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Gabriel García Márquez e Mercedes são retratados no livro 'Gabo & Mercedes: Uma Despedida' Acervo Gabriel García Márquez

Gabriel García Márquez e Mercedes são retratados no livro 'Gabo & Mercedes: Uma Despedida' Acervo Gabriel García Márquez

Livro relata últimos dias de Gabriel García Márquez e sua dor pela perda de memória

Obra escrita pelo filho de Gabo, Rodrigo, mostra que os lapsos de memória foram uma pré-despedida

Imagem Ubiratan Brasil

Ubiratan Brasil , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Gabriel García Márquez e Mercedes são retratados no livro 'Gabo & Mercedes: Uma Despedida' Acervo Gabriel García Márquez

O sinal de alerta acendeu quando o cineasta Rodrigo García recebeu, em 2014, uma mensagem de sua mãe, Mercedes: “Desta, a gente não sai”. Ela relatava a provável consequência do resfriado que seu marido, o escritor colombiano Gabriel García Márquez, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura (1982), havia pegado. Então com 87 anos, o autor de Cem Anos de Solidão revelava uma fragilidade física e mental irreparável.

“Voei de Los Angeles, onde moro, para a Cidade do México, onde eles viviam, para acompanhar os derradeiros dias de meu pai”, conta Rodrigo ao Estadão, em conversa por Zoom. Ao longo do tortuoso período, ele tomou notas sobre os acontecimentos diários, registros que o ajudaram a escrever depois Gabo & Mercedes: Uma Despedida, livro que sai agora pela editora Record.

Em um primeiro momento, trata-se do delicado retrato de uma família que sofre com a perda de um ente querido. Mas a situação de Gabo (um dos apelidos do autor) despertava atenção mundial e, até sua morte, em 17 de abril de 2014, em consequência de uma pneumonia e infecção respiratória, o foco estava no que acontecia naquela casa na capital mexicana. “Acompanhávamos a cobertura da imprensa e buscávamos reconciliar a figura retratada com aquela com quem passei as últimas semanas, doente, morrendo, e que finalmente se transformou em cinzas guardadas em uma caixa. E também com o pai de minha infância, aquele que eventualmente se tornou meu filho e de meu irmão Gonzalo.”

Rodrigo começou a tomar notas para preservar detalhes dos acontecimentos daqueles dias. “Mas era algo pessoal, minha intenção era guardar as anotações para que minhas filhas e minhas sobrinhas soubessem, no futuro, como foi a despedida do avô”, conta Rodrigo que, tão logo retornou a Los Angeles após a morte de Gabo, passou a limpo seus rascunhos. “Eu queria reter o frescor das lembranças, temendo perder detalhes importantes.”

Inicialmente, não havia intenção de transformar as notas em livro. “Especialmente por causa da minha mãe, que não se sentia à vontade com a divulgação de histórias pessoais.”

Foi só depois da morte de Mercedes, em 2020, por problemas respiratórios provocados pelo tabagismo, que Rodrigo se sentiu encorajado a seguir com o projeto. “Mas decidi ampliar o foco e incluir minha mãe, pois eu não queria escrever um livro apenas sobre a morte de um pai famoso, mas sobre a despedida de ambos.”

Sociável

Gabo se casou com Mercedes Barcha em 1958 e, ao longo da carreira ascendente do escritor, aquela menina colombiana provinciana nascida na década de 1930 aos poucos se tornou uma mulher que se relacionava com naturalidade com presidentes e outras figuras internacionais. “Era uma pessoa gregária, sociável, mas também reservada. Fiquei satisfeito com os comentários de pessoas que a conheciam e a reconheceram no livro.”

A obra, portanto, traz um pouco da história de como morreram os dois fundadores do Clube dos Quatro, brincadeira familiar que incluía ainda os filhos Rodrigo e Gonzalo.

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Eu queria reter o frescor das lembranças, temendo perder detalhes importantes
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Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez

O livro é pleno de detalhes curiosos que, graças ao cuidado de Rodrigo, jamais resvalam na fofoca. Certamente um dos pontos altos é a percepção de Gabo de que estava perdendo a memória. “Meu pai tinha plena consciência disso, o que o angustiava muito pois dizia estar perdendo sua principal ferramenta de trabalho”, recorda-se Rodrigo que, com o tempo, não era mais reconhecido pelo pai, assim como seu irmão. “O preço de ver uma pessoa naquele estado de ansiedade e ter de tolerar suas intermináveis repetições é enorme.”

Acalmar

Rodrigo conta que era normal manter ao redor da cama do escritor pessoas conhecidas, como a secretária, o motorista, a cozinheira, que trabalhavam na casa havia anos. “Isso o acalmava”, diz. “Cada rasgo de memória era festejado, assim como detalhes insignificantes como ‘comeu bem’ ou ‘sorriu’.”

