Tomas Edson Silveira
Tomas Edson Silveira

Livro traz narrativa que desenha a periferia da cidade e seus habitantes

Em sua terceira obra, José Falero aponta as mazelas e injustiças dos subúrbios, mas os enaltece como lugar de cultivo de afetos

Alessandro Hernandez, Especial para o Estadão

02 de novembro de 2021 | 15h00

A jornalista Eliane Brum citou em um de seus artigos: “Imaginar um futuro que queremos viver é, portanto, um ato de resistência. E, para imaginar futuro, precisamos deslocar o conceito do que é centro e do que é periferia. O futuro que imagino é multicêntrico, é diálogo de mundos”.

Em uma das crônicas reunidas em seu novo livro Mas em que Mundo Tu Vive? (Todavia), o escritor gaúcho José Falero faz uma referência à periferia como “mais do que um ponto geográfico específico num mapa, é um lugar existencial, onde existimos da forma como existimos, e isso acontece em diversos lugares ao mesmo tempo”. Se o autor aponta as mazelas e as injustiças sofridas na periferia, não deixa de enaltecê-lo como um lugar de cultivo de afetos e resiliências. 

Falero se define como autor marginal periférico e, com isso, lança seu terceiro livro que traz no título uma pergunta bastante irônica e incisiva. No entanto, os textos não se limitam a crônicas - ele expande sua escrita para ensaios, ficções e memorialismos, que trazem sempre uma crítica ácida e profunda sobre questões que permeiam o hábitat periférico das grandes cidades (neste caso, com referência específica à periferia de Porto Alegre, onde vive). 

É por meio da ironia que Falero constrói sua escrita e, para isso, utiliza um expediente literário que busca uma aproximação constante com o leitor, ora rompendo a narrativa com comentários e questionamentos, ora retornando ao fluxo dos acontecimentos ficcionais. 

Afinidades

O olhar do autor para a periferia, seus habitantes e o modo de vida é constante em sua escrita e, por vezes, lembra uma característica muito presente na literatura do escritor carioca Lima Barreto, que era uma espécie de flâneur, morador do subúrbio do Rio no início do século passado e que diariamente fazia o percurso ao centro da cidade. Neste caminho, observava a dinâmica da vida que alimentava principalmente suas crônicas. O que vemos na literatura de Falero é uma narrativa que desenha a periferia e seus habitantes. 

O paralelo com o autor carioca também pode ser apontado na condição de homem negro e suas implicâncias em relação principalmente à crítica que este fazia ao panteão estabelecido pela Academia e intelectualidade brasileiras na época. 

Se Lima Barreto já trazia em sua primeira obra, Recordações do Escrivão Isaías Caminha, a questão da identidade racial e o quanto isso afetava suas conquistas por espaços no mundo, Falero se coloca de forma bastante contundente para pensar o tema, muitas vezes por meio da autorreflexão. No início da crônica A Faxineira, ele se autointitula de forma inquieta: “Sou um negro de pele clara, e teria o maior prazer em explicar porque me defino assim não fosse o fato de que, na verdade, me cansei de explicar isso e já não tenho mais prazer nenhum em fazê-lo”. No decorrer da crônica, o autor expõe uma experiência em que se viu como racista e expõe esse ato com o intuito de destacar a importância do autopoliciamento na luta antirracista

Identidade

Em Branco É a Vó, retoma o tema por meio de um exercício de pensamento acerca da identidade racial. E, para isso, faz um excelente percurso dialético e temporal entre o sequestro do povo africano até os dias de hoje, ressaltando mais uma vez por meio da autorreflexão não ser um negro tão retinto quanto seus familiares, mas, mesmo assim, não menos negro que sua bisavó, sua mãe, irmã, primas, primos, tios e tias, todos fadados erroneamente a tratamento porco de uma sociedade porca, segundo o autor. 

Há ainda várias referências musicais, listadas ao final, e nesta relação notamos seu apreço aos Racionais MC’s, mais especificamente ao rapper Mano Brown, que afirma ser o maior poeta brasileiro. É notório em sua literatura um diálogo constante com temáticas e discursos políticos presentes nas canções do rapper.

Leia um trecho do texto Branco É a Vó

Tenho consciência do colorismo. Sei bem que quanto mais retinta a pele de uma pessoa, maior será o racismo contra ela. Só peço que, por favor, não me chamem de branco. Não sem saber que antes de o sangue branco vir misturar-se na minha linhagem, os meus ancestrais tinham sido escravizados; não sem saber do terreiro religioso da minha bisavó, onde ela manteve viva as tradições de nossos antepassados; não sem saber como esta sociedade porca me trata; não sem saber como esta sociedade porca trata minha mãe, minha irmã, meus primos e primas, meus tios e tias, quase todos mais retintos do que eu e nem por isso mais negros do que eu. 

Revejamos os nossos conceitos. Não me declaro negro só para vender livros. 

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