Carlão Limeira/Estadão
Carlão Limeira/Estadão

Livro resgata histórias de 15 sambas-enredo do carnaval carioca

De 'Aquarela Brasileira' (1964) a 'Peguei um Ita no Norte (1993), jornalista narra os bastidores de sambas que ficaram na memória

Maria Fernanda Rodrigues, O Estado de S. Paulo

14 de fevereiro de 2015 | 03h00

Em 1993, o Salgueiro ainda não tinha entrado na Sapucaí e a arquibancada já entoava o refrão que viraria clássico: “Explode coração na maior felicidade. É lindo o meu Salgueiro contagiando, sacudindo essa cidade”. A interação do público com o samba-enredo foi o ponto alto daquele carnaval, e o jejum de 17 anos foi, enfim, quebrado. “O Salgueiro enlouquece a Sapucaí. Enlouquece é pouco”, dizia, na tevê, o comentarista Fernando Vanucci. Algo há muito tempo não visto. O contagiante refrão não foi escrito especialmente para Peguei um Ita no Norte, enredo inspirado na música de Dorival Caymmi sobre um migrante que deixa Belém rumo ao Rio de Janeiro. O famoso verso é de Demá, que tentou incluí-lo em sambas anteriores. Se antes ele não dava liga, em 1993 encaixou perfeitamente. Essa é uma das histórias contadas em O Enredo do Meu Samba (Record), que o jornalista Marcelo de Mello lança agora.

Mello era um menino de 11 anos quando assistiu a seu primeiro desfile na avenida (ainda a Presidente Vargas), em 1977, e não perdeu nenhum depois disso. Ele não vem de uma família de sambistas e como argumento para voltar nos anos seguintes, ele conta, usava seu aniversário, comemorado em fevereiro. Era seu presente. “Eu sempre me interessei, via pela televisão, gostava dos LPs, mas quando fui achei o espetáculo fascinante”, lembra o jornalista que desde 1993 é jurado do Estandarte de Ouro, do jornal O Globo. Sua dissertação de mestrado, em comunicação, foi sobre a Beija-Flor, sua escola. Com isso tudo, era natural que ele resgatasse as histórias por trás de 15 sambas-enredo que fazem parte do imaginário brasileiro - o tema de sua obra.

Muitos deles são de escolas que ganharam o carnaval. Outros entraram para a história mesmo derrotados. “Meu objetivo era a valorização do samba como parte de um espetáculo”, resume. Pesaram na escolha as histórias interessantes que eles trazem - como as circunstâncias de sua criação, os conflitos de interesse entre compositores e carnavalescos, o clima da época, o sentimento despertado na arquibancada pelo grande show. Para a sua pesquisa, ouviu os protagonistas da festa, viu e reviu vídeos de desfiles, consultou jornais, revistas e livros. Trata-se ainda de uma homenagem aos que fizeram o carnaval do Rio e um importante registro histórico. 

Aquarela Brasileira, samba da Império Serrano que seria regravado por nomes como Martinho da Vila, Elza Soares, Dudu Nobre e Zeca Pagodinho, injustiçado no carnaval de 1964, abre o volume. “Cinco décadas depois, ninguém tem dúvida quanto à barbaridade que foi aquele julgamento. Aquarela do Brasil é eterno, enquanto a música da Portela pode, sem polêmica, ser deixada de lado em antologias. Mais do que uma avaliação equivocada, foi um escândalo”, escreve Mello. O autor resgata reportagens da época para mostrar a indignação perante a escolha da Portela - num dos textos, José Carlos Rego diz que as escolas de samba mandariam seu protesto a Carlos Lacerda. Quatro décadas depois, a Império Serrano reeditou o samba de Silas de Oliveira. Não ganhou. Na verdade, perdeu pontos em todos os quesitos menos no de samba-enredo, enfim reconhecido.

A história que encerra o livro, organizado em ordem cronológica, é a do Salgueiro. A obra cobre três décadas de carnaval, mas não se restringe apenas ao ano em que os sambas foram interpretados. O autor volta e avança no tempo para dar conta do contexto. No caso do Salgueiro, Mello comenta que as sucessivas tentativas de emplacar um novo refrão forte tornaram a escola musicalmente mais pobre: “O Salgueiro abriu mão da ambição de apresentar grandes melodias e letras bem construídas para investir em algo que empolgasse a arquibancada. Só que não conseguiu nem uma coisa nem outra. A tendência chegou ao ponto de passarem a acusar a vitória de 1993 de ter sido um mal a longo prazo”.

Mello não para em 1993 porque não foi feito nada de bom depois disso. Ele considera 20 anos um bom prazo para saber se o samba entrará para a história - muitas vezes, não exatamente como uma lembrança de um desfile. Alguns versos foram apropriados, por exemplo, por torcidas e ultrapassaram as fronteiras nacionais. O autor comenta que uma variação de Pega no Ganzê, nome popular de Festa para Um Rei Negro, que rendeu ao Salgueiro o título de 1971, é cantado pela torcida do Barcelona. 

Para o autor, É Hoje foi um dos sambas mais universais cantados no carnaval carioca. Sua trajetória começou ali, no desfile da União da Ilha, em 1982, mas ganhou o mundo com a ajuda de Caetano Veloso e Fernanda Abreu: “É hoje o dia da alegria e a tristeza / Nem pode pensar em chegar”. Mello conta que na disputa pelo samba-enredo daquele ano, adversários diziam que havia contradição em usar “a minha alegria atravessou o mar e ancorou na passarela” e depois “eu vim descendo a serra, cheio de euforia para desfilar”. Este é só um exemplo, mas houve muita torcida contra, campanha para conquistar o apoio popular e até briga com garrafa voando no ar.

