda a população; já a renda básica é um passo além, e mais direcionado, em que nem todos ganham ajuda governamental – já que nem todos precisam –, mas que garante que todos vivam com um mínimo de dignidade). 

Bregman defende que os governos deem ao cidadão algum tipo de capital inicial de giro, seja simbólico (através da educação) ou financeiro (através de uma renda básica): “Todo empreendedor precisa de capital, de algo para começar, para que possa investir e buscar um retorno para esse investimento. É daí que devemos partir”. Ele contou que no Vale do Silício, polo global de tecnologia e inovação na Califórnia, esse dinheiro é chamado de “capital do dane-se”. “É o dinheiro que você precisa ter na sua conta para poder dizer não, para que possa se demitir. O poder de dizer não é a liberdade mais importante que uma pessoa pode ter. Bilhões de pessoas no mundo não têm esse poder, pois são dependentes de seus empregos ruins, das pessoas do topo. Eu quero viver em um mundo onde todos tenham um ‘capital do dane-se’, onde todos tenham o poder de dizer não e possam se mudar para outra cidade, para outra empresa ou até abrir uma empresa própria. As pessoas precisam ter a chance de correr riscos.” É aí que entra a necessidade de uma renda básica. “Obviamente, não é algo que vá propiciar a ninguém uma vida luxuosa, e sim algo capaz de prover o suficiente para as necessidades básicas: roupa, comida, saúde, abrigo, educação para os filhos. Uma sociedade assim seria muito mais inovadora.” 

Qual seria a maneira mais eficiente de erradicar a pobreza? Seriam os programas de transferência direta de recursos ou os programas de benefícios sociais? Por exemplo, para a população em situação de rua, é melhor dar dinheiro para que a pessoa alugue um lugar para morar ou criar albergues de acolhimento com serviços sociais? 

“Quando você vir uma pessoa desabrigada na rua, pense que essa pessoa, em outro mundo, poderia ser sua advogada, sua professora, sua enfermeira”, ele respondeu, num bonito exercício de imaginação. “O que é a pobreza? Pobreza é a falta de dinheiro. Como você resolve isso? Você dá dinheiro às pessoas. Isso funciona? Sim, temos muitas evidências disso. Podemos pagar por isso? Sim, podemos, porque não fazer nada a respeito da pobreza é muito mais caro. Os países com mais pobreza são prósperos, estão indo bem? Não, claro que não. Quais são os países mais inovadores, com os maiores índices de desenvolvimento humano?” Bregman citou o exemplo dos países da Escandinávia – Noruega, Suécia e Dinamarca –, onde todos têm direito a um forte Estado de bem-estar social, que provê educação e saúde de qualidade. “Esse modelo fornece uma sociedade mais eficiente e civilizada, onde todos se beneficiam, inclusive os ricos.” Para Bregman, as pessoas devem ser mais críticas quando ouvirem economistas, jornalistas e políticos afirmando que o crescimento econômico é a coisa mais importante do mundo. A questão é: crescimento do quê? O PIB não mede todos os fatores. Um exemplo: um país aumenta sua produção industrial, o que pode levar a um aumento do PIB. Mas essa produção tem uma consequência, que é o aumento da poluição. Como estamos num contexto perigoso de aquecimento global, a poluição tem de ser limpa, o que vai gerar um custo – financeiro e obviamente ambiental – que não estará computado no crescimento do PIB. 

Concordo com Bregman sobre a necessidade de abandonarmos essa medida. “Talvez o PIB fizesse mais sentido nos anos 1930, 1940, especialmente durante a Segunda Guerra Mundial, quando era necessário construir tanques, aviões, armas, tudo com a maior rapidez possível”, ele continuou. “Naquela época, em que inexistia a preocupação ambiental, talvez fizesse sentido olhar para esses dados para indicar que a economia estava avançando. Mas a guerra acabou. As coisas que fazem a vida valer a pena agora são outras: são as conexões, a amizade, o cuidado, valores subjetivos que são difíceis de mensurar.” 

Fiz essa mesma pergunta, sobre o PIB, para a professora Rebecca Henderson. Além de comandar um dos cursos mais disputados da Harvard Business School, Henderson é autora do recém-lançado Reimagining Capitalism in a World on Fire (Reimaginando o capitalismo em um mundo em chamas), em que faz uma defesa de um capitalismo mais responsável, menos selvagem. 

“O conceito de PIB foi inventado há cerca de cem anos. As pessoas eram mais pobres, e fazia sentido pensar que a felicidade estava atrelada a quantas coisas elas possuíam”, disse Henderson. “Mas agora sabemos que a felicidade é determinada por uma série de outras coisas. As pessoas no Brasil são muito mais felizes do que deveriam ser, dado o seu nível de renda. E as pessoas na Europa Oriental são muito menos felizes. Podemos especular a razão disso, mas ela não se resume à renda.” Henderson acredita que o PIB seja apenas “um retrato da produção recente, não uma medida do estoque de longo prazo”, como explicou: “É como administrar uma empresa sem acompanhar o que acontece com os seus ativos. Você pode aumentar o PIB cortando todas as árvores do país, mas estará destruindo todos os seus ativos de longo prazo. Hoje, a variação do PIB já não faz mais sentido como medida. Precisamos equalizá-la com medidas de igualdade, bem-estar social e preservação ambiental”.

Tempos atrás, passei alguns dias no Preá, uma praia paradisíaca no Ceará que está se desenvolvendo por causa das correntes de vento, que a tornaram um ótimo ponto para a prática do kitesurf. Mas hoje, por exemplo, se uma grande indústria petroquímica se instalasse no local, o PIB do Preá cresceria de maneira extraordinária, apesar dos impactos negativos sobre o meio ambiente. Valeria a pena? 

Henderson acredita que o modelo atual do capitalismo chegou a um limite: “Os valores que, na minha visão, conferem ao capitalismo sua legitimidade são prosperidade e liberdade para todos. Se o capitalismo colapsa, a ponto de que poucos de fato se tornam ricos e têm acesso a oportunidades, ele perde sua legitimidade moral, seu apoio político e, a longo prazo, torna-se ruim para aqueles que têm dinheiro”. Concentração de poder e renda em um pequeno grupo leva a uma desaceleração das taxas de inovação e do crescimento econômico. “O que faz uma sociedade mais próspera e rica no longo prazo é trazer todos para dentro da sociedade, dar chances a todos. De outro modo, a raiva cresce.”

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