Doloridos mesmo foram alguns momentos em que Gabo não reconhecia Mercedes, que inicialmente reagia com raiva, inconformada com o olhar desconfiado lançado por ele. Ao mesmo tempo, havia humor, como o dia marcado pelas gargalhadas das diversas mulheres que cercavam o escritor depois de ouvir dele o comentário malicioso de que não conseguiria amar todas. “Escrevi uma carta de despedida”, reflete Rodrigo. “Não foi fácil, cheguei a entrar em pânico quando o livro estava para sair, mas precisava deixar esse registro.”

Em maio, e como parte das celebrações dos 40 anos da conquista do Nobel por Gabo, a Record vai lançar Diatribe de Amor Contra um Homem Sentado, a única peça escrita pelo autor colombiano, que traz o relato íntimo e sincero de uma mulher prestes a completar 25 anos de casada.

Também está prevista a publicação de Duas Solidões: Um Diálogo Sobre o Romance na América Latina, transcrição de uma conversa entre Gabo e o também vencedor do Nobel (2010) Mario Vargas Llosa, ocorrida em 1967, sobre literatura latino-americana, e também de García Márquez: História de um Deicídio, tese de doutorado de Llosa sobre a obra do colombiano - inicialmente amigos fraternos, eles romperam a relação em 1976, aparentemente por causa de uma fofoca envolvendo Patrícia, então mulher do peruano. Seja qual for o motivo, o rompimento foi marcado por um soco dado por Llosa no olho de Gabo. 

Trecho do livro 'Gabo & Mercedes: Uma Despedida'

Os momentos de demência de Gabo

Houve alguns meses muito difíceis, não faz tanto tempo, em que recordava sua esposa da vida inteira, mas achava que a mulher que estava na frente dele, garantindo que era ela, não passava de uma impostora.

“Por que essa mulher está aqui dando ordens e controlando a casa se não é nada minha?” A mãe reagia com raiva. “O que está acontecendo com você?”, perguntava com incredulidade. “Não é ele, mamãe. É a demência.” Ela me olhava como se eu tentasse enganá-la. Surpreendentemente, esse período passou, e na mente do meu pai ela recuperou o lugar que pertencia à minha mãe como sua acompanhante principal. 

Quando meu irmão e eu o visitamos, ele olha longa e vagarosamente para nós, com uma curiosidade desinibida. 

 

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Rodrigo García compartilha os segredos da despedida de García Márquez

O cineasta Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez e Mercedes Marcha, apresenta um retrato honesto e comovente dos últimos dias de seus pais em 'Gabo e Mercedes: um adeus'

Berenice Bautista, AP

07 de setembro de 2021 | 10h00

CIDADE DO MÉXICO - O cineasta Rodrigo García, filho de Gabriel García Márquez e Mercedes Barcha, apresenta um retrato honesto e comovente dos últimos dias de seus pais em Gabo e Mercedes: Um Adeus. A crônica, publicada em espanhol pela Penguin Random House, é uma espécie de fechamento emocional que os leitores de García Márquez podem não ter pedido, mas vão achar que precisavam. Se a morte de um pai é sempre difícil, a morte de um escritor ganhador do Prêmio Nobel envolve preparativos e um número impressionante de pessoas, como García deixa claro.

“Li o máximo de versões que pude, cada jornal enfatizando diferentes aspectos de sua vida ou realizações. Mais uma vez, eu luto para reconciliar esta pessoa na imprensa com aquela com quem passei as últimas semanas, doente, morrendo, e que finalmente se transformou em cinzas guardadas em uma caixa. E com o pai de minha infância, aquele que eventualmente se tornou meu filho e de meu irmão Gonzalo”, escreve García. 

O autor chegou a sentir um pouco de culpa, pois não queria escrever algo que traísse a vida de sua família. Inicialmente, ele não tinha certeza se iria publicá-lo ou como ficaria o resultado final. Ele também não se sentia à vontade para publicar enquanto sua mãe estivesse viva e poderia ler a obra. “Não porque houvesse alguma fofoca lá, mas, em última instância, trata-se de uma história pessoal”, disse ele.

Foi somente quando sua mãe morreu no ano passado, de problemas respiratórios provocados pelo tabagismo, que ele percebeu o que estava interessado em contar: o adeus de ambos os pais, pois sua família tinha sido, junto com seu irmão Gonzalo, um "Clube dos Quatro". O restante de seus parentes vivia na Colômbia: "É um pouco a história de como morreram os dois fundadores do Club de los Cuatro", disse García. “Eu não queria fazer um livro sobre a morte do famoso pai, mas queria escrever algo sobre a despedida de ambos". 