Do ano de 1989, Marcelo de Mello resgatou dois sambas: Festa Profana, da União da Ilha, e Liberdade, Liberdade, Abra as Asas Sobre Nós, da Imperatriz Leopoldinense, vencedora daquele carnaval. Festa Profana foi responsável pelo primeiro nu frontal - de Enoli Lara. Depois desse episódio, a Liga Independente das Escolas de Samba proibiu a “genitália desnudada”. No ano seguinte, lembra o jornalista, a Beija-Flor tentou driblar o regulamento com Jorge Lafond, e uma nova proibição foi imposta. Não podia ter “genitália decorada ou pintada”. O samba da União da Ilha, terceiro lugar naquele ano, teve outra história curiosa: a omissão da coautoria de José Franco Lattari. Se a diretoria soubesse que tinha dedo dele ali o samba assinado apenas por J. Brito e Bujão não teria sido escolhido. O autor cita também o Cristo mendigo da Beija-Flor, uma estátua coberta por sacos pretos com a faixa que dizia “Mesmo proibido olhai por nós”. A imagem é icônica, mas o samba que a acompanhou não pegou.

Do ano seguinte, destaque para E Deu a Louca no Barroco, da Mangueira, e para a força de Jamelão. A pressão do puxador então com 76 anos foi a 9 por 6 antes do desfile e ele chegou a afirmar que aquele seria seu último. Na avenida, ninguém dizia que ele tinha passado mal. E ele tampouco se aposentou.

Uma das histórias mais interessantes talvez seja a da Caprichosos de Pilares, que não levou o título em 1985, mas fez bonito e encontrou eco nos milhares de brasileiros que queriam enterrar a ditadura militar “E por Falar em Saudade resume bem aquela época. O enredo falava de uma saudade não representativa do passado, mas do que se vivia no presente”, explica o autor. Um trecho: “Diretamente, o povo escolhia o presidente / Se comia mais feijão / Vovó botava a poupança no colchão / Hoje está tudo mudado / Tem muita gente no lugar errado”. E pegou também pelo refrão, tido como de mau gosto e que ganhou várias versões, na avenida inclusive: “Tem bumbum de fora pra chuchu / Qualquer dia é todo mundo nu”.

O ENREDO DO MEU SAMBA - A HISTÓRIA DE QUINZE SAMBAS-ENREDO IMORTAIS

Autor: Marcelo de Mello

Editora: Record (308 págs., R$ 32)

Trechos dos sambas-enredo que estão no livro: 

Aquarela Brasileira

E o asfalto como passarela / Será a tela do Brasil em forma de aquarela (Império Serrano, 1964)

Festa para um Rei Negro

Ô Lelê / Ô Lalá / Pega no ganzê / Pega no ganzá (Salgueiro, 1971)

Os Sertões

Sertanejo é forte / Supera miséria sem fim / Sertanejo homem forte / Dizia o Poeta assim (Em Cima da Hora, 1976)

A criação do mundo na tradição nagô

Ela é rainha / Ele é rei e vem lutar (Ierê) / Iererê, ierê, ierê, ô ô ô ô / Travam um duelo de amor / E surge a vida com seu esplendor (Beija-Flor, 1978)

Das maravilhas do mar, fez-se o esplendor de uma noite

Amor, sorria, ô ô ô, um novo dia despertou / E lá vou eu, pela imensidão do mar / Nessa onda que corta a avenida de espuma, me arrasta a sambar (Portela, 1981)

O teu cabelo não nega (Só dá lalá)

Neste palco iluminado / Só dá lalá / És presente imortal / Só dá lalá / Nossa escola se encanta / O povão se agiganta / É dono do carnaval (Imperatriz Leopoldinense, 1981)

É Hoje

É hoje o dia da alegria e a tristeza / Nem pode pensar em chegar / Diga espelho meu! / Diga espelho meu / Se há na avenida alguém mais feliz que eu (União da Ilha, 1982)

Bum bum paticumbum prugurundum

Bumbum paticumbum prugurundum / O nosso samba minha gente é isso aí, é isso aí / Bumbum paticumbum prugurundum / Contagiando a Marquês de Sapucaí (Império Serrano, 1982)

Ziriguidum 2001

Desse mundo louco / De tudo um pouco / Eu vou levar pra 2001 / Avançar no tempo / E nas estrela fazer meu Ziriguidum (meu Ziriguidum) / Nos meus devaneios / Quero viajar (Mocidade Independente, 1985)

E por falar em saudade

Tem bumbum de fora pra chuchu / Qualquer dia é todo mundo nu (Caprichosos de Pilates, 1985)

Kizomba, festa da raça

Valeu Zumbi! / O grito forte dos Palmares / Que correu terras, céus e mares / Influenciando a abolição / Zumbi valeu! / Hoje a Vila é Kizomba / É batuque, canto e dança / Jongo e maracatu (Vila Isabel, 1988)

Festa Profana

Eu vou tomar um porre de felicidade / Vou sacudir, eu vou zoar toda cidade (Unidos da Ilha, 1989)

Liberdade, Liberdade, Abra as asas sobre nós

Liberdade, liberdade / Abra as asas sobre nós / E que a voz da igualdade / Seja sempre a nossa voz (Imperatriz, 1989)

E Deu a Louca no Barroco

Vai / Contar a história do infinito / Vai / Não haverá amanhecer (Mangueira, 1990)

Peguei Um Ita no Norte

Explode Coração / Na maior felicidade / É lindo o meu Salgueiro / Contagiando, sacudindo essa cidade (Salgueiro, 1993)

Tudo o que sabemos sobre:
CulturaLiteraturaCarnaval

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.