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Livro refaz trajetória de Cásper Líbero

Jornalista é lembrado por reerguer ‘A Gazeta’ e pelo talento para o marketing ao realizar a 1ª transmissão ao vivo de futebol

Ubiratan Brasil, O Estado de S. Paulo

05 de dezembro de 2019 | 07h00

Quando era diretor de jornalismo da TV Gazeta, emissora da Fundação Cásper Líbero, o jornalista Dácio Nitrini percebeu que havia, mesmo entre alunos e professores da faculdade de jornalismo, pouquíssimo conhecimento sobre o homem que fundara a escola e hoje empresta seu nome à fundação. Assim, iniciou uma pesquisa pessoal que resultou no livro Cásper Líbero, Jornalista Que Fez Escola (Editora Terceiro Nome), que será lançado nesta quinta-feira, 5, na Livraria da Vila do Shopping Pátio Higienópolis.

É, de fato, um personagem fascinante - Cásper Líbero (1889-1943) foi um raro tipo de jornalista, aquele que não apenas contribui para a evolução da imprensa como também se tornava notícia. Foi diretor do jornal A Gazeta, uma das mais importantes publicações da primeira metade do século passado e ainda fundou A Gazeta Esportiva, pela qual promoveu dois eventos esportivos, hoje tradicionais na cidade: a Prova 9 de Julho, de ciclismo, e a Corrida de São Silvestre. 

Para recriar os passos do jornalista, Nitrini pesquisou em antigas publicações na Biblioteca Nacional, no Arquivo Público do Estado e em livros de memórias de contemporâneos de Cásper Líbero que encontrou em sebos - apesar de renomada, a trajetória de Líbero não havia recebido ainda uma biografia. Daí a necessidade de se fazer um criterioso trabalho de reconstituição de um personagem cujo nome é conhecido, ao contrário de sua vivência. Nitrini apoiou-se em páginas de jornais da época, documentos e fotografias sobre a vida do empresário que começou a carreira como repórter policial em 1910 e, apenas oito anos depois, comprou o jornal quase falido no qual trabalhava.

Filho de uma família que comemorou a queda da monarquia e a partida da família real para a Europa, Cásper Líbero nasceu em Bragança Paulista, em 2 de março de 1889, portanto, um período tenso da política nacional, entre a Abolição da Escravatura e a Proclamação da República. Caçula, não seguiu a carreira médica do pai com seus dois irmãos, optando pelo Direito da Faculdade do Largo São Francisco. A convivência com a intelectualidade logo o aproximou de jornalistas, o que o deixou interessado nessa função.

“Contemporâneos descreveram nosso então jovem jornalista em seus livros de memórias como alguém que hoje seria identificado como ‘animal político’. Uma pessoa simpática que, além de inteligente, marcava pela inquietude, persistência, ousadia e vaidade. Um conjunto de características que potencializava seu carisma, dando-lhe grande habilidade e confiança para se aproximar e conquistar quem fosse de seu interesse”, escreve Nitrini.

Quando Líbero começou na profissão na Gazeta, contratado pelo fundador, o poeta Adolfo Araújo, mal sabia o jovem repórter que, oito anos depois, estaria comprando aquele mesmo jornal que, depois de um período de glória, estava ameaçado de fechar.

Antes disso, Líbero teve uma passagem pelo Rio, onde ajudou a fundar o jornal Última Hora e participou brevemente do escritório paulistano de uma agência de divulgação de notícias sobre o café, fundada por Olavo Bilac. Com esse currículo, Líbero foi contratado para fazer reportagens no Estado, graças ao bom nome conquistado no meio jornalístico. No jornal, então um dos maiores do País, ele conquista um importante cargo. “Depois de várias reportagens, Julio (Mesquita, diretor do ‘Estado’) o promove a diretor da pioneira sucursal do Rio de Janeiro, cidade onde sua recente passagem lhe havia permitido conhecer os escaninhos do poder”, anota Nitrini.

