Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

Livro revela dilemas e contradições de José Bonifácio de Andrada e Silva

Historiadora Mary Del Priore, no livro 'As Vidas de José Bonifácio', põe em foco o Patriarca da Independência, que, segundo a especialista, manipulava fatos para esconder fracassos como ser ignorado na Europa

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

25 de maio de 2019 | 03h00

A imagem mais conhecida de José Bonifácio de Andrada e Silva (1763-1838) é a do homem que ajudou a idealizar a separação política do Brasil de Portugal, em 1822, feito que lhe garantiu honrarias como ser “Herói da Pátria” e “Patriarca da Independência”.

“Na verdade, essa fama foi criada por ele mesmo quando, em 1823, funda um jornal, O Tamoyo, e se autoentrevista”, observa a historiadora Mary Del Priore. “Ali, Bonifácio se intitula o ‘Velho do Rocio’ e as perguntas são feitas de forma a forjar a fama do patriarca.” A consolidação acontece em 1922, durante o primeiro centenário da Independência. “Era o momento de eleger heróis e Bonifácio torna-se um deles, cristalizando uma figura idolatrada graças aos historiadores da época.”

Conhecida por apresentar novos aspectos da trajetória de eminentes figuras históricas, Mary Del Priore concentrou seu foco no político, cientista, poeta e advogado paulista em As Vidas de José Bonifácio (Estação Brasil), fruto de uma pesquisa detalhada e exigente, pois, apesar da documentação ser razoável, muitos originais não têm data ou localização precisa. “E o resultado é um texto menos romanceado porque vi a necessidade de captar as contradições desse homem.”

Mary conta que estava interessada no estranhamento que lhe provocava José Bonifácio. “Ele passou 30 anos fora do Brasil, mas foi ignorado na Europa, onde estudou em uma universidade, Coimbra, que não figurava entre as grandes instituições daquele tempo, como a Royal Society”, explica a historiadora. “Mesmo assim, Bonifácio teve contato direto com grandes eventos como as Guerras Napoleônicas, a Revolução Francesa, conheceu a Prússia e a Saxônia, o que ajudou a moldar seu olhar sobre o Brasil distante.”

O período distante do País reforça uma das características básicas de José Bonifácio: a da constante busca por uma ascensão social. Embora nascido em uma família de relativas posses econômicas e sem histórico de miscigenações, Bonifácio enfrentava dificuldades em conquistar títulos de nobreza e ofícios dignos da elite. “Seus irmãos tinham um histórico violento, o que prejudicava uma aceitação. Além disso, os trabalhos conquistados ou não pagavam muito ou eram mesmo muito ruins.”

Assim, ao longo do tempo, desponta um Bonifácio cada vez mais amargurado e ambicioso, com sentimentos ambíguos ao mundo que o cercava. “Era uma usina de ressentimento.”

Ostracismo. Em suas pesquisas sobre José Bonifácio, a historiadora Mary Del Priore observou outro detalhe revelador: o ostracismo que marcou os últimos anos de vida do político, morto em 1838. “Se teve uma boa influência durante a Proclamação da Independência, Bonifácio torna-se esquecido, sem relevância entre os novos políticos que surgem depois”, conta ela. “Especialmente depois que é banido, em 1823, e é obrigado a viver exilado na França por seis anos. Quando volta, já reconciliado com o imperador, tenta fazer a restauração de d. Pedro I, mas descobre que a realidade mudou, que seu pensamento não mais influencia os jovens e, pior, ele já não mais reconhecido nas ruas, não é mais aclamado. Termina seus dias na ilha de Paquetá.”

Tal oscilação na importância conferida aos políticos interessa a historiadora. “Fico pensando em nomes atuais, como Fernando Henrique Cardoso, cuja importância na política de hoje é diferente da de anos atrás”, justifica. No caso de Bonifácio, foi um final desolador para quem tanto investiu na autopromoção. Mary lembra que Bonifácio sentia a falta de uma reserva de sucesso durante sua passagem pela Europa, onde foi ignorado pelos intelectuais locais. 

Também a imagem de que teria sido um importante preceptor para d. Pedro II quando jovem sofre arranhões. “Na verdade, ele mais ensinou a falar palavrões do que qualquer outra coisa”, diverte-se Mary, ressaltando que Bonifácio assumia funções sempre com uma intenção política.

A partir dos papéis deixados por ele – muitos sem data e a maioria revelando sua natureza intempestiva –, a pesquisadora conseguiu delinear alguns aspectos de sua controversa personalidade. Percebe-se que José Bonifácio era manipulador, a fim de conseguir seus objetivos. Assim, era abolicionista, mas defendia que a escravidão se extinguisse de forma gradual. Já sobre a independência do País, o que lhe interessava era mais liberdade de ação para a elite.

“O Brasil era como um arquipélago, com diferentes províncias, cada qual com interesses políticos e econômicos muito particulares”, observa. “É com a ajuda dos irmãos que ele consegue amarrar uma série de apoios que vão garanti-lo no poder.”

A irmandade, aliás, não representava nenhum bom exemplo. Antonio Carlos era um homem agressivo e foi acusado de matar um desafeto a facadas, fato que sempre emperrou a ascensão da família a cargos mais elevados. Já Martim Francisco agia de forma mais astuciosa, mas sem abrir mão de atitudes ilícitas. “Todos eram violentos e alvo de críticas da imprensa, que chamava José de ‘Paxá Bonifácio’. O horror por eles era compartilhado pela classe política: Cipriano Barato, por exemplo, que era independentista, dizia que os três eram ditatoriais e piores que o famigerado Marquês de Pombal.”

Mary prepara agora um livro sobre a rainha portuguesa d. Maria I, apelidada de “A Louca”. “Na verdade, ela era depressiva, mas muito bondosa.”

AS VIDAS DE JOSÉ BONIFÁCIO

Autora: Mary del Priore

Editora: Estação Brasil (328 págs., R$ 35,90)

 

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