Felipe Mortara/Estadão
Felipe Mortara/Estadão

Livros compreendem produção conjunta de Jorge Luis Borges e Adolfo Bioy Casares

Obras unem investigação rigorosa com exageros racionais e irônicos

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

03 Janeiro 2015 | 03h00

O argentino Jorge Luis Borges conquistou mais notoriedade, mas sua parceria com um amigo fraterno, o compatriota Adolfo Bioy Casares, comprovou que se tratavam de almas gêmeas - juntos, escreveram diversas e inovadoras histórias policiais, que buscavam um tom mais portenho e regadas a um humor afiado e inteligente. Bastar se deliciar com os três volumes que a editora Biblioteca Azul (do grupo Globo) acaba de lançar, reunindo os casos criados por Borges e Casares e com alentados prefácios inéditos assinados por Davi Arrigucci Jr., Michel Lafon e Júlio Pimentel Pinto. Como bônus, a editora publica também o primeiro volume das Obras Completas de Bioy Casares, com a produção de 1940 a 1958.

Borges e Casares uniram-se pela primeira vez quase como uma brincadeira - em 1935, um novo iogurte da marca La Martona, companhia de leite da família Casares, estava sendo lançado em Buenos Aires e os escritores encarregaram-se de escrever o texto do anúncio, a pedido do tio de Casares, dono da fábrica. O resultado surpreendeu pelo exagero do texto: disposta a valorizar as qualidades longevas do produto, a dupla chegou a inventar uma família búlgara cuja filha mais jovem tinha 90 anos. 

Foi o início de uma sólida parceria, que se diversificou por crônicas e contos policiais ou fantásticos de intenção satírica, roteiros para cinema, artigos e prefácios, direção de coleções de livros, compilação de antologias e anotação de obras clássicas. 


Em pouco tempo, Borges e Casares começaram a escrever contos policiais, a partir de pseudônimos como H. (de Honorio) Bustos Domecq e B. (de Benito) Suárez Lynch. E não se limitaram a exercitar um estilo que ambos admiravam: por meio das histórias de crimes, puderam tanto ironizar a pretensa intelectualidade portenha daquela época como apontar os graves problemas carcerários. O primeiro livro escrito a quatro mãos foram os contos que compõem Seis Problemas para Dom Isidro Parodi, lançado em 1942 e que figura no primeiro volume lançado pela Biblioteca Azul, ao lado de Duas Fantasias Memoráveis.

“Os criadores de Bustos Domecq divertem-se a cada linha com suas próprias brincadeiras, mas é árduo acompanhá-los em seus jogos verbais e no alcance de suas tiradas ferinas e sibilinas, cuja ferocidade disfarçada em chiste não deixa pedra sobre pedra no quem é quem do mundo cultural e político a que remetem, com verve sempre mordente e de vez em quando maldosa”, avalia Davi Arrigucci Jr.

Era justamente esse jogo misterioso que mais interessa à dupla de amigos que, como Fernando Pessoa, desdobravam-se em heterônimos - como a diferença de ser o autor português uma única pessoa. Com a afinidade se aprofundando, logo os amigos se acostumaram a confidenciar um para o outro como estavam seus escritos, a confrontar seus projetos, a comentar suas leituras. Portanto, não é de se estranhar que, enquanto criavam juntos, cada um desenvolvia paralelamente seus trabalhos pessoais.

É o caso, por exemplo, de A Invenção de Morel, o mais conhecido romance de Bioy Casares, publicado em 1940 - figura, assim, no primeiro volume da Obras Completas, lançada agora pela Biblioteca Azul. É justamente a obra que o escritor considera ser seu primeiro romance, depois de algumas experiências atacadas pela crítica - foi para desmentir o pessimismo dos resenhistas e reforçar a fé na própria inteligência, aliás, que Casares escreveu a história, consagrada como uma das melhores em língua latina.

De posse dos quatro volumes, o leitor pode comparar as escritas produzidas em separado e conjuntamente. “Mais do que pais de dom Honorio, Bioy e Borges parecem ser seus filhos, quando não seus netos ou bisnetos, respeitosos e submissos. A criatura rebelde toma o poder e passa a dominar seus criadores. Apenas nascido, o ‘Bicho Feio’ monopoliza abruptamente a palavra e encontra sua voz - uma voz enorme, excessiva, inconfundível. Esta voz não é a soma de duas vozes, mas sua transcendência, sua transmutação, nascida de um misterioso entre dois, que ‘só existe quando estamos os dois conversando’”, escreve Michel Lafon, no prefácio.

A forma como a simbiose funcionava, aliás, excita a curiosidade - em seu livro Memorias, publicado em 1994 na Argentina, Bioy revelou detalhes do processo: “Escrevíamos, habitualmente, à noite. Conversávamos livremente sobre a ideia que tínhamos de um tema até que se ia formando, quase sem que propuséssemos, um projeto comum. Depois eu me sentava para escrever, antes à máquina, ultimamente à mão, porque escrever à máquina agora me dá dor no quadril. Se a um ocorria a primeira frase, propunha-a, e assim com a segunda e a terceira, os dois falando. Ocasionalmente Borges me dizia: ‘Não, não vá por aí’, ou eu lhe dizia: ‘Já chega, são brincadeiras demais’”.

Aos poucos, porém, os escritores perceberam estar perdendo o controle de Bustos Domecq. Em uma entrevista, Casares afirmou que o personagem estava cada vez mais parecido com Rabelais, autor que ambos consideravam um galhofeiro e que detestavam, decidindo assim interromper a sequência.

BORGES + BIOY - V. 1

Autores: A. Bioy Casares e J. Luis Borges

Tradução: Maria P. G. Ribeiro

Editora: Biblioteca Azul (185 págs., R$ 39,90)

BORGES + BIOY - V. 2

Autores: A. Bioy Casares e J. Luis Borges

Tradução: Maria P. G. Ribeiro

Editora: Biblioteca Azul (229 págs., R$ 39,90)

BORGES + BIOY - V. 3

Autores: A. Bioy Casares e J. Luis Borges

Tradução: Maria P. G. Ribeiro

Editora: Biblioteca Azul (238 págs., R$ 39,90)

OBRAS COMPLETAS

Autor: Adolfo Bioy Casares

Tradução: vários tradutores

Editora: Biblioteca Azul (745 págs., R$ 69,90)

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