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Acervo Estadão
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Livro inédito de John Steinbeck não será lançado por ser considerado 'menor'

Detentores do manuscrito 'Murder at Full Moon', concluído em 1930, se recusam a publicá-lo; entenda o caso

Heather Murphy, The New York Times

31 de maio de 2021 | 20h00

Nove anos antes de John Steinbeck publicar sua histórica obra-prima, ganhadora do Prêmio Pulitzer, As Vinhas da Ira, ele estava trabalhando em um romance policial leve, estrelado por um lobisomem. 

O manuscrito, Murder at Full Moon (Assassinato na Lua Cheia), foi concluído em 1930, mas nunca publicado. Uma única cópia está guardada, em grande parte esquecida, em um arquivo no Texas desde 1969. Inclui desenhos do próprio Steinbeck. Agora um estudioso da literatura americana na Universidade de Stanford está pressionando para que o livro seja publicado, mas os agentes do espólio de Steinbeck recusaram veementemente na semana passada, depois que o esforço foi publicado no jornal inglês The Guardian

O professor Gavin Jones não se intimidou. Ele desenterrou Murder at Full Moon do arquivo do Harry Ransom Center, em Austin, enquanto trabalhava em um livro sobre Steinbeck. “Adoraria ver publicado”, disse ele. Sua descrição do livro iluminou o Twitter literário e fóruns de livros online. Sim, muito antes de Steinbeck ser um ganhador do Nobel conhecido por clássicos literários da era da Depressão, o escritor com dificuldades financeiras havia tentado misturar gêneros mais típicos da ficção popular da época.



“Eu esperava um trabalho fragmentado, bizarro e incompleto”, disse Jones. Em vez disso, encontrou um manuscrito coerente e completo de 233 páginas. “É estimulante, mas também é o caldeirão de temas centrais que vemos em todo o trabalho posterior de Steinbeck”, observa. 

Por isso, Jones acredita que vale a pena compartilhar com o público. Sua campanha gerou uma declaração firme por e-mail dos agentes de Steinbeck esta semana.

“Steinbeck escreveu Murder at Full Moon sob pseudônimo e, uma vez que se tornou um autor estabelecido, não optou por buscar a publicação deste trabalho”, escreveu um representante da agência com sede em Nova York, McIntosh & Otis. “Existem várias outras obras de Steinbeck publicadas postumamente, com suas orientações e a consideração cuidadosa do espólio. Como agentes de longa data de Steinbeck, não exploramos obras que o autor não desejava que fossem publicadas.”

O pseudônimo que Steinbeck escolheu foi Peter Pym. Jones disse que o uso do nome não significava que Steinbeck não queria que o livro visse a luz do dia. O autor não se desfez do manuscrito, algo que já havia feito com outras obras inéditas, observou o professor. “Ele não destruiu Murder at Full Moon”, disse ele.

Steinbeck escreveu a história em nove dias, segundo William Souder, autor da biografia Louco no Mundo: Uma Vida de John Steinbeck. O escritor tinha 28 anos em 1930, morava em uma casa de campo em Pacific Grove, perto de Monterey, na Califórnia, esperando por sua grande chance. No ano anterior, publicou seu primeiro livro, Berço de Ouro (1929), uma aventura de piratas fanfarrões ambientada no Caribe nos anos 1600. Embora tenha recebido críticas melhores do que o esperado, o livro já estava esgotado, disse Souder. Steinbeck escrevera obras mais sérias, mas não teve sorte em vendê-las. Ele disse a um amigo que tudo de que precisava eram outras 10 ou mais rejeições para se convencer de que deveria desistir de escrever.

Como também estava falido, decidiu: “Vou escrever algo terrível para consumo público e tentar ganhar alguns dólares com isso”, disse Souder. O processo de escrita de Steinbeck normalmente envolvia rabiscar páginas à mão, no que Souder chamou de caligrafia “microscópica”. Sua esposa, Carol Henning Steinbeck, uma excelente editora, então datilografava, às vezes fazendo ajustes ao longo do tempo. Levou algumas semanas para digitar Murder at Full Moon, disse o biógrafo.

Jones, que é uma das poucas pessoas que já leram o livro, descreveu a trama (spoilers à frente): a obra se concentra em um jovem repórter que consegue um emprego na cidade fictícia de Cone City, perto de um pântano assustador e sombrio. Ele logo é atraído para a órbita de um clube de caça local. 

Quando o cachorro de um dos membros é morto em uma noite de luar, o repórter e um excêntrico candidato a xerife decidem investigar. Seguem-se outras mortes mais horríveis de pessoas, sempre sob a lua cheia. As ilustrações de Steinbeck incluem uma cena de crime. 

Para encontrar o assassino - que eles começam a suspeitar que pode ser um monstro sobre-humano que surgiu do pântano -, os investigadores aplicam uma teoria de detecção de crime baseada na leitura de mistérios de assassinatos ruins. Esse elemento dá ao romance um “toque pós-moderno e irônico”, disse Jones. “É um pedaço perdido da Califórnia noir. Acho que ele estava inventando algo aqui.”

Steinbeck, que abandonou Stanford, poderia se surpreender com o fato de um professor de Stanford um dia elogiar o livro. O uso de um pseudônimo pode parecer estranho para um público moderno, que se acostumou a autores de ficção literária que se interessam por terror e outros gêneros. Mas quando Steinbeck enviou o manuscrito a um amigo da faculdade fez a ressalva: “Não quero que ninguém saiba que tive alguma coisa a ver com isso”, relata Souder. Não está claro se os editores rejeitaram formalmente o livro ou se Steinbeck o fez de maneira adequada, acredita Souder.

Pouco depois de terminar o romance, Steinbeck encerrou o trabalho com um agente, que vendeu um livro mais ambicioso, Pastagens do Céu (1932), iniciando uma nova fase na carreira do autor. Quando As Vinhas da Ira foi publicado em 1939, com sua história emocionante de trabalhadores rurais forçados a migrar da bacia de poeira da Depressão de Oklahoma, tornou-se uma sensação da noite para o dia. 

Outras obras, como A Rua das Ilusões Perdidas (1945) e Ratos e Homens (1937), também se tornaram clássicos da sala de aula. Steinbeck morreu em 1968, aos 66 anos. Souder, que ainda não leu Murder at Full Moon, não está tão animado quanto Jones, mas concorda que vale a pena publicar. Ele sugeriu um meio-termo: o livro deve ser publicado “com uma introdução acadêmica ou prefácio que o enquadre adequadamente como um livro que Steinbeck escreveu apenas na esperança de ganhar algum dinheiro rápido e não como um livro que pertence ao canal principal de seu desenvolvimento como um escritor”.

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