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Livro reconstitui história de Jimi Hendrix com suas declarações e entrevistas

‘Autobiografia’ organizada por Peter Neal e Alan Douglas dá voz a um dos músicos mais fundamentais de todos os tempos

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2014 | 03h00

No final de 1965, esse jovem músico negro de Seattle vivia em Nova York, no Village, e suas posses se resumiam a uma guitarra e um amplificador – “e enquanto eu os tiver nenhum idiota pode me impedir de viver”. Na época, em meio a dificuldades financeiras que o obrigavam a dormir em albergues coabitados por ratos e baratas, ele encontrou um outro jovem músico de Minnesota que “também andava passando fome por lá”. “Num porre dos diabos, fora do ar de tanta cerveja. (...) Estávamos tão chapados que só ficamos lá rindo. É, apenas rindo.” Os dois? Jimi Hendrix e Bob Dylan.

O encontro é apenas uma das histórias contadas pelo próprio Hendrix em Jimi Hendrix Por Ele Mesmo, livro organizado por Peter Neal e Alan Douglas que a Zahar lança por aqui com tradução de Ivan Weisz Kuck. O livro é uma “autobiografia” de Hendrix lançada em 2013 na Inglaterra depois de quase 20 anos de problemas jurídicos entre os organizadores e o espólio de Hendrix.

Em 1990, Neal – cineasta que fez o único documentário do qual Jimi Hendrix participou de fato, Experience, de 1968 – e Douglas (que morreu em junho deste ano) decidiram tocar uma cinebiografia com o propósito principal de deixar Jimi falar: “sentimos que era imperativo que, em meio à pletora de mitos e meias-verdades, Jimi pudesse oferecer uma versão própria e pessoal de sua vida e sua música”, explica Neal na introdução do livro. Com isso em mente, ligaram para o pesquisador e músico Michael Fairchild, considerado um dos maiores especialistas em Jimi Hendrix do mundo, que topou na hora. A ideia era então juntar todo material possivelmente autenticável que saiu da boca (ou da caneta) de Hendrix.

“Foi um trabalho de detetive”, diz um bem-humorado Neal, por telefone, ao Estado, de Londres. “Ele vasculhou estações de rádio, pessoas que o conheceram, fitas, entrevistas, ele documentou tudo e começou a enviar para nós. Ele mandou pacotes e pacotes de transcrições. Eu comecei a cortar e separar em categorias (infância, banda, etc). É uma verdadeira bíblia. Nós pudemos perceber que Jimi contava sua história mesmo. Com tal humor, e tal percepção, e é tão divertido. Nós abandonamos o filme um tempo e passamos um ano tentando fazer isso funcionar como uma narrativa no papel”, explica.

Funcionou. É possível tanto ter uma noção clara da vida e da formação musical de Hendrix quanto perceber ali uma muito própria voz literária.

Na primeira parte do livro, mais condensada, ele fala dos primeiros 20 anos, passa pela relação conturbada com a família (a mãe morreu em 1958 e o pai carola nunca lhe deu muito suporte), mas o mais interessante são seus relatos sobre as viagens que fez pelos EUA – desde Seattle, onde ele ouviu de um vizinho um disco de Muddy Waters, seu primeiro guitarrista, passando pelo Tennessee, onde serviu o exército, Nashville, onde “aprendi a tocar de verdade”, Buffalo, Nova York, Atlanta. Nesse meio tempo, ouvindo e tocando com gente como Solomon Burke, B.B. King, Chuck Berry e Little Richard, aprimorou o seu ouvido sobrenatural com os mestres do blues, do soul e do rockabilly. Então, ele conheceu Chas Chandler, seu produtor no futuro, se mudou para Londres, foi apresentado ao baixista Noel Redding e ao baterista Mitch Mitchell, formou o Experience e mudou para sempre o jeito que as pessoas tocam guitarra elétrica.

Depois de uma série de shows bem-sucedidos no Reino Unido e um par de singles que foram muito bem nas paradas britânicas, Are You Experienced?, o primeiro álbum, chegou às lojas em maio de 1967. “É uma coleção de sensações livres e imaginação. (...) Escutar essa música deve servir para deixar a mente serena”, diz Hendrix no livro. Sucesso absoluto. Em junho, ele já estava tocando como um dos principais convidados do Monterey Pop Festival, na Califórnia – performance célebre por ele ter botado fogo na guitarra no final de Wild Thing.

