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Livro fala sobre a propaganda que justificava o extermínio judeu na Alemanha

Jeffrey Herf detalha a paranoica campanha movida pelos nazistas

Marcos Guterman, O Estado de S. Paulo

04 de abril de 2015 | 03h00

Em um discurso para preparar a Alemanha para a guerra que ele tanto queria, Adolf Hitler disse que “o vitorioso não terá de explicar depois da guerra se contou a verdade ou não”. Com sua crueza habitual, o ditador nazista resumiu a essência do pensamento totalitário, em que conceitos como “mentira” e “verdade” são irrelevantes, pois o que importa é o poder – este sim, o único mediador da realidade. Assim, aos alemães restava acreditar no que diziam Hitler e sua máquina de propaganda, pois somente essa fantástica estrutura de dominação tinha a capacidade de revelar a verdadeira face do inimigo e suas tramoias.

A força dessa propaganda tornou-se, com justiça, um dos principais objetos de estudo da historiografia do fenômeno nazista, e não surpreende que Joseph Goebbels, o chefe da estrutura de comunicação do Terceiro Reich, tenha se transformado em um personagem quase tão citado quanto o próprio Hitler quando se pretende retratar o espírito do regime, pois foi de sua lavra grande parte da retórica que o sustentou. Contudo, raros são os estudos que explicam a engenharia desse aparato, isto é, como a narrativa foi construída e de que maneira ela foi imposta aos alemães. É esse o mérito do livro Inimigo Judeu, do historiador americano Jeffrey Herf, que acaba de sair no Brasil.

Herf é um dos principais estudiosos do pensamento que resultou no nazismo e que sustentou Hitler no poder. Em Modernismo Reacionário, livro já publicado no Brasil e sua obra mais conhecida, ele mostrou como o nazismo aliou os avanços técnicos aos delírios românticos antirracionais. Em Inimigo Judeu, Herf revela de que modo essa irracionalidade moderna permitiu que os nazistas transformassem as técnicas de comunicação em instrumentos de conversão das massas a seu projeto genocida. Para isso, e essa é a tese controversa do livro, trataram de fazer do ódio aos judeus a pedra angular de sua estratégia midiática, transformando a Segunda Guerra Mundial em uma guerra contra os judeus.

O trabalho de Herf utiliza como fonte central os documentos produzidos pelo Escritório de Imprensa do Reich, vinculado ao Ministério da Propaganda. Esse escritório era responsável por orientar os jornalistas alemães sobre como retratar os acontecimentos. Herf mostra que era Hitler, em pessoa, quem orientava Otto Dietrich, responsável por esse setor crucial no esforço de comunicação do Reich. Era o ditador, portanto, quem procurava determinar a crônica dos eventos e, portanto, controlar a própria História. E Herf assegura que Hitler acreditava em tudo o que ditava a Dietrich – que tinha acesso diário ao Führer, numa frequência maior do que a de qualquer general, o que denota a importância da comunicação no esforço de guerra nazista.

As instruções de Hitler, traduzidas em diretrizes aos jornalistas, mostram que, para ele, os judeus tinham pleno controle sobe todos os acontecimentos e estavam por trás dos governos que se aliaram para combatê-lo. A ideia de que os judeus manipulavam a realidade não era nova. Teve sua expressão mais significativa no livro Protocolos dos Sábios de Sião, uma fraude publicada pela primeira vez na Rússia, no início do século 20, que trazia as atas de uma assembleia fictícia na qual judeus debatiam os melhores métodos para enganar o mundo com o objetivo de dominá-lo. Herf mostra que Hitler e Goebbels acreditavam nos Protocolos, talvez nem tanto pelo conteúdo em si, mas sobretudo porque faziam sentido.

Essa obsessão pelo sentido está na essência do esforço de comunicação dos nazistas. Não importavam as mentiras; o fundamental é que elas tivessem lógica, pois os alemães precisavam ser convencidos da necessidade de se exterminar os judeus. E o material produzido a partir desse imperativo, conforme mostra Herf em detalhes, deixou claro a todos que a Alemanha estava empreendendo uma política de aniquilação dos judeus da Europa.

Herf se esforça para demonstrar que a histeria nazista a respeito do poder dos judeus não tinha nenhuma base real. O historiador se dá ao trabalho de rebater cada argumento construído pelo regime para justificar o genocídio, como se as mentiras contadas pelos nazistas fossem argumentos com legitimidade suficiente para merecer contrapontos racionais – e esse talvez seja o principal problema do livro. No entanto, por paradoxal que pareça, Herf presta um grande serviço ao fazer isso, pois seu esforço resulta num precioso manual para entender as estratégias do negacionismo – corrente de pseudo historiadores, muito popular em partes da Europa e do mundo árabe, que se dedica a disseminar as mesmíssimas mentiras do nazismo a respeito do poder dos judeus para justificar todas as desgraças do mundo.

INIMIGO JUDEU

Autor: Jeffrey Herf

Tradução: Walter Solon

Editora: Edipro (392 págs.; R$ 69)

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