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Livros de Maura Lopes Cançado permitem discutir relação entre literatura e loucura

Importante obra da escritora é reeditada

Wilson Alves-Bezzera, O Estado de S.Paulo

21 de novembro de 2015 | 05h00

A volta dos livros de Maura Lopes Cançado, sem edição comercial há anos, deve ser celebrada, pois permite colocar em discussão as relações entre literatura e loucura. Há diversos escritores a quem as idiossincrasias da escrita levaram críticos a furtar-se da tarefa analítica, ao lançar a pecha de louco: como o caso de Wilson Martins ao (não) avaliar o Guesa Errante, do poeta romântico Sousândrade, de quem dizia que o resgate se devia a “mera curiosidade arqueológica ou necrofílica”. 

Outros tiveram a hipótese da loucura sempre colocada sobre si, como Joyce que, em seu Finnegans Wake (1939), teceu um longo poema com fragmentos de 65 línguas. Há ainda os propriamente diagnosticados como loucos, para quem a escrita e a publicação serviram, sobretudo, como registro do delírio: tal o caso de Schreber, em cujas Memórias de um Doente dos Nervos (1903) ofereceu uma autobiografia articulada por seu sistema delirante, na qual quer provar sua condição intelectual para viver em sociedade.

Hospício é Deus (1965) e O Sofredor do Ver (1968), de Maura Lopes Cançado, relacionam-se de modo diverso com o espectro acima apontado. Loucura e literatura dão-se de modo indissociável em sua escrita. Hospício é Deus é o diário de uma das suas muitas internações voluntárias em hospitais psiquiátricos, após ter tido uma crise de fúria na sede do Jornal do Brasil, onde então trabalhava como secretária de Reynaldo Jardim, e onde já publicara alguns contos. Filha da aristocracia rural mineira, Cançado, na parte inicial de seu diário, oferece ao leitor os contornos de seu romance familiar: magnifica-se a si mesma (“nenhuma conseguiu-me tomar o lugar, nem fez diminuir o brilho do qual vim revestida e me impôs à admiração dos que me cercavam”) e ao pai (que “poderia ter sido um Wagner, um Nietzsche ou um Napoleão”). 

Declara que este fora seu “grande e único amor”; sua imagem é erotizada: “papai costumava ter comigo atenções de um namorado. Era meu costume permanecer durante horas junto a papai, introduzindo-lhe as mãos sob a camisa, tocando-lhe a pele, beijando-o no pescoço, enquanto ele falava de negócios”. 

Além do interesse clínico que possam ter seus escritos, nota-se um refinamento de sua escritura, como no fragmento de 27 de outubro de 1959, quando, de saída, descreve um encontro com a enfermeira-chefe: “Veio com um jeito de réptil, ondulosa, em silêncio”. Ao final da cena, ainda antes que se saiba quem é a antagonista, mostra-se uma agressividade que sobrepuja a narradora, na iminência de passar ao ato: “Fixei o olhar na colcha branca, enquanto meu corpo tremia de desejos de correr à porta, tomar a cabeça e esganá-la”. 

Chama a atenção do leitor a entrega da autora em seus escritos, a facilidade de passar do ódio ao amor por uma pessoa e, inclusive, a naturalidade dos relatos de atos agressivos: “Perto da porta, umas nádegas de proporções continentais atraíram-me a atenção. Juro que o que me levou à dona de tal extensão foi a curiosidade. Era a cozinheira que me negara café. Meti-lhe o pontapé”. Em seguida, foge em busca de seu médico: “Dr. A, acuda-me: dei um pontapé no traseiro da cozinheira e tudo mundo está atrás de mim”. Anos depois, em surto, Maura mataria uma colega de internamento.

Os contos de O Sofredor do Ver retomam as experiências de internação da autora, numa escrita mais lírica, como no conto Introdução a Alda: “Puseram-na numa cidade triste, de uniformes azuis e jalecos brancos, de onde não pôde mais sair”. Alguns deles foram escritos antes da internação que é objeto dos diários. Chamam a atenção nos contos a liberdade formal, as associações de imagens e um narrar etéreo, cujos temas parecem orbitar em torno de percepções particulares do corpo e do real.

A edição da Autêntica é acompanhada de um perfil biográfico ao final, a cargo de Maurício Meireles, que tem o mérito de trazer fotos, entrevistas e fragmentos do processo judicial pelo assassinato de 1972, mas que peca ao limitar-se ao discurso da própria Maura no que se refere à infância. Difícil de justificar é a reprodução na íntegra das 24 páginas do Perfil nos dois volumes, ainda mais em uma edição em que os livros vem juntos, num box.

* WILSON ALVES-BEZERRA É PROFESSOR DA UFSCAR E AUTOR DE ‘VERTIGENS’ (ILUMINURAS)

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