García Márquez casou-se com Barcha em 1958 e, ao contrário de outros autores de sua geração, como Octavio Paz, Carlos Fuentes ou Mario Vargas Llosa, ele ficou com sua primeira esposa. García observou que sua mãe "necessitava ter força" para a vida que levavam, mas conseguiu florescer de uma menina colombiana provinciana nascida na década de 1930 até se tornar alguém que se relacionava com naturalidade com presidentes e outras figuras internacionais, como se viu no funeral do autor.

“O mundo de meu pai era complicado: sucesso, fama, viagens e responsabilidades. E Mercedes foi em grande parte a controladora de tudo isso”, disse Rodrigo. “Ele viajou muito... A jornada foi enorme e Mercedes até se sentia confortável em contato com pessoas mundialmente conhecidas”.

Em sua história, Rodrigo também discute a perda de memória que García Márquez sofreu anos antes de morrer, em 17 de abril de 2014, o que lhe causou muita dor, pois sabia que estava ficando sem a "matéria-prima" de suas histórias: “Meu pai tinha plena consciência de que sua memória estava se apagando. O preço de ver uma pessoa naquele estado de ansiedade e ter que tolerar suas intermináveis repetições indefinidamente é enorme”, escreve, no livro. “Já tivemos uma espécie de pré-despedida com sua perda de memória. Ao final, felizmente, ele já não sofria mais com a consciência de perda (de memória).” 

Mas, se algo estava claro para García Márquez, era que ele queria passar seus últimos dias no México, país para o qual emigrou na década de 1960 e onde escreveu sua obra-prima Cem Anos de Solidão.

“Ele sempre gostou do México, onde se sentiu muito confortável. O México estava mais calmo que a Colômbia”, disse Rodrigo. “No final, ele estava onde se sentia bem, que era a casa no México, onde passava mais tempo.” 

Como em qualquer funeral latino-americano, o humor do livro não poderia estar ausente. Há momentos em que Rodrigo lembra os acontecimentos de seu pai e observa com leveza esses últimos momentos de sua vida compartilhados com a família e amigos. “É definitivamente muito latino-americano pensar que vai ser enterrado ou que vai ficar reduzido a um quilo e meio de cinzas, são coisas tão absurdas que você tem que rir um pouco, não se pode levar tudo a sério.

Rodrigo, que desenvolveu uma carreira como cineasta em Los Angeles com filmes como Four Good Days (2020) e Questão de Vida (2005), inclui algumas fotos de família: do casamento de seus pais, o funeral, e uma bela imagem de uma oferenda do Dia dos Mortos dedicada a seus pais. 

O autor também gravou a versão audiobook de Gabo y Mercedes. Rodrigo conta que seu pai lhe disse que, fosse o que escrevesse, tinha que ser bom. Ao produzir o livro, disse ele, estava ciente de que não seria difícil publicá-lo porque se tratava de García Márquez, mas que havia se esforçado para torná-lo o melhor possível, ao mesmo tempo em que reconcilia a figura pública com a paterna.

“Esse foi um processo que durou toda a vida, talvez mais ainda à medida em que ele se tornava mais famoso”, disse. “Eram pessoas simples, mas tinham que desempenhar diferentes papéis.”

Agora, como guardião do legado de seu pai junto com seu irmão Gonzalo, Rodrigo não se sente sobrecarregado. “O nome e o trabalho de Gabo estão definitivamente estabelecidos”, observa. “Há muito ainda que crescer, encontrando novas etapas. Agora, um de seus maiores e mais poderosos grupos de leitores está na China.” 

Outro caminho para onde o universo de García Márquez irá trilhar é o campo do streaming. Uma adaptação de Cem Anos de Solidão deve ser adaptada pela Netflix como minissérie – atualmente está em pré-produção, e ainda não sem data de lançamento.

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Livro constrói divertida biografia oral de Gabriel García Márquez pelos amigos

'Solidão e Companhia', de Silvana Paternostro, reúne conjunto de vozes que busca construir perfil de Gabo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

03 de abril de 2021 | 05h00

Em 2001, a escritora colombiana Silvana Paternostro foi convidada por uma revista americana para escrever uma história oral de Gabriel García Márquez (1927-2014). Nada muito grande, mas, mesmo assim, ela teve uma boa ideia: em vez de ouvir o que celebridades tinham a dizer sobre Gabo, preferia conversar com aqueles que o conheceram antes de se tornar um premiado escritor – amigos, familiares, jornalistas e, principalmente, os personagens que aparecem em Cem Anos de Solidão

Silvana gravou 24 fitas de conversas, na Colômbia e no México, até saber que o artigo não mais sairia. Guardou o material até que, em 2010, decidiu transformá-lo na base de um livro. Reouviu as conversas, deu boas risadas, mas percebeu que precisava fazer mais entrevistas para preencher algumas lacunas. Voltou a campo e, com um farto material, construiu Solidão e Companhia, delicioso conjunto de vozes que, como num quebra-cabeça, busca construir o perfil de Gabo. O livro sai nesta semana pela Editora Planeta do Brasil, em seu selo Crítica.