Foi nesse período carioca que Cásper Líbero viveu um dos momentos mais misteriosos de sua vida: quando conheceu a francesa Marguerite Augustine Leboucher, com quem viveu por 18 anos. Separada de seu marido, o economista Eugenio Gudin Filho, a misteriosa Maggy despertava a atenção das colunas sociais, interessadas em descobrir quem seria seu novo companheiro. Depois de um certo mistério, ela e o jornalista começaram a aparecer em fotos publicadas naquelas colunas.

Já diretor de A Gazeta, Cásper Líbero inicia a disputa pela primazia da imprensa paulista. “Cásper, com sua Gazeta, e Mesquita, com O Estado de S.Paulo, se conheciam do meio jornalístico desde 1914. Reuniam-se para definir estratégias políticas do PRP (Partido Republicano Paulista), participavam de eventos sociais na capital paulista, um pequeno universo com aproximadamente 500 mil habitantes”, continua ainda Nitrini. 

Ao vivo. Com raro olhar para o marketing, Líbero tomou atitudes inusitadas. Uma delas foi a de realizar a primeira transmissão ao vivo de futebol durante o Campeonato Sul-Americano em 1922, disputado no Rio. Ele mandou instalar uma espécie de caixa de som no alto do edifício em que ficava a sede do jornal, na Rua Líbero Badaró, o que atraía uma multidão de curiosos. Os equipamentos traziam a “locução” de Leopoldo Sant’Anna, que descrevia a partida lance a lance por meio de um telefone cujo som era amplificado por grandes cornetas instaladas no alto do edifício.

Na final, o Brasil venceu o Paraguai por 3 a 0 e conquistou o torneio. “Foi um delírio em São Paulo com a multidão de torcedores tomando toda a região do prédio da Gazeta, interrompendo o tráfego na Avenida São João”, observa Nitrini, no livro. “Jornalistas que prepararam a edição nesse dia falam em 200 mil exemplares vendidos em São Paulo, Campinas, Santos e cidades próximas. O sucesso permitiu a Cásper recomprar as ações de seu irmão Nelson e dos amigos Rodrigues Alves Filho e Júlio Prestes, companheiros do PRP, e, enfim, passou a ser o único proprietário do jornal”, lembra ainda o autor. 

Logo percebeu que esse tipo de ação contribuía para aumentar a tiragem da Gazeta. Assim, em 1925, criou uma das mais tradicionais provas de atletismo de rua do País - a Corrida Internacional de São Silvestre. Naquele ano, foram 62 atletas inscritos. Atualmente, a competição atrai cerca de 35 mil atletas de várias partes do mundo.

Se via os outros jornais como concorrentes, Líbero uniu-se a alguns deles (como o Estado) na Revolução Constitucionalista de 1932, reação paulistana ao governo provisório de Getúlio Vargas, comandante de uma revolução, dois anos antes, que tomou o poder. Foi durante essa fase combativa que o jornalista, em 1931, desafiou a censura ao publicar com destaque, na Gazeta, a íntegra do poema Minha Terra, Minha Pobre Terra, em que o jurista e escritor Ibrahim Nobre fez severas críticas a Vargas. O discurso alcançou grande repercussão pelo País, o que motivou Vargas a decretar a sua prisão.

O pragmatismo para manter a saúde financeira da Gazeta, porém, levou-o a aderir a Vargas, anos depois. Até sua morte prematura, em 1943, em um acidente de avião, Cásper Líbero revelou-se um modernizador tanto da estrutura gráfica e técnica como do conteúdo editorial e do estilo de redação das notícias. E, quando foi aberto seu testamento, uma nova surpresa: ele orientou que seus recursos fossem aplicados na criação de uma instituição, a Fundação Cásper Líbero, que deveria criar a primeira escola de jornalismo do Brasil, além de manter sua rádio e seu jornal e remunerar os principais funcionários com o lucro do empreendimento.

SERVIÇO: CÁSPER LÍBERO, JORNALISTA QUE FEZ ESCOLA. Autor: Dácio Nitrini. Edit.: Terceiro Nome (208 págs., R$ 46) Lançamento: 5ª (5), 19h. Livraria da Vila (Shopping Higienópolis).

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