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Livro homenageia Thomas Merton, grande escritor e místico do século 20

Celebração ocorre pelos 100 anos do monge trapista

José Maria Mayrink, O Estado de S. Paulo

31 Janeiro 2015 | 03h00

O centenário de nascimento do monge trapista Thomas Merton, um dos maiores escritores e místicos do século passado, será comemorado neste sábado (31), em São Paulo, com missa solene, exposição de fotos e desenhos, palestra e lançamento de Mertonianum 100, uma coletânea de artigos e depoimentos sobre a vida e a obra do autor de A Montanha dos Sete Patamares e de mais 70 livros, metade deles traduzidos para o português. A iniciativa da comemoração, que começa às 10 h, no Mosteiro de São Bento, no centro, é da Sociedade dos Amigos Fraternos de Thomas Merton, filiada à International Thomas Merton Society.

Nascido em 31 de janeiro de 1915, na cidade medieval de Prades, nos Pirineus do sul da França, Merton era filho de pai neozelandês e mãe norte-americana, que em 1916 se mudaram para Long Island, nos Estados Unidos. Foi para a Inglaterra com o pai e o irmão mais novo, John Paul, após a morte da mãe, quando ele tinha 6 anos. O pai morreu em Londres em 1931 e John Paul, piloto da Real Força Aérea (RAF), foi abatido pelos alemães no Canal da Mancha, na 2.ª Guerra. Voltou para os EUA em 1933 e dois anos depois entrou na Universidade Columbia.

Merton formou-se em literatura inglesa, foi professor no City College de Nova York e crítico literário dos jornais The New York Times e do Ney York Herald Tribune. Por influência de seu amigo Robert Lax, judeu convertido ao catolicismo, se interessou pelo estudo de São João da Cruz e começou a pensar em ser padre. Tentou ingressar na Ordem dos Franciscanos, mas desistiu quando lhe disseram que não tinha vocação. Levou vida quase monástica nos dois anos em que foi professor na Faculdade Franciscana de São Boaventura e escreveu seus primeiros livros – um diário e três romances – nenhum deles aceito por editoras. 

Um retiro espiritual com os trapistas em Gethsemani, no Kentucky, apontou-lhe o caminho para o claustro. Tomou a decisão ao voltar ao mosteiro, depois de trabalhar algum tempo entre a população negra do Harlem, em Nova York. Rasgou os três romances, deu suas roupas aos negros e enviou o que restava – seus poemas, o diário e o manuscrito da novela Journal of My Escape from the Nazis – para um amigo. Com uma maleta na mão, Merton chegou sozinho à Abadia de Gethsemani no dia 10 de dezembro de 1941. Tinha 27 anos.

Silêncio, oração e trabalhos manuais no mosteiro, uma rotina de solidão querida, marcaram os 27 anos seguintes, até a morte por acidente num hotel de Bangcoc, na Tailândia, quando levou um choque ao pisar num fio desencapado de um ventilador ao sair do banho. Morte pressentida? “And now I will desappear” (Agora eu vou desaparecer), essas tinham sido as últimas palavras da conferência feita pouco antes num encontro com líderes religiosos asiáticos. O diálogo com as crenças do Oriente foi uma das paixões de Thomas Merton. 

O monge trapista se tornou conhecido internacionalmente com o lançamento de A Montanha dos Sete Patamares, em 1948. Os primeiros exemplares começaram a chegar às livrarias em 4 de outubro. Prevendo o sucesso, a editora aumentou a tiragem inicial de cinco mil para 12 mil cópias. “Vã precaução”, pois a tiragem desta primeira edição alcançaria rapidamente a marca de 600 mil, como informa J.C. Ismael, ex-crítico de cinema do Estado e autor do livro Thomas Merton, o Apóstolo da Compaixão ( T.A. Queiroz, Editor, 1984). O best-seller foi publicado no Brasil pela Editora Mérito com tradução de José Geraldo Vieira. Thomas Merton escreveu sobre as mais relevantes questões de seu tempo, como segregação racial, não violência, diálogo ecumênico, consciência ecológica e risco de uma hecatombe nuclear. 

Pelo menos 24 livros de Merton foram traduzidos no Mosteiro da Virgem, em Petrópolis, pela irmã beneditina Maria Emmanuel de Souza e Silva, amiga do autor, com quem se correspondia com frequência. Outro contato do monge trapista no Brasil foi Alceu de Amoroso Lima, que lhe escrevia sempre. Thomas Merton gostava do Brasil e, por causa de escritores brasileiros como Jorge de Lima, Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, fez questão de estudar português, uma das seis línguas que falava e de que mais gostava. “O beneditino brasileiro d. Teodoro Koch, que conviveu com Thomas Merton em Gethsemani, ajudou-o a entrar em contato com a nossa cultura”, informa d. Alexandre de Andrade e Silva, um dos colaboradores do livro Mertonoanum 100.

Essa coleção, publicada por iniciativa do Grupo de Leitura Partilhada de Thomas Merton, sob a coordenação de Amália Ruth Borges Schmidt, em São Paulo, traz 16 textos de religiosos, leigos e pesquisadores da vida e obra de Merton. Entre eles, d. Bernardo Benowitz, abade do mosteiro trapista de Nossa Senhora do Novo Mundo, em Campo do Tenente, no Paraná. A Ordem Cisterciense de Observância Estrita (OCSO), ou dos trapistas, é muito mais rigorosa que a Ordem de São Bento, da qual é originária. Sendo trapista, Thomas Merton dependia de autorização para escrever, viajar e se corresponder com amigos. 

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Programa da comemoração, sábado, dia 31, no Mosteiro de São Bento:

10 horas - Missa pontifical presidida pelo cardeal arcebispo de São Paulo, d. Odilo

Scherer e concelebrada pelos abades d. Mathias Braga (beneditino) e d.

Bernardo Bonowitz (trapista)

11 horas - Inauguração da Exposição de Fotos e Desenhos de Thomas Merton

11h30 - Palestra de d. Bernardo Bonowitz sobre Thomas Merton e os trapistas

1h30 - Lançamento do livro Mertonianum 100 (Riemma Editora - R$ 40,00)

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