Como bem define a autora, a obra é como uma festa em que os convidados falam sobre o anfitrião ausente, mentindo, exagerando, elogiando, fofocando. Todos trazendo histórias que, verídicas ou não, são originais. Solidão e Companhia (o título se refere a uma produtora de filmes que García Márquez desejava montar) se divide em duas partes – na primeira, A.C. (Antes de Cem Anos de Solidão), falam seus irmãos, assim como os amigos antes de ele se tornar o ícone latino-americano admirado internacionalmente. “Essa primeira parte reúne as vozes daqueles momentos irreverentes e esperançosos nos quais um menino provinciano decidiu se tornar escritor”, conta ela, lembrando que, para todos, ele era Gabito, jovem obstinado que sabia que o catatau que sempre carregava debaixo do braço se transformaria em algo muito importante.

E na segunda parte, D.C. (Depois de Cem Anos), surge um García Márquez premiado, um homem célebre. Nesse momento, Silvana abre exceções e libera a voz para escritores conhecidos, como o argentino Tomás Eloy Martínez e William Styron, somente porque trouxeram contribuições valiosas. Martínez, por exemplo, disse que, para ser amigo de Gabo, nunca se deve escrever sobre ele. Para ser mais claro nessa relação de confiança, o argentino lembrou de uma história de quando Gabo vivia em Paris, jovem e pobre.

“Ele viu Ernest Hemingway em um parque. Em vez de se aproximar e puxar conversa, decidiu gritar o nome dele do outro lado da pequena praça, levantar a mão e sinalizar com um gesto quanto o respeitava. Entendi o medo que sentia, pois é muito difícil se deixar ser tentado pela proximidade.”

Apesar da grande profusão de personagens, quase todos desconhecidos para o leitor brasileiro, o que valem são as histórias – é preciso lembrar que Gabriel García Márquez sempre se inspirou em histórias e personagens com quem conviveu. Como seu avô materno, coronel Nicolás Márquez, veterano da Guerra dos Mil Dias e com quem Gabito viveu os primeiros oito anos de vida.

Eram apaixonados um pelo outro. O avô comemorava o aniversário do neto todos os meses, a fim de lhe fazer festa e lhe dar presentes. Margot, irmã de Gabito, também vivia ali, em Aracataca, assim como uma tia, Mama, mulher solteira e de personalidade forte. “Era ela quem guardava as chaves da igreja e as do cemitério. Um dia, vieram pedir as chaves do cemitério porque tinham de enterrar um morto. Tia Mama foi procurar as chaves, mas começou a fazer outra coisa e esqueceu-se delas. Cerca de duas horas depois ela se lembrou, e o morto teve de esperar até que ela aparecesse com as benditas chaves. Ninguém se atreveu a lhe dizer nada”, conta ela.

As histórias de família povoaram a imaginação de Gabito, inspirando sua escrita. E sua vida mudou com o Nobel de Literatura em 1982 – a notícia chegou quando ainda era madrugada na Cidade do México, onde então morava. Os amigos iam chegando e encontraram Mercedes, mulher do escritor, com todos os telefones fora do gancho. O assédio que se tornaria corriqueiro já começara.

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Filme narra trajetória do escritor colombiano Gabriel García Márquez

Vencedor do prêmio Nobel de Literatura, autor foi dono de personalidade multifacetada e, por vezes, contraditória

Luiz Zanin Oricchio, O Estado de S.Paulo

08 de janeiro de 2021 | 05h00

Gabo: a Criação de Gabriel García Márquez, de Justin Webster (disponível na Netflix), pode ter um título meio óbvio. Mas descreve, à perfeição, a proposta do Justin Webster, uma tentativa de entender a estranha história do menino nascido na pobreza de um lugarejo colombiano e que se torna um gênio da literatura. 

Gabriel nasce em 1927, em Aracataca, o mais velho de 11 irmãos. Foi criado pelos avós, pois os pais haviam se mudado para Barranquilla. Em dificuldades financeiras, não puderam levar o filho. Gabo cresceu ouvindo as histórias de guerra do avô e as narrativas místicas da avó. Como sabem os leitores, são esses relatos as fontes de construção de seu romance mais famoso, Cem Anos de Solidão. E de outros livros também, como Ninguém Escreve ao Coronel, que Gabo, contrariando a crítica, considera sua obra-prima.

