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Novo livro infantil mostra às crianças a luta para sobreviver

'O Lendário Duelo entre a Siriema e a Cascavel' trata o assunto de forma leve

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

08 de agosto de 2015 | 03h00

A primeira questão que invariavelmente surge em debates sobre a ficção infanto-juvenil é se existe ou não um tema interdito às crianças. Ela vai ser respondida com o lançamento, hoje, às 16h, na Biblioteca do Parque Villa-Lobos, do primeiro livro dedicado a elas pelo crítico de arte Rodrigo Naves, 60, também autor de livros para adultos (O Filantropo, A Calma dos Dias, ambos lançados pela Companhia das Letras). Em O Lendário Duelo entre a Siriema e a Cascavel, publicado pela editora Terceiro Nome, Naves prova - como no passado o fizeram Shel Silverstein e Maurice Sendak, banido no passado, nos EUA - que todos os temas são aceitáveis, desde que o escritor seja bom.

Autor de obras referenciais sobre artistas brasileiros (Amilcar de Castro, Goeldi, Nelson Felix) e estrangeiros (El Greco), Rodrigo Naves era muito amigo do poeta e tradutor José Paulo Paes (1926-1998), que também escrevia para crianças. Paes tinha verdadeira aversão às poesias infantis que lera no ginásio, o que o levou a escrever rimas muito delicadas e versos engraçados, lúdicos - e ao mesmo tempo muito sérios. Uma de suas insólitas historietas é a de um cemitério de animais onde repousam o leão Augusto, que morreu de susto com seu próprio urro, uma pulga chamada Cida, que se matou com inseticida, e um morcego que, por ser cego, morreu de amor por outro morcego.

Em O Lendário Duelo entre a Siriema e a Cascavel, Naves, auto do prefácio do livro com a poesia completa de José Paulo Paes, segue a trilha poética do amigo ao apresentar animais elegantes (como o cavalo), graciosos (como a foca) e desproporcionais (embora encantadores, com o tucano), antes de introduzir aos leitores uma siriema de pernas fininhas e uma cascavel faminta que, “mesmo sendo esguia e elegante”, precisa comer. Um dia, ao passear pelo cerrado, a cobra encontra um filhote de siriema que caiu do ninho. O que se segue é o próprio título do livro, um duelo mortal pela sobrevivência.

Livros que propõem um desafio às crianças, dizem escritores como Rebecca Westcott, oferecem a elas uma oportunidade de explorar novas possibilidades e perguntar o que fariam no lugar de personagens aflitos ou em situação de perigo. Criam, enfim, empatia. Maurice Sendak, o autor de Onde Vivem os Monstros, sempre se perguntou como uma criança pode sobreviver num mundo de natureza hostil como o nosso..

Naves, ao abordar a luta pela sobrevivência, rejeita, como Paes, a lição de moral que autores de livros infantis consideram inevitável dar aos pequenos. Não idealiza a natureza, retratando-a como harmoniosa. Estabelece com ela uma relação de igualdade com a própria consciência, como diz a filosofia (da identidade) de Schelling. O filósofo alemão acreditava que, por meio da arte, essa consciência poderia se desenvolver. Naves, que há mais de duas décadas ministra um curso livre de arte, ecoa esse pensamento ao tratar da relação com a natureza sem muita pedagogia e com a colaboração do delicado desenho da arquiteta paulistana Luísa Amoroso.

O crítico, que tem um sítio em Cássia dos Coqueiros, não chegou a testemunhar nenhuma luta entre siriemas e cascavéis, mas imaginou o que aconteceria se um filhote daquela ave típica do cerrado, que pode gritar por longo tempo, fosse perseguido por uma cobra peçonhenta. “É um livro infantil, mas que os adultos podem ler para as crianças”, resume. 

O filho do crítico, nomeado José Paulo em homenagem a Paes e hoje advogado, aprendeu muito lendo a poesia do tradutor de Nostromo. “Não me lembro de ler muito para ele quando criança, mas José Paulo tinha um fascínio enorme pelos livros do poeta”.

Naves, que participa na terça-feira, 11, às 20h, de um bate-papo sobre literatura infanto-juvenil, no Estúdio Madalena (R. Faisão, 75), vai justamente abordar no encontro a questão dos livros para crianças com temática fora dos limites. Deve tratar do amor por três cadelinhas que fazem parte de sua vida: Clara, uma dachshund cega, Aika, uma pastora branca que morreu, e Russa, uma vira-latas de vida autônoma. Nessa história, que poderá ou não virar outro livro no futuro, culpa e libertação são dois temas da experiência existencial de um grande crítico, que aprendeu muito com os artistas e os animais.

O LENDÁRIO DUELO ENTRE A SIRIEMA E A CASCAVEL.

Autor: Rodrigo Naves

Editora: Terceiro Nome (32 páginas, R$ 37). 

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