Acervo Estadão
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Livro revela as aventuras de Proust com um amante que acabou no Brasil

Relação dos dois está em cartas trocadas entre o escritor e um amigo banqueiro, no entanto sua passagem pelo Brasil carece de registros

Hugues Honoré, AFP

09 de junho de 2022 | 08h13

O escritor Marcel Proust (1871-1922) continua a fazer correr rios de tinta na França cem anos depois de sua morte, e o último episódio é sua complicada relação com um suíço, Henri Rochat, que teve de enviar ao Brasil. 

Poucas coisas se sabem sobre Rochat, que nasceu em data indeterminada na Suíça, e que era garçom no hotel Ritz em Paris quando o autor de Em Busca do Tempo Perdido o conheceu, em 1917. Proust já era uma figura literária reconhecida e sua homossexualidade era um segredo aberto nos círculos parisienses.

O escritor o convidou para morar em sua casa em 1918. Em carta a um amigo, o banqueiro Horace Finaly, Proust confessa que acreditava que o jovem suíço "ficaria apenas algumas semanas" e que "poderia atuar como secretário". Essas cartas de Proust a Finaly fazem parte da rica herança literária e epistolar que continua a aparecer regularmente na França em torno do autor.

As Lettres à Horace Finaly (Cartas a Horace Finaly em francês) mostram que o escritor rapidamente se arrependeu de seu impulso. "Por estar entediado em casa, ele 'fugiu' duas ou três vezes e infelizmente não só perdeu peso, mas também todo o dinheiro que dei a ele", lamenta o autor de Sodoma e Gomorra ao seu amigo banqueiro.

As contas do alfaiate iam se acumulando. "Ele gastou muito mais do que Proust. Foi um dândi que só lhe deu alguma inspiração, alguns jogos de damas e noites ao piano", explica Thierry Laget, editor destas vinte cartas publicadas esta quinta-feira pela editora Gallimard.

Proust mantinha uma longa e apaixonada relação com Reynaldo Hahn, o compositor venezuelano que era uma celebridade da Belle Époque parisiense. Rochat ao piano "não deveria ter o mesmo charme de Hahn, que era talentoso", diz Laget.

As cartas de Proust ao amigo, enfim, ajudam a entender a importância desse banqueiro para a solução desse incômodo problema: mandar o jovem para o Brasil. Finalmente consegue um emprego para ele em uma delegação do Sudaméris, a agência do banco BNP para a América Latina, em Recife, Pernambuco.

Proust desconfia de Rochat, e comenta em suas cartas que só dará ao capitão do transatlântico a última quantia em dinheiro, para que ele possa entregar os fundos ao jovem, assim que o navio zarpar.

Genealogistas suíços agora traçam o rastro desse homem. "Até o momento, ele não foi identificado. Também não temos seu retrato", explica Thierry Laget. No Recife, Rochat voltou a levar uma vida de luxo. Acumulou dívidas e depois disse que "um tal" Proust iria pagá-las um dia. O escritor certamente lhe enviou dinheiro.

A trilha de Rochat se perde em um continente onde naquela época era relativamente fácil para um europeu recomeçar do zero. Acreditava-se que ele morreu na Argentina, mas descobriu-se recentemente que ele vivia nos arredores de Parnaíba, quando desapareceu em 1923.

Nenhuma sepultura foi descoberta em seu nome. Mas sabe-se que levou consigo para aquela região tropical exemplares autografados dos romances de Proust. "Rochat ajudou muito a divulgar o trabalho de Proust no Brasil, um dos países onde ele é conhecido e apreciado há muito tempo", explica Laget.

"Sabemos que no Brasil ele mostrou fotos dele com Proust, então essas fotos podem reaparecer um dia", acrescenta.

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