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Livros para uma possível primavera

Você está com crises com seu adolescente? O filósofo Levinas pode dar dicas preciosas

Leandro Karnal, O Estado de S.Paulo

22 de setembro de 2021 | 03h00

Sim minha querida leitora e meu estimado leitor: foi um longo e tenebroso inverno. Lobos uivaram na estepe gelada, as boas ideias sofreram com a temperatura baixa e a sociabilidade humana despencou com um vento que começou a soprar de março do ano passado. Uma quase miniera glacial com geleiras imensas e escassez de tudo, especialmente de esperança. Praticamente um ano e meio de inverno duríssimo. Há sinais de que, em alguns vales, germinam plantas promissoras chamadas vacinas. Tudo leva a crer que, se o frio ainda fustiga e os cuidados permanecem em muitos setores, talvez esteja raiando uma primavera. 

Estação nova e aguardada! Nunca tivemos tanta ansiedade pelo fim de uma crise. Uma maneira extraordinária de encarar um novo mundo que pode estar surgindo pela frente é ler coisas boas, novas, instigadoras de ideias e de novos olhares. Ler serve para todas as estações, para a saúde e para as pandemias, para as crises econômicas e para acompanhar a recuperação de mercados. 

Dois livros de Michael Sandel darão o que pensar até o verão: Justiça – O Que É Fazer a Coisa Certa e A Tirania do Mérito – O Que Aconteceu com o Bem Comum (2020, Civilização Brasileira). Os bons exemplos do professor norte-americano, sua aplicação, prática de princípios de ética e de justiça, sua expressão viva e cativante de conceitos dos grandes filósofos justificam o enorme sucesso dos dois livros ao norte e ao sul do Equador. Ambos os textos farão você repensar coisas que o senso comum construiu e que tomávamos por verdades autoevidentes. Se quiser manter a ordem de publicação nos EUA, leia Justiça primeiro. Se daqui até o fim do ano você decidir que tem paciência para apenas mais dois livros, leia esses dois. 

Pensando já nas festas de fim de ano, amigo-secreto ou férias? Você pode se abastecer de uma coleção de clássicos da editora Antofágica. Daniel Lameira, Sérgio e Rafael Drummond e Luciana Fracchetta tomaram a decisão, no nosso momento de crise, de lançar obras de referência em capa dura. Antes que sejam interditados judicialmente por insanidade evidente em apostar na cultura formal, aqui vão alguns livros: Na Colônia Penal (Franz Kafka), O Nariz (Nikolai Gógol), Werther (Goethe), Triste Fim de Policarpo Quaresma (Lima Barreto), O Morro dos Ventos Uivantes (Emily Brontë) e Memórias Póstumas de Brás Cubas (Machado de Assis), A Ilha do Tesouro (Stevenson), 1984 (Orwell) e muitos outros. Quer um bônus? Ilustrações interessantes e variadas nos livros. Exemplo? Portinari aumenta a riqueza do livro de Lima Barreto. Dar um livro bem encadernado com uma bonita dedicatória sua é um presente permanente.

Os livros de Sandel tratam de ideias muito atuais e presentes nos debates internacionais. Os clássicos da Antofágica percorrem ideias eternas do cânone ocidental. Vamos ao Brasil profundo: o aclamado Itamar Vieira Jr. tinha surpreendido o público com seu Torto Arado. A poderosa narrativa do baiano agora aparece como histórias autônomas: Doramar ou a Odisseia (Ed. Todavia). Um Brasil que raramente aparece na internet ou na grande imprensa: ler Itamar virou uma maneira de pensar além da imensa classe média simbólica que nos assombra e cega sempre. A sensação que tenho com os textos dele é de que eu vivo em uma bolha e ele me expulsa de uma razão muito limitada. Faça seu próprio julgamento lendo-o, afinal, livros ajudam muito nisso. 

Seu campo é a história? A Planeta (com o selo Crítica) lançou Os Templários, de Dan Jones. A pesquisa dele consagra o que de mais recente sabemos sobre a grande ordem religiosa militar que anima debates até hoje. Prefere um romance policial? A mesma editora (selo Tusquets) lançou Terra Alta, do espanhol Javier Cerca, já famoso pelo livro Soldados de Salamina. No novo livro, a personagem Melchor Marín me levou a imaginar que um dia será alvo de um grande filme. Um desafio: ler o livro Justiça (de Sandel) e depois analisar a vingança contida em Terra Alta, aproximando os conceitos filosóficos e ficcionais. Que primavera seria!

Existe um tema controverso que anima muitas publicações. Devo aplicar a alta filosofia para questões cotidianas? Sócrates e Platão podem responder sobre redes sociais ou depressão? Alguns detestam e eu sempre imagino que, afinal, era esse o objetivo dos pensadores. Marie Robert lançou Não Sabe o Que Fazer? Pergunte aos Filósofos (Planeta). Eric Weiner publicou O Expresso Sócrates – Em Busca das Lições de Vida de Filósofos Imortais (Alta Life). Gabriel Chalita lançou pelo novo selo Serena Viver É Verbo – Como a Filosofia Pode nos Ajudar a Entender o Mundo Pós-Pandemia. São livros que buscam nos grandes pensadores uma resposta a questões muito atuais. Por exemplo: Você está com crises com seu adolescente? Levinas pode dar dicas preciosas, segundo Marie Robert. Está viajando e lida com vontades de prazer? Epicuro é uma fonte na pena de Eric Weiner. Qual a relação entre justiça e generosidade? Aristóteles falará pelo texto de Chalita. De todos os lados, luzes clássicas reinterpretadas para nosso mundo. Confesso: quando li o capítulo do Expresso Sócrates sobre Sei Shônagon e a reflexão sobre as pequenas coisas, envergonhou-me confessar que jamais tinha ouvido falar desta pensadora japonesa. Fui atrás de O Livro do Travesseiro dessa pensadora da corte japonesa do século 11. Em outras palavras: os textos me ajudaram a conhecer mais e ser menos ignorante. 

Em resumo: ler para que a primavera vença. Ler para restos de inverno serem menos complicados. Ler para ser e para crescer. Uma decisão a ser tomada daqui para o fim do ano. Aceita o desafio de semear esperança no cérebro? 

É HISTORIADOR, ESCRITOR, MEMBRO DA ACADEMIA PAULISTA DE LETRAS, AUTOR DE ‘A CORAGEM DA ESPERANÇA’, ENTRE OUTROS

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