Editora Bazar do Tempo
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Livro narra história do Brasil por meio de 100 fotografias

Obra organizada por Ana Cecília Impellizieri Martins e Luciano Figueiredo abarca 200 anos

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

30 Outubro 2017 | 06h00

A primeira imagem registra o Paço Imperial no Rio de Janeiro, provavelmente flagrado na manhã do dia 16 de janeiro de 1840 pelo capelão francês Louis Comte e que se tornou um dos primeiros retratos feitos na América do Sul. E a última imagem foi tirada por Ricardo Stuckert em 2016 e mostra um punhado de índios da Amazônia, que ainda não tiveram contato com a civilização. Dois importantes registros que compõem o livro História do Brasil em 100 Fotografias, lançado agora pela Bazar do Tempo.

Organizada por Ana Cecília Impellizieri Martins e Luciano Figueiredo, a obra conta com um conselho curador formado por especialistas e com textos escritos por historiadores, autores e pesquisadores. Por meio das imagens, é traçado um painel de fatos decisivos da história brasileira, desde políticos (a abolição da escravatura, a proclamação da República, o suicídio de Getúlio Vargas, a violência da ditadura militar, as passeatas pelas Diretas Já) e sociais (escravos africanos, índios amazonenses, a morte de Lampião e o fim do cangaço, a tragédia ambiental de Mariana), sem se esquecer da cultura (o perfil do maestro Villa-Lobos, o sorriso de Carmen Miranda, Orson Welles flanando no Rio, os titãs da Bossa Nova, o nascimento da Tropicália) e do esporte (o Maracanazo de 1950, a conquista do tri no México-1970, o ídolo Ayrton Senna).

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A seleção de imagens compreende obviamente um recorte feito pelos organizadores, cientes de que haverá críticas pela ausência de inúmeras imagens igualmente importantes. “Primeiramente, pensamos nos temas incontornáveis da nossa história, nem todos fotografados. Também consideramos, do ponto de vista da própria história da fotografia, aquelas imagens também inescapáveis, mas que tivessem ligação direta com algum aspecto da nossa história”, comenta Ana Cecília. “Entendemos história de uma maneira ampliada e por isso consideramos não apenas os eventos, como guerras, conflitos e acontecimentos políticos, mas também personagens, expressões de nossa cultura (incluindo música, arquitetura, cinema, literatura), aspectos econômicos, mentalidades, comportamento.”

Nesse sentido, também figuram no livro registros visuais mais prosaicos como a cena de um ritual de candomblé e da Garota de Ipanema antes de inspirar Tom Jobim e Vinicius de Moraes. A opção estimula uma discussão sobre fotos emblemáticas. “Uma imagem é emblemática quando resume um fato social de tal forma que praticamente substitui esse fato no imaginário de todos”, observa o fotógrafo e curador do livro Milton Guran. “Esse registro não apenas dura no tempo, como marca o próprio tempo do fato apresentado.”

A fotografia chegou precocemente ao Brasil graças ao empenho do imperador Pedro II que, admirador das artes e ciências, incentivou a vinda de câmeras e de fotógrafos estrangeiros, atraídos pela natureza exuberante e pelo exotismo da sociedade, que unia índios e escravos africanos. “Ao longo dos tempos, o Brasil foi fartamente fotografado”, dizem os organizadores, no texto de abertura do livro.

“Entre os períodos do Segundo Reinado (1840-1889) e da Primeira República (1889-1930), a atividade fotográfica experimentou altos e baixos no País, recuperando sua força no período do entreguerras, a partir de uma conjunção de fatores, com destaque para o desenvolvimento do fotojornalismo a partir da Europa, a chegada dos fotógrafos estrangeiros no território nacional e a sua própria valorização no Brasil, conquistando cada vez mais espaço.”

É particularmente interessante acompanhar as imagens feitas durante períodos de exceção, como o Estado Novo (1937-1945) e da ditadura militar (1964-1985). “Se, por um lado, no Estado Novo havia o DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda), órgão federal que censurava e moldava a imprensa, por outro, esse mesmo governo viu que poderia tirar partido do rico ambiente fotográfico. É nesse contexto, seguindo também uma tendência internacional, que os próprios políticos passam a ser, eles mesmos, temas de reportagens, posando para fotógrafos, abrindo seus círculos domésticos, pois entenderam o poder da fotografia para construção de uma imagem desejada (de homens de valor, bons sujeitos, dignos de estima)”, comenta Ana Cecília, lembrando especialmente de Getúlio Vargas. 

Segundo ela, durante a ditadura militar, a fotografia era utilizada como um instrumento de poder, de convencimento. “Mas a fotografia não muda os fatos. Caso emblemático é o de Vladimir Herzog, que foi fotografado morto em uma cela no DOI-CODI de São Paulo por um jovem fotógrafo da polícia numa cena que forjava o suicídio do jornalista. Ao fim, a imagem acabou desmoralizando o regime e servindo para revelar as atrocidades cometidas nos porões da ditadura.” O livro traz ainda cenas peculiares como as pernas tortas do presidente Jânio Quadros e da menina que se negou a cumprimentar o presidente general João Batista Figueiredo.

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