AP Photo/Carolyn Kaster
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Louise Glück: A máquina que investiga o estarmos no mundo

Se o Prêmio Nobel de Literatura tem alguma função é fazer com que versos como os da autora finalmente alcancem leitores em escala global.

Pedro Gonzaga, O Estado de S.Paulo

08 de outubro de 2020 | 17h21

Certa vez olhamos para o mundo, na infância./ O resto é memória.

 Se o Prêmio Nobel de Literatura tem alguma função — além do polpudo cheque de Estocolmo a cair na conta dos escritores laureados — é fazer com que versos como os de acima, impressos já há tantos anos, finalmente alcancem leitores em escala global.

De modo que é possível que, a partir do anúncio de ontem, o nome da poeta americana Louise Glück (que terá soado como surpresa) comece a existir em outros idiomas, e esperamos logo também em português. No entanto, é bom destacar: para um pequeno círculo, para esta seita quase secreta dos admiradores da poesia, há total justeza na escolha, assim como teriam merecido a mesma honra nomes que de há muito cultivam uma lírica consistente, como Anne Carson, Adam Zagajewski, ou Robert Hass. Digo isso porque o

mesmo passou quando foram premiados Tomas Tranströmer e Wislawa Szymborka, hoje, por sorte, reconhecidos mundialmente.

Filha de uma família de imigrantes húngaros de origem judaica, Louise Glück estreou na poesia em 1962 e é conhecida por uma obra marcada pela precisão e pela economia, pelo rigor da palavra exata, quase a contrastar com seu tom confessional, de investigação íntima, de crença na universalidade da experiência humana, criando, pela mescla de estilo com conteúdo, um estranho distanciamento subjetivo, perceptível no poema abaixo, do início de sua carreira:

Gratidão

Não pense que não sou grata por tuas pequenas

gentilezas.

Gosto de pequenas gentilezas.

De fato as prefiro à gentileza mais

substancial, que está sempre a te cravar os olhos,

feito um grande animal sobre o tapete (…)

Outro aspecto importante de sua obra é o retorno aos temas clássicos, seja pelo culto ao mundo

natural, assunto dominante em seu premiado Wild Iris (1992), seja pela retomada criativa de figuras da

tradição grega, tal se vê no próximo poema:

O dilema de Telêmaco

Nunca consigo decidir

o que escrever

nas lápides de meus pais. Sei

o que ele quer: ele quer

amado, o que por certo

vai direto ao ponto, particularmente

se contarmos todas

as mulheres. Mas

isso deixa minha mãe

a descoberto. Ela me diz

que isto não lhe importa

para nada; ela prefere

ser representada por

suas próprias conquistas. Parece

pura falta de tato lembrar aos dois

que alguém não

honra aos mortos perpetuando

suas vaidades, suas

projeções sobre si mesmos. (…)

Acima de tudo, Louise Glück parece disposta a fazer de sua poesia uma grande máquina voltada à investigação do que significa estarmos no mundo. Trata-se em suas mãos de um dispositivo implacável, nunca autocondescendente, de uma honestidade fiel senão aos fatos à circunstância móvel de nossos desejos, motivações, deficiências, qualidades, geradoras de versos como E as observações que fazemos são como falas numa peça,/ ditas com convicção, mas não por escolha, ou no trecho do poema seguinte:

Sirena

Me tornei uma criminosa ao me apaixonar.

Antes disso eu era uma garçonete.

Eu não queria ir para Chicago contigo.

queria que casasses comigo, queria

que tua esposa sofresse.

Queria que a vida dela fosse como uma peça

em que todos as partes são tristes partes.

Pode uma pessoa decente

pensar assim? Eu mereço

reconhecimento por minha coragem (…)

Glück é também uma ensaísta renomada, e seus livros Proofs and Theories e o recente American Originality lançam um olhar lúcido sobre o fazer poético e para a cultura de nosso tempo, como neste trecho, recolhido do primeiro título:

“Estou confusa, não de um modo emocional, mas lógico, com a determinação das mulheres de

escrever como mulheres. Confusa porque isto parece uma ambição limitada pela concepção existente daquilo

que, com exatidão, diferencia os sexos. Se tais diferenças existem, parece-me razoável supor que a literatura

as revela, e que o fará de maneira tão mais interessante, tão mais sutil, na ausência de intenção.”

Agora é aguardar que as editoras do país o quanto antes nos tragam os versos e as ideias da nova

Prêmio Nobel.

Pedro Gonzaga é poeta e doutor em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul

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