Se o realismo fantástico define Cem Anos de Solidão, em que a Aracataca dos avós se transforma na mítica Macondo, a realidade comparece com mais força quando Gabo deseja falar de seus pais. É assim no comovente O Amor nos Tempos do Cólera. “Quando falo do amor entre os dois, não há nenhuma ficção. Eu procuro apenas descrever os fatos como eles se passaram e como eles mesmos me contaram, depois de muita hesitação”, diz o escritor em uma das inúmeras entrevistas incluídas no filme. 

Colhendo depoimentos entre contemporâneos, amigos, ex-mulheres e conhecidos do escritor, Webster refaz os traços dessa trajetória acidentada e multifacetada. Gabo iniciou a vida como jornalista em Cartagena das Índias e depois se mudou para Bogotá em busca de trabalho. Foi um grande repórter e nunca abandonou de fato o métier. Pelo contrário, chamava o jornalismo de “a profissão mais linda do mundo”. Trabalhou na cubana Prensa Latina, foi correspondente na Europa e, mais tarde, já consagrado, criou a Fundação do Novo Jornalismo Latino-americano para estimular e formar novos talentos. 

O vício do jornalismo estava em seu coração. Porém, dividido com a literatura. Quando conseguiu fundir a objetividade jornalística com os tons narrativos da avó Tranquilina e do avô Nicolás Márquez Mejía, deu forma ao realismo mágico, pedra de toque do chamado boom da literatura latino-americana.

Um dos principais depoentes do livro é Gerald Martin, britânico, autor da biografia considerada definitiva do escritor – Gabriel García Márquez – Uma Vida (Ediouro). Martin ajuda a retraçar os pontos principais dessa vida agitada, da Aracataca natal aos périplos pelo mundo. Do ativismo literário ao engajamento político, com a polêmica amizade com Fidel Castro e seu apoio incondicional a Cuba, mesmo no clima pesado da Guerra Fria.

Se os depoimentos ajudam a reconstruir essa personalidade multifacetada, e por vezes contraditória, seus pontos mais luminosos vêm das palavras do próprio escritor. Gabo fala coisas sérias, mas temperadas por seu conhecido senso de humor. Por exemplo, conta como ele, “costeño”, do multicolorido Caribe, estranhou a capital Bogotá quando para lá se mudou. “Fazia frio, os homens todos vestidos de preto, da cabeça aos pés, e nenhuma mulher na rua!”, espanta-se. Cheio de graça, também, quando recebe o Nobel e vai a Estocolmo recebê-lo. A uma repórter que pergunta se aquele é o dia mais importante de sua vida, responde: “Que nada. O dia mais importante da minha vida foi aquele em que nasci”. 

Mais tensos são os momentos em que se relembram os problemas com a revolução cubana. Escritores, mesmo amigos de Cuba, censuravam a perseguição a intelectuais como Heberto Padilla, e encaminharam uma carta de protesto a Fidel. Todos assinaram, mas Gabo não foi localizado. Assim, seu amigo de juventude, o também escritor Plínio Apuleyo Mendoza, resolveu assinar em seu nome (“Afinal, eram nossos princípios comuns sobre liberdade de expressão que estavam em jogo”, diz). Mas García Márquez o desautorizou. 

Ele mesmo se justifica dizendo que, ao manter aberto o canal de diálogo com Fidel, poderia ajudar muito mais os perseguidos políticos do que assinando manifestos contra o regime. São os bastidores da política, menos nobres que o ofício de escrever, mas centrais para uma geração que pensava politicamente, como aquela do boom literário latino-americano. 

O fato é que Gabo sentia fascínio pelas figuras de poder, dizem os amigos, bastando citar como exemplo outro de seus livros, O Outono do Patriarca. E, de fato, ele tinha amigos não apenas entre os revolucionários de Cuba, mas, surpreendentemente, privava da intimidade de Bill Clinton. Este aparece várias vezes no documentário. Diz-se fã da literatura de Gabo e fascinado por Cem Anos de Solidão. Clinton conta que, ao receber um exemplar de Notícias de Um Sequestro, cancelou todos os compromissos da tarde para devorar o livro na privacidade do Salão Oval da Casa Branca. 

Essa proximidade entre poderosos deixou Gabo a um passo do que seria uma façanha, levantar o bloqueio econômico dos Estados Unidos a Cuba. Era ele quem servia de intermediário entre Fidel e Clinton. O próprio ex-presidente norte-americano admite que o fim do bloqueio esteve por um fio. Mas, por fim, o Congresso interveio e nada de prático pôde ser feito. As tramas da política às vezes são mais enredadas que as do realismo fantástico. 

