Facundo Arrizabalaga/EFE
Facundo Arrizabalaga/EFE

Livro vencedor do Man Booker resvala nas acusações do #MeToo

‘Milkman’, da irlandesa Anna Burns, trata da lealdade política como arma de assédio e intimidação sexual

Jill Lawless, AP

20 Outubro 2018 | 06h00

A irlandesa Anna Burns ganhou na terça-feira, 16, o prestigiado prêmio Man Booker Prize de ficção por seu livro Milkman, uma história que trata de conflito e poder, narrada por uma jovem que enfrenta o assédio e se desenrola durante os anos de conflitos violentos entre católicos e protestantes na Irlanda do Norte. O Man Booker Prize é o mais prestigiado prêmio literário em língua inglesa.

Anna Burns é a primeira romancista da Irlanda do Norte a ganhar o prêmio, com uma dotação de US$ 66 mil, outorgado a escritores de língua inglesa de todas as partes do mundo. O prêmio foi entregue a ela por Camila, duquesa de Cornualha, durante cerimônia no edifício medieval Guildhall.

Milkman é uma história narrada do ponto de vista de uma jovem que se defronta com um homem mais velho que usa suas relações familiares, pressão social e lealdade política como armas de intimidação sexual e assédio. A trama se passa na década de 1970 e o livro foi publicado em meio à ebulição mundial provocada pelas acusações de violência sexual que desencadearam o movimento #MeToo.

“Acho que este romance ajudará as pessoas a refletirem sobre o #MeToo e sobre romances que colaboram para uma reflexão sobre movimentos e desafios atuais”, afirmou o filósofo Kwame Anthony Appiah, que presidiu o júri de premiação. “Acreditamos que isso vai perdurar, não é algo que se passa simplesmente neste momento e esse é um romance muito poderoso sobre os danos e o perigo dos rumores.”

Anna Burns venceu outros cinco escritores, incluindo os favoritos dos apostadores: o americano Richard Powers, com seu livro ecológico The Overstory, e a canadense Esi Edugyan, com Washington Black, que narra a história de um escravo que foge de uma plantação de cana de açúcar em um zepelim.

Os outros finalistas foram a escritora americana Rachel Kushner, com Le Mars Room, ambientada em uma prisão feminina; Robin Robertson, com The Long Take, um romance em verso sobre um veterano do Dia D traumatizado; e a britânica Daisy Johnson, de 27 anos, que concorreu com seu livro sobre uma saga familiar inspirada nas tragédias gregas, intitulado Everything Under.

Criado em 1969, o prêmio Man Booker era destinado originalmente a autores britânicos, irlandeses e da Commonwealth. Os americanos foram admitidos ao concurso em 2014 e, desde então, muitos escritores dos Estados Unidos foram premiados, como Paul Beatty, com O Vendido (lançado no Brasil pela Todavia), em 2016, e George Saunders com seu livro Lincoln no Limbo (Companhia das Letras), em 2017.

Temor. Um terceiro vencedor americano na sequência teria reavivado os temores de alguns autores britânicos e editores que acreditam que o prêmio tem se centralizado demais nos Estados Unidos. Mas Appiah garante que nem a nacionalidade e nem o gênero de ficção dos autores constituíram um fator para as deliberações dos jurados, com uma lista de finalistas que incluiu quatro autoras e dois escritores. “Escolhemos o romance... que mais mereceu o prêmio”, disse ele, sem esconder um sorriso matreiro.

O Man Booker tem a reputação de transformar a carreira dos escritores e as apostas e conjecturas são frequentes face à dúvida quanto a quem será o vencedor. Entre contemplados com o prêmio anteriormente, destacam-se Salman Rushdie, Ian McEwan, Arundhati Roy e Hilary Mantel. Provavelmente a premiação dará um grande impulso à carreira de Anna Burns, 56 anos, que não é muito conhecida, e aos dois romances que publicou anteriormente.

Milkman parece uma torrente contínua, como poucas divisões de parágrafos, o que levou algumas pessoas a considerarem um romance experimental e desafiador. Mas, segundo Appiah, “vale a pena saborear” a maneira característica de falar de Belfast.

“Se lhe dá trabalho, procure lê-lo em voz alta. O verdadeiro prazer que esse livro suscita tem a ver com a maneira como soa”, disse ele, acrescentando que “é tão desafiador como subir no monte Snowdon. E, decididamente, vale a pena porque é fantástico quando você chega lá em cima.” / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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