Livro narra a vida de Clarice Lispector em 800 imagens

'Clarice Fotobiografia' foi organizado por Nádia Battella Gotlib, uma das maiores especialistas na obra da escritora

Ubiratan Brasil, de O Estado de S. Paulo,

12 de abril de 2008 | 16h21

Uma curiosa contradição parece marcar a trajetória da escritora Clarice Lispector (1920-1977) - se, por um lado, notabilizou-se pelo modo anticonvencional de organizar uma narrativa, valendo-se de uma escrita intimista, em que "as personagens não são seres excepcionais, antes são pessoas comuns, vivendo em um mundo, por assim dizer, mágico; mas de uma magia diferente, clariciana, feita de enigmas e perplexidades - uma magia nascida da exacerbação da palavra", no entender do poeta Ferreira Gullar; por outro, essa mulher reservada, em constante desajuste com o mundo, deixou-se fotografar (e muito) ao longo de sua vida, garantindo um maravilhoso rastro de imagens que, se não traduzem perfeitamente seu estado de espírito naquele momento, ajudam a mapear muitos de seus passos.   Veja também: Imagens do livro 'Clarice Fotobiografia'    É justamente apresentar a reconstituição dessa trajetória a missão do livro Clarice Fotobiografia, que a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo e a Edusp lançam em parceria (656 páginas, R$ 90). Organizada em ordem cronológica por Nádia Battella Gotlib, professora da USP e reconhecida como uma das maiores especialistas na obra de Clarice Lispector, a obra traz cerca de 800 imagens e oferece um painel visual da vida e obra da escritora em função dos lugares habitados ou percorridos por ela. O livro será lançado na terça-feira, a partir das 19 horas, na Livraria Cultura do Conjunto Nacional.   Nascida em Tchechelnik, Ucrânia, Clarice chegou ao Brasil com apenas dois anos, acompanhada dos pais e duas irmãs, fugindo da guerra civil que assolava seu país. A família passou por Maceió e Recife até se fixar no Rio de Janeiro. Entre 1943 e 1959, período em que esteve casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, a escritora o acompanhou em suas missões, vivendo em lugares tão distintos como Belém do Pará, Nápoles (Itália), Berna (Suíça), Torquay (Inglaterra) e Chevy Chase, localidade próxima de Washington (EUA).   "As 800 imagens (grande parte ainda inédita) registram momentos desse percurso de vida acidentado, marcado por sucessivos deslocamentos, desde a viagem de exílio da família, quando nasce a filha caçula, Clarice, que parece continuar sempre à procura de um lugar, com a sensação de 'não pertencer' a lugar nenhum", afirma Nádia, na apresentação do livro.   As viagens ao lado do marido nem sempre foram proveitosas. Vivendo em uma Europa já desgastada pela 2.ª Guerra Mundial, cujo final se aproximava, Clarice e Maury foram obrigados a viver em hotéis e consulados brasileiros durante muitos meses. A impossibilidade de montar sua própria residência e, principalmente, o fato de viver longe das irmãs, com quem manteve uma extremada relação de amor e ternura, fizeram com que Clarice sofresse, prejudicando o próprio trabalho da escrita.   Mesmo assim, ela estabeleceu novos parâmetros para a literatura brasileira. Especialmente na relação tempo e espaço. Ainda que colaborasse para jornais e revistas, meios de comunicação que se pautam exclusivamente pela realidade, a escritora utilizou as páginas de imprensa também para suas reflexões. "Sua produção é, a certa altura, chamada por ela mesma de ‘pulsações’, e está pautada pelo questionamento de valores, desconstrução de regras e certezas, movida pelo desejo dramático de narrar aquilo que, no fundo, constata ser inenarrável", observa Nádia Gotlib.   A profusão de fotos não apenas revela a bela face de uma mulher, mas complementa a obra única de um escritora notável que soube, como poucos, mergulhar nos mistérios da alma humana.

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