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Livro com textos jornalísticos de Gabriel García Márquez revela devoção à imprensa

'Escândalo do Século' é seleção de 50 artigos, publicados entre 1950 e 1984, que a editora Record lança até o fim de junho

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de junho de 2020 | 05h00

Primogênito de uma família de 11 filhos, o escritor Gabriel García Márquez (1927-2014) era, entre todos, o menos loquaz – enquanto os demais se expressavam com facilidade, Gabo, como era conhecido, preferia escutar e sorrir. “Mas, quando ele falava, era o momento de todos ouvirem com atenção porque Gabriel resumia em três palavras o que nós diríamos em mil”, relembrou, certa vez, Jaime, o irmão caçula. “Ele gostava mesmo era de escrever: por meio de seus livros, Gabriel passava um entendimento do mundo e dos sentimentos que lhe colocavam como um verdadeiro gênio.”

E, se a consagração internacional (além do prêmio Nobel de Literatura de 1982) foi conquistada pelo valor de sua literatura, García Márquez se dizia, acima de tudo, um jornalista. “Não quero ser lembrado pelo romance Cem Anos de Solidão, nem pelo Nobel, mas pelo jornalismo”, dizia ele, que entendia tal atividade como “uma necessidade biológica da humanidade”.

 

 

Uma prova dessa profissão de fé à imprensa pode ser encontrada em O Escândalo do Século, seleção de 50 artigos, publicados entre 1950 e 1984, e que a editora Record lança até o fim de junho. Trata-se de um conjunto de textos escolhidos entre os que a própria Record editou em 2006, distribuídos em cinco volumes. Dessa vez, o garimpo foi feito pelo editor Cristóbal Pera e a edição contou com a introdução de outro grande jornalista, Jon Lee Anderson.

“Gabo foi jornalista; o jornalismo foi, de certo modo, seu primeiro amor, e, como todos os primeiros amores, o mais duradouro”, escreve Anderson. “Foi essa profissão que lhe deu as bases para se tornar escritor, coisa de que ele sempre se lembrou; sua admiração pelo jornalismo chegou ao ponto de levá-lo a proclamar, em algum momento, com sua característica generosidade, que esse era ‘o melhor ofício do mundo’.”

García Márquez, de fato, construiu uma bem nutrida trajetória na imprensa, escrevendo sobre temas áridos, como política e economia, além de críticas cinematográficas e comentários sobre o trabalho de colegas ilustres. A estreia aconteceu justamente em 21 de maio de 1948, quando iniciou a coluna Punto y Aparte, no jornal El Universal, de Cartagena. Já nessas linhas, o autor colombiano ensaia o formato de escrita que o tornaria famoso como romancista. 

Foi em 1950, aliás, que ele se conscientizou de qual caminho deveria seguir para se consagrar como um grande escritor. Não houve visões repentinas nem mudanças súbitas de estado de espírito – Márquez apenas voltou à terra de infância, onde, em meio às fortes lembranças, descobriu a força de sua escrita. Colaborou, ainda, o contato com seus mestres de ofício no jornal El Heraldo, para o qual se transferiu, e também seu grupo intelectual em Barranquilla.

O Escândalo do Século, portanto, começa com a escrita de um colombiano jovem e boêmio, prestes a decolar como escritor, e segue até 1984, quando já é um autor maduro e consagrado. “É uma antologia que nos revela um escritor de escrita amena em suas origens, brincalhão e desinibido, cujo jornalismo pouco se distingue de sua ficção”, observa Anderson. “Em Tema para um Tema, por exemplo, ele escreve sobre a dificuldade de encontrar um assunto apropriado para começar um artigo. ‘Há quem transforme a falta de tema em tema para um artigo de jornal’, diz.

 

 

Para deleite de seus leitores mais fiéis, há textos que trazem pistas sobre sua ficção – é o caso de A Casa dos Buendía (Anotações para um Romance), que oferece trechos encantadores como esse: “Quando Aureliano Buendía voltou ao povoado, a guerra civil havia terminado. Talvez não restasse ao novo coronel nada que lembrasse a áspera peregrinagem. Restavam-lhe apenas o título militar e uma vaga inconsciência de seu desastre. Mas lhe restava também a metade da morte do último Buendía e uma ração inteira contra a fome. Restavam-lhe a nostalgia da vida doméstica e o desejo de ser dono de uma casa tranquila, aconchegante, sem guerra, que tivesse um portal alto para receber o sol e uma rede no quintal, estendida entre duas forquilhas”.