“O uso completamente revolucionário da guitarra elétrica é sua grande contribuição. Foi revolucionário”, diz Neal. “Quando começou, em Londres, ele conheceu esse cara, Roger Mayer, um expert em eletrônica que trabalhava para o governo com submarinos. Roger reconstruiu completamente a guitarra de Jimi, recalibrando tudo, eles trabalharam juntos para produzir um som que ninguém mais seria capaz de produzir”, lembra. O mesmo raciocínio se aplica às gravações. “O mais revolucionário estúdio de todos os tempos, o Eletric Lady, ainda se sobressai”, diz, se referindo ao estúdio lendário construído por Hendrix no início de 1970 e desde então frequentado por nomes como Dylan, John Lennon, AC/DC e U2.

Mas Jimi não era só som – ler suas palavras sobre a própria vida revela o quanto a imagem, pelo menos a imagem que o som construía na sua própria mente, também era importante. “Eu queria um dia tocar uma nota e vê-la se transformar numa cor com luzes e imagens. Seria uma experiência completa!”, diz.

O livro tem mais: Jimi fala das performances históricas (Woodstock, Isle of Wight), comenta de passagem seu relacionamento com as ‘groupies’ (“ninguém fala das que trazem flores e voltam para a casa das mães”), dá suas declarações sobre a questão racial, fala com profusão sobre a própria música e sobre a sua filosofia muito particular. É uma viagem. E ele ainda convida: “não sei para onde vou, mas vocês todos podem vir comigo, todos vocês sem exceção. Venham na minha nave”.

JIMI HENDRIX POR ELE MESMO

Org.: Alan Douglas e Peter Neal

Tradutor: Ivan Weisz Kuck

Editora: Zahar (216 págs., R$ 39,90; R$ 24,90 o e-book)

Leia um trecho de Jimi Hendrix Por Ele Mesmo, em que Hendrix fala sobre o festival de Woodstock:

"[A nova banda de Jimi estreou no Woodstock Music & Arts Festival, em 18 de agosto de 1969.]

'Ei, estamos nos vendo de novo, mmm! Olha, queremos esclarecer uma coisa. Já estávamos cansados do Experience, e às vezes estávamos pirando demais, então decidimos mudar tudo e agora nos chamamos Gypsy Sun and Rainbown. Ou, resumindo, Band of Gypsys. No baixo, temos Billy Cox, de Nashville, Tennessee. Na guitarra, Larry Lee - Yellin’ Lee! E nas congas, Juma e Jerry Velez. E temos também um coração, o Mamãe Ganso, quer dizer, Mitch Mitchell, na bateria. E este que vos fala no trombone de vara.'

O estranho é que na nossa vez de tocar só sobravam 15 mil pessoas. Fiz questão de tocar com a luz do sol, o que significou esperar até o quarto dia, quando a maioria dos garotos já tinha se mandado. Não sei por que tanto estardalhaço com a história do hino nacional. Sou americano, por isso toquei o hino. Era o que me faziam cantar na escola, revivi esse momento, foi isso. Tudo o que eu fiz foi tocar. Eu estava achando bonito, mas, veja só…

Eu curti o festival de Woodstock, principalmente o Sly Stone. Gosto da batida, do pulso dele. Richie Havens é fora de série - e o cara do Ten Years After. Fiquei até com um pouquinho de inveja de ouvir ele tocar. Quinhentas mil pessoas num festival é um público excelente. Espero ter mais eventos assim. A não violência, a música mais genuína, aquele público acolhedor, disposto a dormir na lama, na chuva, suportar todos os incômodos. É tanta coisa que, somando tudo, a gente se sente como um rei.

Queria que todo mundo visse um festival como esse, vissem a mistura, a comunicação, a harmonia. Mas qualquer um pode arranjar um espaço, encher de gente e colocar bandas tocando uma atrás da outra. Eu não sou lá muito fã da ideia de enfileirar os grupos um depois do outro. Acaba virando tudo uma coisa só. É a tal história do dinheiro. Todo mundo quer explorar esse filão. Não estão nem aí para a garotada na plateia. Se chover, eles que se molhem.

'Quinhentas mil auréolas… brilharam mais que a mala e a história. Nos lavamos e bebemos nas lágrimas de alegrias de Deus, e dessa vez… E para todos… A verdade não foi um mistério.

Chegamos juntos… Dançamos com as pérolas do tempo chuvoso. Surfando as ondas da música e do espaço, música é mágica… Mágica é vida…'

Se quiserem amar os filhos, os pais precisam prestar atenção à música deles. A música tem muito a ver com o que está acontecendo hoje. É preciso entender isso. É melhor do que política. É mais fácil nos escutarem do que escutarem o que o presidente diz. É por isso que tinha tanta gente em Woodstock."

Veja um trecho da performance do guitarrista no Festival:

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