Livro revê história do Teatro Lira Paulistana

Espaço abrigou música, teatro, jornalismo e tendências

Lauro Lisboa Garcia - ESPECIAL PARA O ESTADO , O Estado de S. Paulo

12 Setembro 2014 | 18h00

No filme Lira Paulistana e a Vanguarda Paulista, de 2008, há um depoimento do compositor Luiz Tatit em que ele diz: "O fato de ser uma coisa meio de porão (você tem que descer a escada), isso tudo dá a ideia de que ali nas catacumbas estão acontecendo coisas que só quem desce lá vai saber". Não era só impressão: era ali de fato que "as coisas aconteciam" e os interessados em descobrir novidades frequentavam o teatro no bairro de Pinheiros, em São Paulo, mesmo sem saber o que iriam ver, confiando na credibilidade do espaço.

Boa parte dessa história, o empresário Riba de Castro, um dos mentores do Lira, trouxe à superfície no documentário, recheado de depoimentos e vídeos de artistas que marcaram a história do teatro, como Tatit, Ná Ozzetti, Itamar Assumpção (1949-2003), Cida Moreira, Nelson Ayres, Marcelo Tas, Fernando Meirelles, Paulo Caruso. Agora ele reconta a história com mais profundidade, a partir de revelações dos bastidores, no livro Lira Paulistana - Um Delírio de Porão (Natura Musical, 206 págs., R$ 20).

De tudo o que cabe no imaginário sobre o misterioso ambiente de um porão, o Lira Paulistana absorveu mais do que bichos de sete cabeças e dali soltou suas feras urbanas, suburbanas e inclassificáveis em forma de arte sem compromisso com o mercado. Começou como teatro, virou templo da música independente entre 1979 e 1986, selo de disco, editora, gráfica, centro cultural, ponto de encontro de mentes criadoras fora do mainstream.

Esticou os braços em artes visuais, literatura, jornalismo. Expandiu-se para a luminosidade da Praça Benedito Calixto, fez festa com seus pares em dia de avenida fechada na Paulista, réveillon no Bexiga, e, ao fincar significativa bandeira ideológica, criou vínculos até com quem não viveu no meio daquela ebulição. Hoje ainda se pode notar seus reflexos na música feita em outros pontos do Brasil a partir dali.

Muito se disse que a música paulistana - logo apelidada de "vanguarda" pelos rotuladores burocráticos - não atravessava a fronteira da cidade por ser "cabeçuda", mas é bom lembrar que bandas de rock como Titãs, Ultraje a Rigor e Inocentes soltaram seus gritos naquele porão antes de reverberar pelo País. A grande cantora Aracy de Almeida (1914-1988) fez ali seu último show em São Paulo, registrado em disco.

Nestas primeiras décadas do século 21 - em que São Paulo agrega um mar de boas novidades musicais de todo o País -, compositores reveladores como o mineiro Kristoff Silva, o paulistano Gustavo Galo (autor de um dos melhores discos de 2014, Asa) e o paraense Felipe Cordeiro mostram influências de cérebros dessa vanguarda. Ná Ozzetti é referência para muitas cantoras. Cássia Eller (1962-2001), Ney Matogrosso e Zélia Duncan (que em seus dois trabalhos mais recentes se dedicou integralmente a Luiz Tatit e Itamar Assumpção) abriram novas comportas para essa turma no mundo pop, movimento que prossegue com Tulipa Ruiz e Anelis Assumpção com evidentes referências incorporadas a seus estilos.

Narrado em primeira pessoa por Riba de Castro - com capítulos especiais por dois dos outros sócios, Wilson Souto Jr. e Chico Pardal -, o livro é dividido em capítulos por setor em que a entidade atuou e se desenvolveu - meio que ao estilo faça você mesmo, sem muita organização, em condições precárias, mas com resultados surpreendentes. "Alguns eventos do Lira foram fruto do acaso. Surgia a ideia de fazer determinada ação e fazíamos outra diferente. Ou as duas ao mesmo tempo", conta o autor. Foi assim com a primeira Festa na Praça (Benedito Calixto), que reuniu os grupos Rumo e Premê, Tetê Espíndola e Jorge Mautner, em 25 de janeiro de 1982. No ano seguinte, a festa cresceu e foi para a Avenida Paulista.

Com algum patrocínio, os empresários criaram diversos projetos, como o Instrumental na Praça, Música na USP e Boca no Trombone, abrindo caminho para gente nova e adubando terreno em cidades como Campos do Jordão, Santos, Praia Grande e Curitiba. Para surpresa de quem ligava o nome do Lira à música "difícil", eles promoveram até uma semana de carnaval com participação de Zé Keti (1921-1999) e do Rei Momo em 1984 na zona leste.

Há uma fartura de material iconográfico, com fotos de shows, reproduções de capas do jornal, cartazes, cartuns, filipetas, reportagens na imprensa graúda e da fachada do teatro, com pinturas que mudavam bimensalmente. O pioneiro mural do Lira virou atração à parte, num tempo em que grafites eram bichos estranhos na cidade. Edith Derdyk foi a primeira a expor sua criação ali. Riba só propôs uma condição: manter em todas as obras a silhueta de São Paulo, que fazia parte das logomarcas do Lira, e o poema de Oswald de Andrade, do qual surgiu o nome do teatro, "reproduzidos de maneira livre pelos artistas".

"Portal para o novo mundo", como definiu o jornalista e guitarrista Luiz Chagas, que prossegue tocando com a Isca de Polícia e na banda de sua filha, Tulipa Ruiz, o Lira inaugurou a gravadora com o clássico álbum de estreia de Itamar Assumpção, Beleléu (1980), e num período em que os compactos já não se vendiam mais, eles davam como brindes os disquinhos para quem comprasse ingressos para os shows dos artistas que lançavam, como Rumo, Premê e Língua de Trapo.

O jornal também marcou território fugindo do óbvio, "descobrindo e mostrando a outra cara da cidade". Numa época em que "computadores praticamente não existiam", foi a primeira publicação a ter um guia com eventos alternativos de São Paulo, dicas de bazares e até competições de bocha e comícios e reuniões de partidos políticos, com participação ativa na campanha das Diretas Já, em 1984. "Acostumados com a censura e também por comodismo, os segundos cadernos dos grandes jornais ou as editorias de cultura, arte e lazer das grandes revistas mostravam apenas a cidade que lhes interessava. Uma cidade oficialesca, bonita e acomodada”, lembra o autor. "Nas ruas a realidade era bem diferente."

Uma das edições mais marcantes foi a que dava adeus a Elis Regina (1945-1982). Enquanto a maioria explorava o lado sensacionalista da "tragédia da cocaína", o Lira estampou na capa uma foto em que ela aparecia com seu célebre sorriso e o título "Valeu, Elis". Essa imagem depois foi impressa em camisetas. "Acho que foi o último baluarte dos nossos sonhos", apontou o jornalista Apoenan Rodrigues. Como catalisador de tendências e liberdade de pensamento, o Lira Paulistana fez a diferença em todas as frentes de atuação.

LIRA PAULISTANA - UM DELÍRIO DE PORÃO

Autor: Riba de Castro Editora: Natura Musical (206 págs.,R$ 20)

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