“Os leitores de sua ficção encontrarão em muitos desses textos uma voz reconhecível, a formação dessa voz narrativa por meio de seu trabalho jornalístico”, atesta Cristóbal Pera. “Como afirma Jacques Gilard, ‘o jornalismo de García Márquez foi principalmente uma escola de estilo e constituiu o aprendizado de uma retórica original’.”

Na década de 1950, Gabo acompanhou incidentes locais para escrever reportagens investigativas – não meramente informativas, mas com uma estrutura que vai além de apenas enumerar fatos. Um traço marcante dessas reportagens é o sutil desvio de interpretação oferecido pelo escritor – se é rigoroso com os dados, apresentando milimetricamente todos os detalhes da história, ou se, por outro lado, lança mão de metáforas, García Márquez apresenta uma leitura variada dos fatos. Cada informação, comprovada ou não, conquista uma parcela de verdade.

É de tirar o fôlego, por exemplo, a leitura do longo texto que dá título ao livro, O Escândalo do Século: trata-se de um compilado de crônicas publicadas entre 17 e 30 de setembro de 1955, no El Espectador, de Bogotá. Ali, García Márquez detalha, com precisão cirúrgica, o caso de Wilma Montesi, jovem de 21 anos, filha de um carpinteiro em Roma, que foi encontrada morta, por afogamento – evidências indicavam assassinato e envolviam o filho do chanceler italiano.

García Márquez acompanhou todos os fatos, foi em busca de minúcias, ciente de que estava diante de uma grande história. Como Truman Capote fizera na exaustiva pesquisa para A Sangue Frio (ele jurava ter feito investigações em mais de 8 mil páginas), García Márquez não despreza nenhuma informação e dialoga com a exatidão obsessiva. O título traz o exagero que tende à literatura e o subtítulo é uma pérola: “Morta, Wilma Montesi passeia pelo mundo”.

“Como leitor e editor de García Márquez, escolhi textos em que se mostre latente essa tensão narrativa entre jornalismo e literatura, em que as costuras da realidade se estendam por seu incontrolável impulso narrativo, oferecendo aos leitores a possibilidade de desfrutar uma vez mais do ‘contador de histórias’ que foi García Márquez”, observa Cristóbal Pera.

E há outros exemplos desse estilo, como observa Anderson: “Caracas Sem Água e Só 12 Horas para Salvá-lo são clássicos do emergente estilo jornalístico de Gabo, no qual a narração, reconstrução minuciosa de dramas da vida real, é veiculada em tom de suspense, às vezes quase hitchcockiano, e com um desenlace que só se revela no fim”.

A editora Record pretende lançar ainda outra obra de Gabriel García Márquez, Maria dos Prazeres e Outros Contos, seleção de seis histórias curtas ilustradas, prevista para agosto.

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O que levou 'Cem Anos de Solidão' a ser sucesso mundial

No 50º aniversário da obra, pesquisador diz que Gabriel García Márquez transcendeu estilos e conquistou público; ele prepara o livro 'Ascensão Para a Glória: A Transformação de Cem Anos de Solidão em um Clássico Global'

Alex Segura Lozano, EFE

05 de junho de 2017 | 06h00

A publicação de Cem Anos de Solidão, há 50 anos, foi cercada de uma série de conjunturas favoráveis que permitiram à obra atingir o Olimpo literário e ser considerada uma das mais importantes do século 20 

Em 5 de junho de 1967 a editora argentina Editorial Sudamerica publicou o livro que acabara de ser impresso em 30 de maio, de um autor colombiano residente no México pouco conhecido e que transformou o povoado fictício de Macondo em um lugar mágico para milhões de leitores do romance.

“No momento da sua publicação, uma coincidência de fatos  aplanaram o terreno para o futuro sucesso mundial desta grande obra” disse o pesquisador espanhol Álvaro Santana, que passou oito anos estudando o romance e no final do ano publicará seu livro Ascensão Para a Glória: A Transformação de Cem Anos de Solidão em um Clássico Global”.

Segundo Santana, doutor em sociologia pela Universidade de Harvard e pesquisador convidado do Harry Ransom Center de Austin, Texas, (que abriga o arquivo documentando a vida e a obra do escritor), a combinação de vários fatores no momento em que nasceu a obra foram determinantes para seu sucesso imediato.

Em1967 a indústria editorial espanhola alcançou seu auge em uma década, depois que, cinco anos antes, o ditador Francisco Franco abrandou a censura e abriu as portas para a publicação de grandes autores hispano-americanos, como Carlos Fuentes, Mario Vargas Llosa e José Donoso.

