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REUTERS/Eric Thayer
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Livro ‘Philip Roth’ traz a vida do mestre literário como playboy ressentido

Biografia buscar mostra aspectos mais honestos da trajetória do escritor

Parul Sehgal, The New York Times

01 de abril de 2021 | 15h00

Em 2013, Philip Roth tinha uns 80 anos, acabara de se aposentar e estava, finalmente, em paz - pelo menos é o que ele gostava de dizer. Quando era um jovem romancista, costumava se aguilhoar no espelho: “Ataque! Ataque!”. Tempos depois, seu credo se tornaria “Deixe o repugnante entrar”. Ao longo de sua carreira - 31 livros em 51 anos, das diabruras de seus loucos Alexander Portnoy e Mickey Sabbath ao sofrimento dos heróis trágicos da chamada trilogia americana (Pastoral Americana, Casei com um Comunista e A Marca Humana) - ele se opôs às seduções da identidade de grupo. Fosse denunciado como a segunda vinda judaica de Goebbels (“O que está sendo feito para silenciar este homem?”, o presidente do Conselho Rabínico da América escreveu para a Liga Anti-Difamação) ou como um odiador de mulheres, Roth mantinha a noção de que o romancista deve meter “nariz na costura da roupa de baixo”, ser o inimigo das relações públicas. E, agora, aquele que encontrara a libertação no sexo e no trabalho dizia ter se livrado da tirania de ambos. “Quase todas as noites vou dormir com um sorriso bobo no rosto”, escreveu ele a um amigo, “e no escuro fico verdadeiramente alegre ao dizer baixinho: ‘Recuperei minha vida antes que capitulasse. As batalhas acabaram. Voltei para casa. E ganhei’”.

No geral, acho que os vencedores não se comportam como Roth se comportou naquela época, impondo freneticamente seu legado e lustrando sua marca. Ele montou uma refutação página a página das contundentes memórias matrimoniais de sua ex-esposa Claire Bloom, a qual amigos o convenceram a não publicar. Depois dispensou um biógrafo (seu ex-melhor amigo Ross Miller) e contratou outro (Blake Bailey), ao mesmo tempo em que, na verdade, tentava escrever tudo sozinho, recrutando amigos para conduzir entrevistas com as perguntas que ele próprio fornecia.

“O que aquele homem obsessivo ainda queria, quando não estava murmurando alegremente na cama, era um pedido de desculpas”, escreve Bailey em Philip Roth. Um pedido de desculpas de quem? Em resumo: ex-esposas perversas, filhos carentes das ditas ex-esposas, feministas que o acusaram de misoginia, críticos judeus que o acusaram de antissemitismo, The New York Times, John Updike, Irving Howe, suas costas doloridas, editores insuficientemente dedicados (“seu motor já não vibra ao som do meu nome”, ele se queixou de um deles) e possivelmente o Comitê do Nobel. Desde a primeira página, a mensagem é clara: Roth merece mais.

Bailey é um aclamado biógrafo de escritores, entre eles John Cheever e Richard Yates - “os seguramente mortos, como Hermione Lee descreveu seus próprios objetos. Certa vez, ele expressou alguma resistência a escrever sobre os vivos: “Teria dificuldade em escrever uma única página sem me preocupar com as consequências”, disse ele, admitindo que “quase certamente acabaria diluindo o conteúdo de alguma maneira”.

Em seu primeiro encontro, no ano de 2012, para todos os efeitos, uma entrevista de emprego, Roth foi sob todos os aspectos “um maestro imperioso”, Bailey lembra nos agradecimentos, examinando as credenciais deste “gentio de Oklahoma” - o que ele sabia sobre a tradição literária judaica americana? Aparentemente convencido, Roth então apresentou um álbum de fotografias dedicado a antigas namoradas - “um artefato que atestava a única paixão que jamais rivalizara com sua escrita”, escreve Bailey. “Ele adorava aquelas mulheres e vice-versa; muitas delas vieram à sua cabeceira quando ele estava morrendo, assim como eu”.

Com pouco menos de novecentas páginas, o livro é uma apologia extensa e meticulosa para o comportamento de Roth com as mulheres, dentro e fora das páginas, e um relato minuciosamente detalhado de sua vitimização nas mãos de suas duas esposas.

“Sempre tinha a ver com as mulheres”, escreve Bailey. A biografia percorre os vários estágios de sua vida, cada seção com uma mulher no centro: Bess, sua infatigável e muito idealizada mãe (pelo menos é o que afirma Bailey); Maxine Groffsky, a namorada da faculdade que se tornou modelo para Brenda Patimkin de Adeus, Columbus; Maggie Martinson, a desastrosa primeira esposa que de início era muito atraente para Roth por incorporar um certo “caos gói”. Mais tarde, haveria o longo relacionamento com Bloom (para não mencionar o longo caso que ele vivia ao mesmo tempo) e a comitiva de “texanas loiras vistosas”, enfermeiras, prostitutas, estudantes e filhas de amigos.

“Não quero que você me reabilite”, Roth instruiu a Bailey. “Só me torne interessante”. Em vez disso, recebemos um retrato estreito de uma vida ampla. Sabemos que os sessenta chegaram porque o livro nos diz que Roth agora tem o hábito de fazer propostas a mulheres no elevador. Quando ele viaja à Tailândia, Bailey especula: “O que mais o impressionou talvez tenha sido a onipresente disponibilidade de sexo”.

É comovente lembrar que Roth disse a Ross Miller que ele não queria que sua biografia soasse como “A história de meu pênis” - deveria se centrar em sua obra, não nas fofocas. Mas Bailey é estranhamente reticente quanto à obra. Roth muitas vezes afirmou que seria um péssimo tema para biografia - seria apenas ele olhando para a máquina de escrever.

“A monotonia da minha biografia faria com que O inominável de Beckett mais parecesse Dickens”, disse ele. Dessas horas, desses anos (Roth revisava cada romance de quatro a cinco vezes), Bailey nos diz pouco: será pelo fato de que é tão difícil descrever tais cenas, torná-las interessantes? Só se você for um escritor para quem as ideias não têm glamour, não têm um drama próprio. A escrita de Roth estava cheia de provocações sobre a arte da biografia, repleta de máscaras e véus e alter egos, obcecada em desplumar a ideia de um eu. Bailey evita tudo isso e oferece leituras de um tipo mais morno, observando sobretudo correspondências biográficas, muitas delas já conhecidas.

Copioso, cúmplice, escrito com miopia e ternura quase filial, em muitos aspectos o livro parece um estágio inevitável de luto público. Está feito e, como diz o psiquiatra ao final de O complexo de Portnoy, depois de ouvir uma poderosa torrente de confissões e justificativas, somos tentados a dizer: “Agora talvez possamos começar, não?”.  

Tradução de Renato Prelorentzou.

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