Livro traz pesquisa abrangente sobre o poder das piadas sobre o comunismo

Obra sobre cultura cômica soviética no período de Lenin a Gorbachev avalia se riso significava resistência ou catarse

Elias Thomé Saliba, Especial para o Estado de S. Paulo

31 de maio de 2014 | 03h00

Piadas podem incentivar revoluções ou derrubar regimes políticos? Impertinente para historiadores sisudos, a questão entrou na pauta dos historiadores do humor. Tidos como “patinhos feios” da pesquisa histórica, foi só nas últimas décadas que os intérpretes do humor começaram a mostrar que, em tempos de mudanças sociais, a cultura cômica tornou-se aquela espécie de fio descoberto a provocar curto-circuito nos sistemas de comunicação coletiva.

Este é o tema de Ben Lewis em Foi-se o Martelo: A História do Comunismo Contada em Piadas, a mais abrangente pesquisa sobre a cultura cômica soviética no período de Lenin a Gorbachev. O leitor pode acompanhá-lo as muitas peregrinações em arquivos russos, húngaros, romenos, poloneses e alemães e em diversas entrevistas com comediantes, artistas e caricaturistas sobreviventes dos expurgos e do Gulag. No período de Lenin, como o Estado ainda não exercia censura eficaz sobre jornalistas e escritores, predominou a sátira literária sofisticada e não a anekdot, mais popular.

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No regime stalinista, as prisões dos piadistas provavelmente começaram em quantidade significativa a partir de 1933, quando “contar e disseminar anekdot” foi descrita pela primeira vez como atividade antissoviética nas atas do plenário do Comitê Central do Partido e depois consolidada no código penal. Foi a partir daí que nasceu uma cultura humorística, caracterizada pela disseminação de piadas anônimas, um trabalho satírico coletivo. É em culturas auditivas que as piadas prosperam, já que as palavras são escolhidas apenas na medida em que podem provocar impacto imediato. Mas, sem registros escritos, como recuperá-las? No caso de Lewis, a resposta é dada por uma daquelas adivinhas cômicas: qual a diferença entre um dissidente soviético e um agente da NKVD? O dissidente inventa as piadas, o agente da polícia as espalha. Um dos paradoxos: historiadores só têm acesso às piadas da época porque elas foram registradas pelos relatórios da censura burocrática.

A planificação foi importante na construção do comunismo, mas o Estado nunca poderia planejar como as pessoas ririam, nem do que ririam. Mesmo assim, tentou. Um humor oficial foi incentivado e Stalin chegou mesmo a intervir diretamente, sobretudo na produção de sátiras e cartuns de conteúdo crítico genérico, dirigidas principalmente ao capitalismo ocidental e, após a guerra, ao imperialismo norte-americano. Esta produção, de certa forma, serviu como um componente importante do regime, uma espécie de pitoresco substituto do debate democrático.

Todo bom historiador sabe que ninguém jamais presenciou o nascimento de uma piada. Todas elas parecem reencarnações de piadas ancestrais ou de outras épocas. Cabe ao analista descobrir não propriamente o que faz as pessoas rirem mas, sobretudo o porquê delas rirem. Os usos sociais e não o conteúdo das piadas é que definem a cultura cômica de uma época. Qual a diferença entre a vida nos tempos de Jesus e nos tempos de Stalin? Naquela época, um homem sofreu por todos nós, mas hoje todos nós sofremos por um homem.

Já as piadas mais comuns na época de Kruchev e Brejnev satirizavam a fraqueza da indústria soviética. Um gerente de fábrica soviética mostra a empresários americanos a linha de produção: “Este é o nosso produto de maior sucesso. No primeiro ano, fizemos 500 unidades, no segundo 5.000 e, no terceiro, 500 mil”. “Uau”, diz um dos visitantes americanos. “O que vocês fabricam?” O gerente lhe entrega uma chapa de metal, que o visitante vira e vê escrito: “Com Defeito”.

Até os feitos espaciais soviéticos foram motivo de chacota: Um cosmonauta soviético vai para a Lua e deixa um bilhete para a mãe na mesa da cozinha: “Mãe, fui para a Lua, volto em uma semana”. Quando volta, a casa está vazia e há um bilhete da mãe sobre a mesa: “Fui comprar queijo. Não sei quando volto”.

Historiadores do humor sempre se divertem, mas é difícil para o intérprete definir se as piadas possuíam energia suficiente para incentivar uma resistência ativa ao comunismo ou foram apenas válvulas de escape de uma indignação reprimida. No Leste Europeu, certamente predominou o riso catártico. Anedotas constituíram um recurso para reagir à propaganda e preservar o senso de verdade. As piadas foram o jazz do Leste Europeu, a música dos oprimidos, escreve Lewis. Checos e húngaros também contavam piadas que zombavam da própria subserviência impotente. A óbvia exceção foi a Romênia, sob Ceausescu, dominada por insuperáveis piadas de humor negro. Sob o tacão do cruel ditador, Bucareste foi apelidada de “Ceaushiwitz” e transformou-se num caldeirão de piadas macabras: Quem cavou o canal do mar Branco? A margem direita foi cavada por aqueles que contaram piadas... E a margem esquerda? Por aqueles que ouviram. Entre 1979 e 1989, o historiador Calin Stefanescu refez estatisticamente a produção de piadas romenas: mais de 950 anedotas – ou seja, uma piada nova a cada quatro dias! Neste caso, elas funcionaram menos como manifestação de apatia divertida do que como âncoras de resistência e apostas na vida.

Há uma corrente de historiadores que argumenta que esta cultura de piadas teve papel importante na destruição do comunismo. Com riqueza de exemplos, Lewis mostra que não foi bem assim. Quando veio a Glasnost de Gorbachev, o sindicato Solidariedade na Polônia e os incontáveis protestos na década de 1980 as piadas entraram numa estranha fase de estagnação. Parece afinal que nos tempos do comunismo, as pessoas escolheram contar piadas durante muito tempo, mas chegou uma hora em que, para poder dar um passo a frente, começaram a falar seriamente e decidiram parar de brincar.

ELIAS THOMÉ SALIBA É PROFESSOR DA USP, AUTOR DE RAÍZES DO RISO E MEMBRO DA ASSOCIAÇÃO INTERNACIONAL DE HISTORIADORES DO HUMOR 

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