Além disso, em meados da década de 60 observou-se uma retração dos grandes estilos literários predominantes até então, incluindo o indigenismo latino-americano, considerado por demais regionalista, o realismo social espanhol, visto como previsível e dotado de uma linguagem austera, e o novo romance francês, criticado pelo tipo de prosa excêntrica. 

Leia também: TV - 'Caderno 2' faz homenagem a 'Cem Anos de Solidão'

Para o pesquisador, Gabo, como García Márquez era conhecido, criou uma narrativa em Cem Anos de Solidão que transcendia esses três estilos ao mesmo tempo, o que permitiu que diferentes públicos fossem unânimes em exaltar a originalidade da sua obra.

Na América Latina ela foi vista como um romance cosmopolita que se afastava do regionalismo indigenista; na Espanha o livro foi considerado um vulcão linguístico e pura fantasia, longe do austero linguajar do realismo social, e os leitores internacionais apreciaram a volta da narrativa mais clássica no romance, diferente do movimento francês.

Por último, também em 1967 o guatemalteco Miguel Ángel Asturias tornou-se o segundo autor latino-americano a receber o Prêmio Nobel de Literatura, depois de Gabriela Mistral (1945).

“Então, o que estava na vanguarda era o romance hispano-americano e Cem Anos de Solidão foi o grande best-seller em 1967 na América Latina, afirma Santana, que também é professor assistente no Withman College, no Estado de Washington.

Todos esses fatores prepararam o terreno para o rápido êxito do livro de García Márquez, que, se publicado dez ou vinte anos antes, “não teria alcançado tamanho sucesso de vendas” quando foi publicado, afirmou o pesquisador.

Era um trabalho de um autor “muito pouco conhecido” fora dos círculos literários da Argentina, Colômbia e México, que vivia em uma nação que não era a sua, e cujo país, a Colômbia, não tinha reputação literária internacional, e que narrava uma história muito complexa, repleta de personagens.

A pesquisa feita por Santana também focou na descoberta de sete capítulos esquecidos do livro, episódios soltos que o autor publicou para sondar o público antes de concluir o romance.    

García Márquez publicou esses sete capítulos, que representam mais de um terço do romance, em jornais e revistas que circulavam em mais de vinte países, para avaliar a reação dos leitores e assim aperfeiçoar seu relato, promover o livro e dissipar suas dúvidas quanto à qualidade do texto.

Esses sete capítulos caíram no esquecimento porque se acreditava serem idênticos aos publicados na primeira edição de 1967. Mas não foi o que ocorreu: desde a primeira página há mudanças na linguagem, na estrutura, na ambientação e descrição dos personagens.

“Por isto esses capítulos esquecidos são de um grande valor literário para entendermos como foi escrito o romance”, disse o pesquisador, para quem o perfeccionismo de García Márquez como escritor foi o que mais o impressionou nos seus anos de pesquisa.

Tradução de Terezinha Martino 

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'Caderno 2' faz homenagem a 'Cem anos de Solidão'

Ministro Paulo Bernardo diz ter levado 'bronca' por admitir possibilidade de subsidiar as operadoras pelo serviço

Karla Mendes / BRASÍLIA, O Estado de S.Paulo

21 de abril de 2011 | 00h00

Além de ser irreversível a decisão do governo de exigir das operadoras de telefonia uma oferta de banda larga com velocidade mínima de 1 megabit por segundo a R$ 35 (com impostos e R$ 29,80 sem impostos), a presidente Dilma Rousseff quer que as empresas apresentem um plano de ação para elevar a velocidade do serviço até 2014. A informação foi dada ontem pelo ministro das Comunicações, Paulo Bernardo, depois de uma reunião com a presidente.

"Precisamos oferecer ao consumidor brasileiro a melhor internet que temos condição hoje", ressaltou Bernardo. Para isso, a presidente quer a atuação das empresas em duas frentes: uma focada nos movimentos de popularização do serviço e outra nos investimentos de infraestrutura para suportar o aumento da velocidade.

Sobre a possibilidade de se fazer um acerto de contas para cobrir possíveis déficits das empresas na implantação do serviço, o ministro disse que levou "uma bronca" da presidente, que quer que o ministério endureça as negociações com as empresas. "Não está ok. Ela me deu uma bronca danada. Temos que aprimorar os termos da negociação", declarou, referindo-se ao anúncio feito por ele na semana passada de que o governo poderia fazer um "encontro de compras" caso as empresas comprovassem que a oferta de banda larga de 1 mega a R$ 35 é deficitária.

A presidente quer que as empresas aumentem para 1 mega a velocidade da oferta de internet para o Plano Nacional de Banda Larga. Até então, a velocidade máxima proposta pelas empresas foi de 600 Kbps.

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