AP Photo/Jacques Brinon
AP Photo/Jacques Brinon

Livro revela o jeito de ser e viver da francesa

Nova bíblia da moda prega práticas das parisienses, como ser chique sem esforço

Maria Rita Alonso, Especial para O Estado de S. Paulo

07 Dezembro 2014 | 07h00

Há um novo feminismo na moda hoje encabeçado por um grupo de francesas elegantes, bem-sucedidas, meio politicamente incorretas e um tanto despenteadas. Elas pregam um guarda-roupa clássico, no estilo “chique sem esforço”, para mulheres mais preocupadas em parecer inteligentes do que bonitas. “Perder duas horas do dia arrumando o cabelo, enquanto você poderia ler um livro, não é algo bem-visto aqui. Por isso, a parisiense nunca está ultra-arrumada”, diz a ex-modelo Caroline de Maigret, a personificação mor desse movimento, embaixadora da Chanel e rosto da Lancôme. Seu guarda-roupa é fabuloso, mas sua lista de peças essenciais é curta: jeans, trench coat, camisa branca, blusa larga, blazer preto, jaqueta de couro, botas e stilletos.

Aos 39 anos, alta, elegante e aristocrata (filha de um conde e de uma ex-campeã de natação), Caroline reuniu três amigas de longa data para escrever o que vem sendo considerada nas rodas da moda internacional uma nova bíblia de estilo: Como ser uma parisiense em qualquer lugar do mundo. O livro foi lançado recentemente no Brasil. As coautoras são a escritora Anne Berest, a produtora de cinema Sophie Mas e a jornalista Audrey Diwan. Juntas, elas traduzem, de maneira franca, irônica e por vezes autodepreciativa, o jeito de ser das francesas e também o seu charme inspirador.

Para elas, estilo vai muito além do que se veste – é uma questão de postura e de ações. Por isso, o livro traz páginas sobre relacionamento, aparência, maus hábitos, maternidade, comida e, logicamente, roupas. 

Historicamente, mulheres francesas lideraram movimentações sociais, que implicaram em grandes transformações no guarda-roupa feminino. Para as autoras, toda a parisiense tem uma Simone guardada na memória. Simone Veil, descrita por elas como o totem das jovens politizadas, Simone de Beauvoir, mulher de Jean-Paul Sartre, que encarnava a maneira tipicamente francesa de ser “a mulher de alguém” sem nunca desaparecer, e Simone Signoret, tida como mártir do amor, depois de perdoar a traição do marido com ninguém menos que Marilyn Monroe. “A parisiense sempre se considera como a personagem de um filme – o seu próprio filme. E nenhuma personagem é interessante sem falhas, concorda? Sem a imperfeição, a protagonista deixaria o filme muito chato”, diz Audrey. 

O jeito de se vestir das parisienses, de certa forma, está relacionado com a História dos movimentos feministas na França?

Caroline: Diria que sim, está relacionado com os movimentos do final dos anos 1960. Temos uma responsabilidade para com as mulheres que lutaram para que conquistássemos os direitos que temos hoje. E essa responsabilidade acaba sendo demonstrada nas roupas e na atitude das meninas parisienses. Em Paris, não é legal parecer muito fútil ou muito sexy. Aqui, tentamos mostrar o tempo todo que há outras coisas mais importantes para fazer na vida do que passar dias em lojas e demorar horas para se arrumar, quando em vez disso você deveria ter gastado esse tempo lendo um livro.

A francesa tem medo de não parecer chique?

Sophie: Realmente não sei se temos medo ou querer ser chique simplesmente faz parte da nossa cultura! De certa forma, vestir-se bem demonstra não apenas ter respeito a nós mesmas, como também às pessoas que vão nos ver e com quem vamos interagir. 

O humor, a ironia e a autodepreciação são características que dão charme à francesa?

Sophie: Bem, talvez seja melhor fazer essa pergunta aos homens! Na França, temos um famoso provérbio “femme qui rit à moitié dans ton lit” (que significa “uma mulher que ri de suas piadas já está a meio caminho de sua cama”). Sim, o humor transcende muitas situações (e salva nossas vidas regularmente!).

Caroline: Acho que o humor é parte do que define a mulher parisiense. Justamente, pelo fato de que ela não é perfeita, mas está disposta a admitir isso. Senso de humor é algo muito valorizado na França e a vontade de não se levar a sério também. 

Como parecer bonita e chique “sem esforço”?

Caroline: Nunca é verdadeiramente sem esforço (a parisiense, na prática, se esforça bastante para construir sua imagem). Mas, sem dúvida, é importante simplificar. Tento me lembrar o tempo todo de que “menos é mais”. A ideia é descobrir quem você é e, em seguida, definir o que se encaixa com seu jeito de viver, como você se sente bem consigo mesma e como quer que os outros a percebam. Depois de encontrar cerca de dez elementos que expressem sua personalidade, você tem um estilo. Na prática, isso vira quase um uniforme, que você precisa atualizar um pouco a cada temporada. 

Quais as peças essenciais do guarda-roupa da parisiense? E o que ela costuma deixar de fora?

Caroline: Um grande casaco marinho, uma camisa branca com modelagem masculina, um par de jeans, escarpins pretos com salto agulha, uma jaqueta de couro... E nada de moletons com logotipos estampados!

Dê exemplos de como desestabilizar os homens?

Sophie: Quando você fala de política com sua boca e sobre sexo com seus olhos ou quando realmente se esquece de usar sutiã no verão. Quando cancela um encontro no último minuto e pede desculpas, mas não dá explicações; quando consegue pagar a conta antes mesmo que ele percebesse. Ao descrever sua noite sem ele em duas palavras “foi ótima”, e depois ir direto para cama!

Como as parisienses encaram a traição?

Audrey: Não acreditamos que uma mulher deva ser obrigada a ser fiel por razões morais. Ou você está completamente apaixonada, ou deve fazer algumas mudanças em sua vida.

COMO SER UMA PARISIENSE EM QUALQUER LUGAR DO MUNDO

Autoras: Caroline de Maigret, Anne Berest, Sophie Mas e Audrey Diwan

Tradução: Julia Nemirovsky 

Editora: Fontanar/Objetiva (272 págs., R$ 39,90)

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