Acervo Estadão
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Livro revela trama violenta da morte dos Richthofen

Jornalista Ullisses Campbell lança obra que conta como Suzane e os irmãos Cravinhos mataram Manfred e Marísia

Pablo Pereira, O Estado de S. Paulo

17 de janeiro de 2020 | 19h29

O relato que o jornalista Ullisses Campbell faz do assassinato do casal Marísia e Manfred Albert von Richthofen no livro Suzane Assassina e Manipuladora é de arrepiar. Num crime que marcou a história recente da crônica policial paulistana pela crueldade do ataque, a filha do casal, Suzane, foi condenada a 39 anos de prisão por planejar e ajudar a executar o macabro plano de matar o pai e a mãe a pauladas em outubro de 2002. 

A obra de Campbell, que será lançada pela Matrix Editora no dia 23, em São Paulo, foi liberada para publicação por decisão do ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), em decisão de 18 de dezembro. O ministro negou censura prévia ao livro, pedida pela condenada, e cassou decisão da Justiça que impedia a chegada do livro às livrarias. 

“Houve manifesta restrição à liberdade de expressão”, escreveu o ministro do Supremo, cassando a proibição determinada em novembro. “A democracia não existirá e a livre participação política não florescerá onde a liberdade de expressão for ceifada”, justificou Moraes na sentença.

O livro lembra que quando foi assassinado, o engenheiro Manfred Albert von Richthofen tinha 49 anos e a mulher dele, Marísia, 50. O casal, pais também de Andreas, à época um adolescente, foi trucidado a pauladas dentro do quarto de dormir pelos irmãos Daniel e Cristian Cravinhos, ajudados por Suzane. Interrogados, os Cravinhos confessaram a barbárie poucos dias depois. Daniel era namorado de Suzane Louise von Richthofen, à época com 18 anos, e, segundo documentos do inquérito consultados pelo autor do livro, teve participação direta na trama que levou ao convencimento dos cúmplices e ao duplo assassinato.

Em dez capítulos, o livro de Campbell dá detalhes do início do namoro, das relações familiares daqueles dias e do planejamento das mortes. Reconstrói também os momentos chocantes da noite do crime e relata com minúcias os minutos de terror, desvendados pela investigação e pelas confissões, além de mostrar como os três condenados pela brutalidade viveram os últimos anos na cadeia.

Num trabalho de apuração de pelo menos três anos, o autor pesquisou nas seis mil páginas do processo, autos que estiveram disponíveis para consulta até maio de 2016, quando passaram ao sigilo. Ele entrevistou mais de 50 pessoas em presídios nos quais Suzane viveu e 16 agentes penitenciários e fez uma dúzia de visitas à Penitenciária Masculina de Tremembé, interior de São Paulo, onde falou com apenados e amigos dos Cravinhos, colegas deles na cadeia. O próprio Cristian, encarregado de destruir a cabeça de Marísia, enquanto Daniel matava Manfred, concedeu diversas entrevistas para o livro.

Uma dezena de profissionais especializados em psicologia forense também foi consultada na busca do entendimento da agressão fatal perpetrada pela filha contra os próprios pais. Suzane aparece nas fotos da reconstituição policial do crime, registros feitos para esclarecimento da ação de cada um dos acusados. Ela cumpriu 14 anos de prisão antes de passar ao regime semiaberto. Segundo o livro, a assassina planeja casar-se e morar em Angatuba, no interior paulista. Procurada diversas vezes pelo autor, a última em abril, negou-se a dar entrevistas sobre o crime. Depois tentou impedir a publicação da obra recorrendo à Justiça, o que exigiu o recurso ao STF para garantir a publicação.

Campbell, que fez reportagens sobre o caso para a revista Veja, conta ainda na obra que Suzane já foi submetida por pelo menos três vezes – a última delas em 2018 – a uma avaliação psiquiátrica pelo Teste de Rorschach, que analisa personalidade, validado pelo Conselho Federal de Psicologia e que “já foi obrigatório na admissão de delegados da Polícia Federal”. Foi reprovada em todos os testes.

Mesmo assim, lembra o autor, Suzane ganhou na Justiça o direito de cumprir a pena em regime semiaberto e vem tentando conseguir a condição de cumprimento do restante da condenação no regime aberto. Em suas justificativas, ressalta Campbell, Suzane, hoje com 36 anos, argumenta que não se considera “uma psicopata”. 

Obra segue formato do jornalismo literário

Com diálogos reconstruídos com base nos depoimentos na polícia e na Justiça e a partir de dezenas de entrevistas de pessoas ligadas diretamente ao crime ou que conviveram com os assassinos condenados na cadeia, o livro tem o formato do jornalismo literário, um estilo usado por autores consagrados do gênero, como os escritores Truman Capote e Gay Talese, ícones desse tipo de literatura. “O Cristian, por exemplo, ajudou muito com detalhes nas entrevistas, uma delas por oito horas”, explicou Ullisses Campbell, de 44 anos.

Formado pela Universidade Federal do Pará, o jornalista tem 24 anos de profissão como repórter. Campbell já ganhou três vezes o Prêmio Esso de Reportagem. Trabalhou nos jornais A Província do Pará, O Liberal e Correio Braziliense, além de fazer carreira na Editora Abril, onde foi repórter das revistas Superinteressante e Veja

O livro sobre a história da assassina confessa começou a nascer durante o trabalho de reportagem sobre o crime para a revista Veja, em 2016. De acordo com o autor, Suzane Assassina e Manipuladora é uma obra embasada na farta documentação existente sobre o caso nos tribunais e nas instituições prisionais, em laudos do Instituto Médico Legal, além de reunir dezenas de depoimentos de gente que conviveu com os presos. Campbell conta que somente na fase do prejulgamento, quando o Judiciário prepara o tribunal, documentos mostram que a própria Suzane produziu 400 páginas de relatos detalhados dos fatos.

Na construção da obra literária, o autor apelou ainda para peritos forenses ouvidos em busca de explicações para o que poderia ter levado a moça ao parricídio. Uma das dúvidas era exatamente o que levou ao plano de mortes. De acordo com o autor, psicólogos explicam que um assassinato é resultado de uma série de fatores combinados. Ele explica que, segundo especialistas no comportamento humano, para matar não basta o desejo de matar. É preciso haver a vontade de matar, um gatilho, ou seja, um fato desencadeador da violência, e, por fim, tratar-se de alguém com um perfil cultural determinado.

De acordo com o autor, Suzane falou com ele em pelo menos quatro oportunidades, mas não quis dar entrevistas. Nas conversas, porém, tentava identificar o conteúdo apurado, pedia detalhes e terminava por esclarecer fatos da narrativa.

SUZANE ASSASSINA E MANIPULADORA

Autor: Ullisses Campbell 

Editora: Matrix (280 págs., R$ 57)

Lançamento: Dia 23/1, 18h30, Livraria Cultura (Av. Paulista, 2.073)

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